André Giusti - foto: Luana Lleras
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Sotaques

Brasília não é uma cidade que possua uma cultura própria. Tão nova, está ainda longe de ter. Sua cultura talvez seja justamente ser multicultural, zona de convergência de costumes e tradições dos 27 estados. Também não possui culinária própria. 50 anos é pouco tempo para se criar uma receita própria, e a mesa da cidade [...]

Brasília não é uma cidade que possua uma cultura própria. Tão nova, está ainda longe de ter. Sua cultura talvez seja justamente ser multicultural, zona de convergência de costumes e tradições dos 27 estados. Também não possui culinária própria. 50 anos é pouco tempo para se criar uma receita própria, e a mesa da cidade é outro ponto de confluência, só que agora dos sabores, do sul ao norte.

Acredito, entretanto, que no meio de misturas, de algo já se possa falar que tem a marca de Brasília: o sotaque, muito embora ele também seja um arranjado entre o modo de falar de goianos e mineiros, com marcante acentuação nordestina. É difícil explicar que algo que não seja originalmente particular da cidade, me pareça tão próprio da gente que nasceu aqui. Em resumo, doze anos depois de ter chegado à capital do país, reconheço em qualquer canto do Brasil quando é um brasiliense que está falando, da mesma forma que identifico sem erros os gaúchos ou meus conterrâneos cariocas.

Falo disso porque me incomoda um comercial que está sendo veiculado nas rádios e TVs da cidade. O texto lido por três ou quatro pessoas com um fortíssimo sotaque paulistano, anuncia as vendas de terrenos de um condomínio chamado AlphaVille, efatizando que ele fica a 20 quilômetros da Ponte JK, uma das três que ligam a cidade atravessando o Lago Paranoá (Quem mora aqui sabe que qualquer lugar a 20 quilômetros da Ponte JK é bem próximo ao fim do mundo, algo bem complicado em uma cidade em que o litro da gasolina custa R$ 2,67). Bem à maneira dos empreendimentos imobiliários, promete o mundo perfeito e a felicidade eterna, tudo com o R bem marcado no final e o destaque anasalado nas sílabas com en, típico do paulistano (enteeeendo, viveeeeendo). Quem ouve corre o risco de pensar que o condomínio fica em São Paulo, não em Brasília.

Nada contra o sotaque do paulistano, mas me parece que a concentração de agências publicitárias lá, está provocando quase uma “colonização” comercial no resto do país, bem parecido com o efeito do sotaque carioca das novelas nos anos 70 e 80. É difícil, nos dias de hoje, ouvirmos um anúncio – principalmente nas rádios – que não possua o sotaque paulistano. É claro que não vamos pretender que um comercial de sabão em pó, um produto nacional, seja gravado em cada estado, de acordo com o sotaque local. Mas um lugar onde as pessoas irão morar, é algo que já nasce íntimo da cidade, é algo extremamente regional, e um comercial com sotaque forasteiro não consegue passar isso ao público. É como se uma pessoa que nunca foi na nossa casa, saísse falando da arrumação dos móveis ou dos problemas da nossa família.

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