André Giusti - foto: Luana Lleras
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Sobre desejar a morte de alguém

Há um ano e quatro meses não viajo, para evitar os ambientes fechados de aeroportos e aviões e o risco de contaminação na roupa de banho e de cama de hotéis e pousadas. É quase o mesmo tempo em que não vejo a cara de um bar e de um restaurante. Em três oportunidades, no [...]

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Há um ano e quatro meses não viajo, para evitar os ambientes fechados de aeroportos e aviões e o risco de contaminação na roupa de banho e de cama de hotéis e pousadas.

É quase o mesmo tempo em que não vejo a cara de um bar e de um restaurante.

Em três oportunidades, no ano passado, quando o ritmo de contaminação apresentou leve desaceleração, entrei em um café vazio para um expresso rápido, e mesmo assim me sentindo culpado.

A não ser pessoas de meu círculo íntimo, ninguém vai a minha casa, não vou a casa de ninguém.

Amigos queridos e irmãos que moram longe, só por vídeo chamada, isso há um ano e meio.

Quando saio, é máscara, gel e distância de todos.

Minhas filhas estão perdendo momentos preciosos de sua juventude, alijadas dos amigos, das festas e da escola, acumulando cansaço físico, fadiga mental e saturação emocional com as massacrantes aulas on-line (e há quem defenda ensino à distância para crianças e adolescentes).

Enquanto isso bares e restaurantes – os mesmos dos quais me privo de ir – estão a cada fim de semana mais cheios de gente sem máscara e conversando de perto, com música ao vivo e risadas, numa completa, espantosa e absurda negação da realidade.

Agem a partir do exemplo e com o respaldo de quem deveria primar pelo zelo e pela prevenção, mas que é incapaz de cumprir regras, por menores e mínimas que sejam; alguém que, enfeitiçado pela idolatria de idiotizados, escarnece da dor dos que se foram, dos que os perderam e dos que, heroicamente, lutam todos os dias nos hospitais para que a devastação não seja ainda maior.

Sigo com minha postura, tanto por medo quanto por responsabilidade, de me preservar e preservar os outros, esperando que chegue minha vez na fila da vacina, que oscila de ritmo a cada imbecilidade dita pelo supracitado.

Por formação e fé cristã, jamais desejei a morte de alguém, por pior que a pessoa fosse.

E desde março do ano passado continuo tentando não desejar.

Mas está tão difícil quanto chegar minha vez de ser vacinado.

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