André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Sobre os arredores de um livro.

Por esses dias leio Chegou o governador, romance de Bernardo Élis, um dos grandes nomes da literatura feita em Goiás no século passado. Encontrei um único exemplar espremido em uma estante de um desses supermercados de livros. A edição é de 1987, da lendária José Olympio Editora. Com texto rebuscado e permeado de citações históricas [...]

Por esses dias leio Chegou o governador, romance de Bernardo Élis, um dos grandes nomes da literatura feita em Goiás no século passado. Encontrei um único exemplar espremido em uma estante de um desses supermercados de livros. A edição é de 1987, da lendária José Olympio Editora.

Com texto rebuscado e permeado de citações históricas acerca da da vida na capitania no período setecentista da colônia, Élis conta os dias de D. Francisco de Assis Mascarenhas ao assumir o governo de Goyáz cinco anos antes da chegada da corte portuguesa ao Brasil.

A história se passa em Vila Boa de Santana de Goiás, hoje apenas Goiás e chamada no estado e também em Brasília de Goiás Velho, alcunha rechaçada pelos moradores da cidade. Capital do estado até os anos 1930, Goiás é hoje conhecida como a terra de Cora Coralina (a cidade foi tema de post no blog em janeiro deste ano. Confira.).

O livro retrata o drama de uma capitania empobrecida e despovoada por causa da decadência da mineração. Só que em primeiro plano, estão os encontros de alcova de um jovem e fogoso governante recém chegado e Portugal.

Mas um livro é mesmo grandioso não pelo que traz como principal, mas sim pelo que apresenta de periférico ao leitor. Ao descrever  encontros amorosos do mandatário, Bernardo Élis é precioso ao detalhar, por exemplo, o brilho do fogo das tochas nos corredores das quase madrugadas furtivas do Palácio do Governo. Mais além, nas ruas, morre, nas palavras do autor, o canto dos negros em catiras e lundus. De volta aos corredores, a cumplicidade de um ou dois criados protege a luxúria de D. Francisco.

O leitor, então, adormece com essas imagens na cabeça, e isso depois de elas muito resistirem à chegada do sono. Tanto é que, de pé no meio da madrugada para um gole d’água, nos parece que é luz de fogo o brilho laranja que a luminária moderna da rua despeja na sala, e que do fundo do corredor nos assunta um negro com seu silêncio de duzentos anos.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. Denise Giusti -

    Belo texto, André! E como sempre aprendemos um pouco contigo, isso é muito bom, ler e passar as impressões do que se vê, do que se lê e ouve de forma poética, um dom supremo! Legal vê-lo de volta ao Blog!

Deixe o seu comentário!