André Giusti - foto: Luana Lleras
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Sobre bolinhos, biscoitos, cakes e cookies

Anos atrás, parei em um quiosque num shopping do Rio e pedi, apontando a estufa: -Me dá um bolinho desse, por favor! Por acaso, quem me atendeu era a própria dona do quiosque. Olhou-me com ar ofendido e rebateu: -É um brownie! Não perdi a oportunidade: -Pois pra mim, pelo menos na cara, é igual [...]

Anos atrás, parei em um quiosque num shopping do Rio e pedi, apontando a estufa:

-Me dá um bolinho desse, por favor!

Por acaso, quem me atendeu era a própria dona do quiosque. Olhou-me com ar ofendido e rebateu:

-É um brownie!

Não perdi a oportunidade:

-Pois pra mim, pelo menos na cara, é igual ao bolinho que a padaria lá perto de casa faz. E se bobear, no sabor, perde.

Fui embora sem comer.

Pelo que lembro, o tal bolinho do Tio Sam estava chegando por aqui, e, mais do que comê-lo, o chique era enrolar a língua para falar seu nome, provando que o dinheiro no cursinho de inglês fora bem empregado.

Agora, a moda são os cupcakes e os cookies.

-Me dá três bolinhos desses, por favor! Quanto custa esse biscoito? – peço e pergunto quando estou com minhas filhas, já que atualmente, por causa da glicose rebelde, sozinho nem passo perto de lugares que vendem doces.

-Pai, é cupcake, é cookie. – e as duas mais velhas me corrigem. Como ainda são pequenas, não chamam de “mico” a defesa paterna da Língua Portuguesa (eu que me prepare para a adolescência).

-É bolinho e é biscoito.- retruco e elas aceitam, pois o que importa mesmo é que eu compre e elas se lambuzem.

Me advertiram de que nos EUA provavelmente chamam tapioca de tapioca mesmo, o que, numa espécie de reciprocidade linguística, nos deixaria à vontade para usar os cakes. Respondo que a diferença é que os nomes das gulodices deles podem ser traduzidas para o português, ao passo que nossa tapioca não (e será que eles já viram alguma vez tapioca por lá?.

Acho que palavras estrangeiras cabem no nosso dia a dia, sem problemas, desde que não tenham tradução. E para me manter nos âmbitos do inglês e da culinária, um bom exemplo seriam os sanduíches. Pelo que eu saiba, não existe nem no vocabulário nem em nossa cozinha algo igual aos burgers. É o caso de tantos pratos italianos, que chegaram por aqui sem similares em nossa mesa e, por isso também, sem tradução para o português.

Mais do que isso, usar o inglês quando existe a possibilidade em português e esta torna o entendimento até mais fácil, me parece colonialismo barato, servilismo, desonra.

E se acham que estou politizando demais o assunto, mudo o discurso: é babaquice mesmo!

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Comentários (3)

  1. Celso -

    Vc está certo, André, é uma invasão pacífica. Se boa ou ruim, sei lá. Se enriquece ou empobrece nossa língua, tb tenho dúvidas. Mas que é estranho, é, falar “aligatores” ao invés de jacaré ou crocodilo. É ridículo!
    Quanto às palavras vindas da “era do computador”, perdemos de dez a zero!! Download, back up, mouse, e muitas outras, nos colocam de joelhos, mesmo. Descarga, reserva e rato….seria muito engraçado dizer isso ao invés daquelas..rsrsr

  2. Fernando Oliveira -

    Muito embora eu concorde com o tema, no caso do brownie cabe um reparo: o brownie não é um bolinho (pequeno bolo). O bolo, em sua composição, inclui fermento. Um cozinheiro, certa vez, errou a receita de um bolo e não adicionou esse ingrediente, transformando-o em outro produto. Acredito que, como nas palavras quiosque (kiosque, em francês) e sanduíche (sandwich, em inglês) usadas no texto -, um o dia chamaremos de brauni, sem servilismo.

  3. Carlos Oliveira -

    Concordo com você e gostaria de ter a mesma coragem que teve ao falar com a dona do quiosque. Fez-me lembrar do meu irmão. Este sim, assim como você, falaria a mesma coisa. No mais, a língua portuguesa, com nossos sotaques, une-nos como brasileiros.

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