André Giusti - foto: Luana Lleras
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Três noites de lua cheia

O comissário parou ao lado de nossas poltronas e disse a meu pai que a cidade que sobrevoávamos naquele momento era Ihéus, de acordo com o comandante. Meu pai pegou-me e também minha irmã, uma de cada vez, e nos pôs na janelinha do avião, narizes achatados no vidro. Vi que as luzes da cidade [...]

O comissário parou ao lado de nossas poltronas e disse a meu pai que a cidade que sobrevoávamos naquele momento era Ihéus, de acordo com o comandante. Meu pai pegou-me e também minha irmã, uma de cada vez, e nos pôs na janelinha do avião, narizes achatados no vidro. Vi que as luzes da cidade eram pequenos pontos dourados espalhados no breu da madrugada, como se sobre veludo negro houvessem derramado pedrinhas de ouro. Mas do que me lembro mesmo é da lua no final do crescente, ainda cavada na borda, boiando no canto da janela. Ela prateava, um pouco abaixo do avião e bem acima de Ilhéus, nuvens acolchoadas que guardavam a paz de nosso vôo. “São os tapetes dos pés de Deus”, disse meu pai. “Neles, teus amigos anjos brincam de rolar”, completou e apagou a luz de leitura depois de correr os dedos nos meus e nos cabelos de minha irmã. Dormimos até o pouso em João Pessoa.

            Na noite daquele mesmo dia, fomos para a varanda e ali afoguei meus olhos no mar e no céu, que àquela hora formavam uma única escuridão. Tranquilas, no fundo dela, luzes de barcos de pesca representavam estrelas caídas. “Olhem!”, e meu pai chamou nossa atenção e também de minha mãe, que no quarto esticava lençóis. Sua voz entusiasmada agitou ainda mais o vento que vinha da praia e da eternidade. Era a lua o motivo da euforia. Agora, inteiramente redonda, ela deixava o fundo do oceano bem naquele ponto onde continua além de nossas vistas esse imenso mar do nordeste, que não cabe no mundo. Abriu estrada na água e vinha amarela-prateada até a areia molhada.

            Deitamos na cadeira reclinada. Meu pai colocou-me sobre seu peito, que arfava no compasso das ondas. Ele tomava chá de carqueja e alegre dizia à minha mãe que se fechasse os olhos e recuasse nos séculos a imaginação, ouviria tiros de canhão expulsando holandeses ali perto, no Recife. Seu riso foi morrendo na escuridão do vento e logo ele apontou o dedo para o alto, para imensas nuvens que chegavam engolindo e devolvendo a lua outra vez ao céu. Elas passavam em silêncio, dando a impressão de extensas tropas cansadas, mas vitoriosas e em paz. Porém, pouco antes de ser vencida pelo sono, eu já pensava naquelas formas como gigantes que nos quisessem abraçar com amor.

            Na noite seguinte e na outra, cumpri um efêmero ritual. Ficava na varanda olhando os barcos e esperando a lua, as nuvens, meu pai. Ele deitava e me punha a navegar no barco do seu peito. Minha mãe vinha com a xícara fumegante e nunca em minha memória o mar deixou de saber a carqueja. Em seguida era a vez da lua. “Oba! Estão chegando as nuvens”, e meu pai festejava quando finalmente elas surgiam, do mesmo modo que ainda me aparecem hoje trazendo consolo nas noites escuras de medo e aflição.

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Comentários (2)

  1. Denise -

    Muito lindo este conto! Já o conhecia, foi ótimo reler!

  2. Sócio -

    As coisas todas tem nomes. As luas aqui de casa, principalmemte as cheias, são Roseli e João Paulo. As nuvens tem formas, as lembranças cheiros e sons. Se apurarmos bem a memória ouviremos as canções de ninar e as vozes distantes das palavras conversantes…

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