André Giusti - foto: Luana Lleras
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Recuperar, verbo lento.

Verbos têm velocidade. Foi a conclusão a que chegou depois que fizeram três furos em sua barriga para que tubos com câmeras remendassem sei lá o quê nas fibras musculares. Arregalando os olhos para que não se fechassem ao peso dormente da inutilidade, foi além, fixando o canto do rodapé, onde as paredes da sala [...]

Verbos têm velocidade. Foi a conclusão a que chegou depois que fizeram três furos em sua barriga para que tubos com câmeras remendassem sei lá o quê nas fibras musculares. Arregalando os olhos para que não se fechassem ao peso dormente da inutilidade, foi além, fixando o canto do rodapé, onde as paredes da sala se encontram. Recuperar é verbo dos mais lentos, arrastado feito quem comeu feijoada e sobe ao sol ladeira de Ouro Preto. É carro modelo popular com cinco passageiros subindo a serra.

Amar é verbo rápido, ama-se muitas vezes a partir do primeiro olhar. Curto ou longo, dependendo se acaba depois do carnaval ou vai pela vida inteira. Matar é veloz se for por desatino, vagaroso por crueldade. Pensar também, é um gato desvairado pela noite fugindo do perigo, ou um paquiderme que transpõe metros em horas quando é sobre a vida para se tomar decisão.

Recuperar, entretanto, é moeda de apenas uma face, feudo instranferível da indolência. Quanto se leva para recuperar a fortuna perdida no jogo? A casa levada pela enchente? A confiança de quem decepcionamos? Ora, que filosofias baratas não sugerem a falta do que fazer! Ele só quer poder andar um pouco mais, uns passos a mais que sejam além do itinerário quarto-banheiro-sala-corredor, galgar uma vez que seja o mundo inantingível da esquina, o formidável universo da banca de jornal.

Mas recuperar é verbo que exige o dobro do limite que deram a sua paciência. E na quinquagésima vez em que hoje se deita na cama sempre morna de seu corpo, lembra que precisa pensar e decidir sobre a vida, mas que decidir também é, dependendo da situação, outro que a gente chama chama e não vem.

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Comentários (3)

  1. Angela Giorgio -

    …esquina, banca de jornal de verdade, so’ no Rio de Janeiro…ha’ha’ha’
    Mas compartilho a opiniao de que o texto e’ muito bom meeesmo! Como e’ lento recuperar o que perdemos, o que se foi…E o tempo? Esse e’ irrecupera’vel!
    Abs
    Angela

  2. Denise Giusti -

    Adorei! Concordo com a Raquel, porém acho que muitas merecem entrar em um livro!

  3. Raquel Madeira -

    muito bom mesmo! Este merece entrar num livro.

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