André Giusti - foto: Luana Lleras
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Rubem Braga*, meu mestre.

Há muito tempo eu não me encontrava com você. E hoje, por um  desses desvios que a vida nos dá de presente como remanso da rotina, abri um de seus livros numa de suas histórias* mais preciosas. Era um lugar em que o sol da manhã brincava de recortes com jaqueiras, jequitibás e mangueiras, e [...]

Há muito tempo eu não me encontrava com você. E hoje, por um  desses desvios que a vida nos dá de presente como remanso da rotina, abri um de seus livros numa de suas histórias* mais preciosas.

Era um lugar em que o sol da manhã brincava de recortes com jaqueiras, jequitibás e mangueiras, e de uma a outra, em voos largos, outros breves, o bem-te-vi, o sanhaço e o joão-de-barro cumpriam a tarefa da polinização, ameaçada pelo bicho homem e seu desprezo pelas árvores.

Cantavam os pássaros. Creio eu que me contavam sobre você: ah, esses nos conhecia, pelo canto e pelo voo de acordo com o vento. Foi o que supus, não entendo a linguagem deles, essa ciência era seu domínio, um de seus ingredientes para transformar o corriqueiro em magnífico.

Pois sentado com o livro entre as mãos emocionadas, eu parecia aquele sobrinho que ouve o velho tio depois de ter ido correr mundo e voltado sabendo que o mundo é bem diferente daquele que estava nos meus planos. Ao redor havia o vento nas folhagens e a insistência dos pássaros, agora em outro assunto. Lembravam-me que a simplicidade é coroa da beleza, e que esta de nada mais precisa para ser o que é. Advinha nos livros de quem aprendi isso!

Eu tinha doze anos quando fui apresentado a eles. Só mesmo um mestre de muito talento para caputar a cabeça de um garoto para quem a importância da vida não ia além do time de botão, do campeonato de futebol e das primeiras meninas. Hoje, lendo na maturidade suas crônicas – ou será que poemas com outra roupa? -, noto que você é bem melhor do que quando eu tinha certeza de que você era ótimo. É como se eu voltasse pelo mesmo caminho, mas agora reparando na pitangueira que não percebi na ida, ou no casebre distante que me fugiu porque estava olhando para o lado oposto. Acho que a vida se apiedará de mim outras vezes, e me ofertará alguns outros remansos na rotina antes que eu vire sopro no infinito. Aí faço de novo o caminho e conto o que descobri a mais.

* Rubem Braga é considerado o maior cronista brasileiro depois de Machado de Assis. Ele morreu em dezembro de 1990, aos 77 anos.

* A casa dos homens (do livro O verão e as mulheres).

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Comentário (1)

  1. angela giorgio -

    Ha’ um que^ de nostalgia no seu texto, que muito me emocionou…Rubem Braga, tempos de cole’gio, caminhos nunca mais percorridos! Agora, nessa mudanca, sem trabalho e pouca grana, ha’ mais de 6 meses nao compro um livro… tenho feito o exerc’icio de releitura dos Steinbebecks da casa de minha mae…ate’ o recem lido e relido “A cidade dos sonhos”.
    Com a leitura de seu texto me pergunto: onde os Rubem Braga, os Fernando Sabino, as Cecilia Meirelles dos tempos de cole’gio? Onde? Otimas releituras seriam…
    Mas, onde? Acho que os perdi pelos caminhos e falhas de percurso de minha vida.
    Abs, e breve retorno `a Bandnews, meu “amigo” carioca das manhas no DF!

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