André Giusti - foto: Luana Lleras
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Pela imediata devolução dos cadeados de bicicleta

Acho que um dos males da vida moderna é fazer uma coisa pensando em outras duas ou três. É assim que se perde carteira, óculos. No meu caso, dancei no cadeado que prendia minha bicicleta na garagem do prédio. Tirei e não pus de imediato onde costumo pôr. Suponho que tenha deixado no chão, pois [...]

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Acho que um dos males da vida moderna é fazer uma coisa pensando em outras duas ou três.

É assim que se perde carteira, óculos. No meu caso, dancei no cadeado que prendia minha bicicleta na garagem do prédio.

Tirei e não pus de imediato onde costumo pôr. Suponho que tenha deixado no chão, pois já revirei os cinco continentes e não encontrei.

Como ainda tenho um resto de fé na humanidade, logo que dei por falta dele, fui à portaria perguntar se alguém encontrou e devolveu. Fiz isso duas vezes e já me convenci de que terei mesmo que comprar outro.

Imagino quem achou repetindo a velha rima de quando eu era criança: “achado não é roubado, quem perdeu foi descuidado”. Parece uma frase bonitinha e inocente dita por criança, mas é um péssimo indício de formação de caráter.

Não, achado não é roubado, mas também não deve ser, em boa parte dos casos, de quem acha. Ainda mais se foi achado no prédio em que você mora ou no ambiente de trabalho. O “descuidado” é provavelmente seu vizinho ou seu colega.

Domingo agora, dia 16, anunciam novos protestos contra a corrupção. Vou sugerir que protestem também pela devolução de todos os cadeados de bicicletas que foram achados e dos quais os donos nunca mais tiveram notícias.

Vou pedir também que protestem pela devolução das carteiras e dos óculos. Que protestem sim contra qualquer forma de corrupção, inclusive esta, que é se apropriar do que não é nosso, vestindo a capa da desculpa do descuido do outro.

Do contrário, acho inócuo pedir a renúncia da presidente ou de qualquer outro político.

Até lá, me aperto ainda mais no apartamento, dividindo o pouco espaço com minha magrela, porque se levaram um cadeado tão besta, que dirá o que ele prendia.

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Comentários (2)

  1. Sergio -

    O “achado não é roubado” é uma das pequenas corrupções do cotidiano que a maioria das pessoas não dá importância e, como vc bem lembrou, tem muito a ver com o caráter. Belo texto, amigo.

  2. Denise Giusti -

    Como sempre, o texto muito bom e nos leva a refletir sempre sobre nossas atitudes. Afinal, a mudança acontece primeiro conosco e com o nosso exemplo.

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