André Giusti - foto: Luana Lleras
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Por via das dúvidas.

Desde quando soube que a cirurgia era inevitável, a morte deixou de ser uma hipótese tão afastada assim. Em verdade, vivendo em cidade grande, ela não deveria ser para ele nenhum absurdo. Nós, cupins da madeira das grandes metrópoles, escorregamos todos os dias entre ônibus que avançam sinais e mentes povoadas pelos inventos de uma [...]

Desde quando soube que a cirurgia era inevitável, a morte deixou de ser uma hipótese tão afastada assim. Em verdade, vivendo em cidade grande, ela não deveria ser para ele nenhum absurdo. Nós, cupins da madeira das grandes metrópoles, escorregamos todos os dias entre ônibus que avançam sinais e mentes povoadas pelos inventos de uma nova modalidade de sequestro ou assalto. Fora isso, há o indigesto bolo da vida diária, que se desce pela garganta não passa do estômago, de onde fica irradiando científicas possibilidades de câncer, derrame, enfarte.

Não era o maior dos otimistas, mas levava os trancos com um certo olhar erguido, achando sempre que no fim superaria. Viver até bem velho era uma “certa certeza” que o acompanhava do nada, já que essas cismas não têm maneira de serem comprovadas.

Mas justo agora, posta pela primeira vez à prova, a tal da intuição já titubeava. A morte, que raramente passeava em seus pensamentos, tornou-se lembrança diária, mesmo que discreta espectadora que senta-se na última fileira da platéia, mas que comparece a todas sessões e assiste até o final ao espetáculo. 

Ora, é um cirurgia simples, de risco bem reduzido, e discutia com a própria consciência, esta tentando animá-lo, sem entender aquele medo de que a canoa virasse logo na primeira sacudida do rio.

O problema é esse risco bem reduzido, ele devolvia em diálogo calado com a cabeça, é sempre dele que podem surgir as mais terríveis  e devastadoras possibilidades. Não vê a porta aberta apenas com uma fresta? É só um mínimo espaço, por onde mal passa o vento. Mas como ela não está trancada, se ventar mais forte a porta escancara, e nos invade a casa não apenas a ventania, mas o que tiver que entrar de males e demônios.

E de mais a mais, pode o procedimento ser tão tolo e menos dolorido que unha encravada, mas há a tal da anestesia geral, a única possível no caso. Tomar uma agulhada que lhe paralise os nervos, sempre lhe pareceu como saltar em um poço que não se vê o fundo. Por mais que digam é raso, você mergulhará e sairá do outro lado, bem ali, ó, ele temia ficar pela metade, agarrado por uma vegetação desconhecida no fundo lodoso, engolhido por um bicho estranho do qual até então só se falava em lenda. Ou então, vencer a travessia, mas surgir do outro lado inválido, sem consiência de si mesmo, entortado numa cama para todo o sempre porque descobriram tarde demais que ele era alérgico a sei lá que substância contida naquela maldita agulha.

Ô, homem sem fé! E a razão reagia, cutucava a esperança para que a ajudasse a combater a fantasia da aflição. Trazia exemplos de gente conhecida – o jogador de futebol que operou e continuou a carreira – e de pessoas próximas – o fulano do escritório contou que nem bem sentiu a picada e já estava dormindo feito bebê, acordou inteiro, sem lembrar de nada -.

Claro, claro, o normal na vida é justamente o normal. Os entreveros, os delizes, só de vez em quando, para quebrarem a rotina. O corriqueiro é o avião levantar voo e pousar. Cair é uma vez ou outra. Claro, claro, ele concordava consigo mesmo quando o enfermeiro veio buscá-lo em uma cadeira de rodas para levá-lo até o centro cirúrgico.

Dormir feito um bebê, morrer bem velho, voltou a acreditar.

Mas por via das dúvidas, deu um último olhar para tudo.

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Comentários (3)

  1. Maria -

    A propaganda não foi enganosa, André: você expressou com muita leveza a angústia humana diante da (ainda que mínima) possibilidade de morrer ou de “se dar mal”. Gostei muito.

  2. Denise Giusti -

    Completando: Na verdade o problema para mim pelo menos é e será sempre não querer deixar as pessoas que amamos! O resto é resto, passa ….

  3. Denise Giusti -

    Muito bom o texto! Poético, adoro! Homens de pouca Fé! Já estive bem perto de ir embora, pelo menos pensavam meus amores ao meu redor, pois eu mesma tinha certeza que não era a hora. Os via com os olhos aflitos, e alguns choravam na minha frente e eu os animava dizendo: Não se preocupem sou muito ruim para ir embora, só irei quando estiver velhinha. Não sei porque temos tanto medo da morte, acho que o outro lado é bem melhor que aqui!

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