André Giusti - foto: Luana Lleras
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Sobre inutilidades guardadas (inclusive livros)

Recentemente me mudei para um canto que mede menos da metade daquele em que eu morava, uma verdadeira cirurgia bariátrico-habitacional. E confirmei o que eu já tinha quase certeza: havia coisas demais lá em casa, guardei coisas demais ao longo dos anos. Será que posso falar em nome de todos nós? Temo que sim. Em [...]

Recentemente me mudei para um canto que mede menos da metade daquele em que eu morava, uma verdadeira cirurgia bariátrico-habitacional.

E confirmei o que eu já tinha quase certeza: havia coisas demais lá em casa, guardei coisas demais ao longo dos anos. Será que posso falar em nome de todos nós? Temo que sim.

Em golpes curtos, sem qualquer piedade, lá se foram lembrancinhas repetidas que minhas filhas ganharam em festas de aniversário quando eram bebês; bandejas de café da manhã na cama, que nunca usei porque gosto de tomar café na mesa; um pinguim de geladeira que, sinceramente, nunca reparei que ficava em cima da geladeira e as contas de telefone de…2001, porque a classe média é assombrada pela perspectiva de que a Vivo ou a Claro vão bater na porta cobrando uma dívida impagável de 15 anos atrás sem que você não tenha como provar que já pagou.

Me desfazer dessas coisas (um desencaroçador de azeitonas também foi junto) me trouxe uma sensação de que me despi de inutilidades, e com isso me auto incentivo a fazer o mesmo com as inutilidades interiores, para caminhar mais leve daqui pra frente.

Preservei meus CD’s, mas o desapego recaiu sem dó sobre os livros. CD a gente escuta de tempos em tempos, mesmo que seja espaçado pelos anos, mas livros, com algumas exceções, depois de lidos, das estantes geralmente só saem mesmo em caso de mudança, ou quando são emprestados e, quase sempre, não voltam.

Fonte: cataventodeideias.com

Fonte: cataventodeideias.com


Me desfiz de 80% deles, só fiquei com alguns que ainda não li e que imagino valerem a pena ler, e ainda com aqueles que me marcaram profundamente a vida de leitor e minha formação como autor. E sem nenhum pesar, digo que boa parte deles não me marcou em nada, inclusive os de autores consagrados, nacionais e estrangeiros, os quais só não cito nomes por preguiça de polêmica.

E então, olhando a estante que agora comporta minha esbelta biblioteca, chego a uma certa conclusão de que nossa relação com os livros ao longo do tempo pode ser comparada a nossa relação com as próprias pessoas. Algumas são para sempre, outras marcaram época, mas hoje não têm qualquer importância. E há, claro, aquelas sobre quem nossa lembrança é quase nenhuma, feito um livro que a gente não tem a mínima ideia se já leu algum dia.

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