André Giusti - foto: Luana Lleras
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Show de mágica

Ele estava radiante vendo a filha vestida de branca de neve no encantamento de sua festinha de cinco anos. A fantasia era presente dele, e sempre o envaidecia comprar o presente de aniversário ou natal para as filhas. Era uma espécie de satisfação paterno-material: trabalhar e comprar uma fantasia de branca de neve para a [...]

Ele estava radiante vendo a filha vestida de branca de neve no encantamento de sua festinha de cinco anos. A fantasia era presente dele, e sempre o envaidecia comprar o presente de aniversário ou natal para as filhas. Era uma espécie de satisfação paterno-material: trabalhar e comprar uma fantasia de branca de neve para a do meio, de cinderela ou outra princesa para a mais nova, a bicicleta sem rodinhas laterais para que a mais velha finalmente aprendesse a andar. Era o complemento palpável da educação cheia de amor, carinho e limites que tentava proporcionar. Ah, e o cachê do mágico da festinha também saíra do bolso dele. Ninguém precisava saber, servia de alimento para seu orgulho de pai.

Agora seu coração apertado de ternura se desmanchava pela pequena, que fora puxada ao pequeno tablado pelo homem da cartola de onde saíam coelhinhos, pombas brancas e lenços coloridos.

O mágico perguntava à criança quem morava com ela. Seus brilhantes olhos azuis aumentados pelos óculos procuraram a mãe pelo salão. A mamãe, ela respondeu. Natural, é mesmo a primeira pessoa que vem à cabeça de uma criança, pensou o pai. O mágico perguntou de novo: quem mais? E os olhos azuis retornaram ao ponto onde encontraram a mãe e a resposta anterior foi dada outra vez. O mágico insistiu: sim, mas quem mais mora com você? E pela terceira vez ela deu mamãe como resposta.

Lembrou-se das irmãs quando o mágico, para risadas da platéia, puxou por ela ainda uma vez: mas é só a mamãe que mora com você?

Nos segundos que se seguiram pairava ainda um ar de graça, mas já um tanto abatido pelo constrangimento. Algum dos convidados mais próximo do espetáculo tentou ajudar soprando à menina a lembrança “e o papai? E o papai?”. A criança, então, se dando conta, falou papai, mas não o procurou com os olhos pelo salão.

O coração dele se manteve apertado, mas agora era somente de tristeza e daquela espécie de solidão que bate quando estamos cercados de meio mundo. Do meio da platéia, alguém brincando disse “pai ausente”, e sorrindo amarelo a única coisa que ele desejou foi que o mágico bolasse um truque que o fizesse sumir dali.

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Comentários (6)

  1. Liziane -

    Maravilha de crônica! É da falta que surge a arte. Mas é normal nesta idade… deixa ela crescer mais um pouco e o pai toma conta do coração da pequena!

  2. HUGO GIUSTI -

    Filhos, filhos quem são êles…?
    Que mágico chato!!!

  3. angela giorgio -

    É isso, André! Nos primeiros anos o foco é a mãe, seja menina ou menino… Agora, espere p/ ver…Daqui há uns anos, 3 meninas, pobre da mãe…a paixão vai ser o pai!!! É a vida, é assim…Abs

  4. Mari Ceratti -

    Oh, tristeza. E provavelmente a menininha nem vai se dar conta do buraco que abriu no coração do pai — ou vai demorar muito tempo para isso.

  5. Sócio -

    Quando o óbvio vira poesia nas mãos do escritor podemos dizer que ele está rubembraguiando.

  6. Denise Giusti -

    Linda crônica André! Nos primeiros anos de vida a criança fica focada na figura da Mãe!

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