André Giusti - foto: Luana Lleras
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Transgredir é verbo jovem

Existem vários papéis que os jovens podem e devem desempenhar. Um dos mais interessantes é o de transgredir, porque está exatamente de acordo com a juventude mandar às favas regras e conceitos, padrões e condutas estabelecidas que ninguém sabe exatamente porque, quando e, muito menos, para quê. Há jovens bem afetos à transgressão. Outros, no [...]

Existem vários papéis que os jovens podem e devem desempenhar. Um dos mais interessantes é o de transgredir, porque está exatamente de acordo com a juventude mandar às favas regras e conceitos, padrões e condutas estabelecidas que ninguém sabe exatamente porque, quando e, muito menos, para quê.

Há jovens bem afetos à transgressão.

Outros, no entanto, perdem essa oportunidade que a pouca idade permite e preferem a cacetice da padronização, do óbvio, do aborrecido mundo dos já estabelecidos, dos bem sucedidos.

Veja o exemplo dos convites para dois casamentos.

Um convite é feito em papel de luxo, com a letra dourada, desenhada por um calígrafo. Dentro, pais e mães convidam para o enlace de seus filhos, que será seguido pela recepção numa bela casa de festas, onde os convidados farão imensa fila com pratos na mão e estômago nas costas. Um bandejão de luxo, do qual muitos, inclusive, sairão falando mal. Traje passeio completo, claro.

O outro convite imita um ingresso para um show de Rock. Os noivos dirão o sim num pub, ao som da banda dos amigos. Os convidados terão direito a uma dose de bebida. Além dela, de graça serão a diversão, a dança, a música e a amizade dos noivos. O traje? Quem for que vá com a roupa que achar melhor.

No estilo do primeiro casamento, vi noivo sendo impedido de beijar a noiva na boca. Motivo? A mulher do cerimonial mandou beijar na testa. E não pega bem contrariar o cerimonial, mesmo que se pegue bem caro por ele.

O ineditismo do segundo casamento parece vir justamente de seu caráter transgressor, e é bem provável que os noivos se beijem a qualquer hora da cerimônia – se é que o formalismo do termo cabe aqui -, dependendo apenas da vontade de cada um, e que os convidados saiam bêbados e felizes, porque, afinal, a banda dos amigos dos noivos toca tão bem que todos foram ficando, ficando e bebendo.

É claro que a felicidade no casamento não depende desse ou daquele tipo de celebração ou comemoração. O que constrói a felicidade (e também o que a pode destruir) é o dia a dia ao longo dos anos.

A diferença é que o segundo casal talvez, daqui a algum tempo, tenha uma espécie de consciência tranquila em relação a essa inquietação que a juventude deveria carregar sempre, que é a indisposição quanto ao normal, ao que todo mundo faz.

Já os outros noivos, caso despertem e se arrependam mais tarde de terem copiado exatamente seus pais e avós, sem nunca, em momento algum os terem escandalizado ao menos um pouco, vão descobrir que, depois de um tempo e uma idade, dá muito mais trabalho e exige muito mais força nadar contra a correnteza.

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