Um homem de paz

Nem bem me acomodo no banco de trás, o motorista dá bom dia e pergunta se “está tudo bem, doutor?

Eu digo que se sou doutor, sou apenas das dúvidas e incertezas.

“Já serve” ele chancela, enquanto eu emendo que está tudo bem sim, eu tenho casa,  roupa, tomo café da manhã, almoço, janto e de vez em quando ainda faturo uns belisquetes, tudo o que quando estou com raiva da vida não levo bem em consideração.

O senhor é um homem de paz, o senhor transmite paz“, ele se sai com essa,  dobrado esquinas indicadas pelo aplicativo.

Eu, transmissor da paz? Logo eu, cheio de demônios, conflitos e guerras internos. Enumero na cabeça as pessoas que eu gostaria que ouvissem ele falar isso.

Não sei por qual motivo me diz que é cadeirante, e logo me atino que, pelo que me lembre, nunca andei de carro com alguém dirigindo que não tenha o movimento das pernas.  Não quero posar de bom moço: não vi qualquer problema nisso.

Ele estava andando perto de uma cachoeira no entorno de Brasília. Escorregou, bateu com a cabeça na pedra e desmaiou. Acordou no hospital sem sentir o movimento das pernas. É uma história razoavelmente comum entre quem, em algum momento da vida, passou a depender de uma cadeira de rodas.

Além de precisar de uma cadeira de rodas, ele tem outro problema. A cadeira que usava, de tão velha, abriu, vez um V, e ele não tem grana para comprar uma seminova, que custa mil reais. Ele tem apenas 770 e o carro que está dirigindo, para ver se consegue uma grana no Uber, é alugado e a locadora pediu hoje de volta, é o único adaptado para deficientes.

Quando vou perguntar como se vira sem a cadeira, ele adianta: “Eu vou largar o Uber, o senhor é meu último passageiro”, e emenda dizendo que vai voltar pro Ceará, de onde saiu uma única vez, justamente para vir para Brasília, onde, pelo visto, as coisas não deram tão certo. “Até tem um emprego aqui, mas para ocupar essa vaga o sujeito tem que ter cadeira de rodas. Eu fiz entrevista, eles gostaram muito de mim, mas…”,  resume o drama e muda de assunto. Conta que tem um filho de sete anos que quer ser médico. “Para curar você, papai, ele diz”, e conta sorrindo, emocionado. Eu também me emociono, enquanto penso que faltam 230 reais para o sujeito conseguir o emprego e continuar em Brasília.

Ele é falante, simpático, gentil, o típico cearense, o nordestino característico. Não me pede nada, absolutamente nada, não faz a mínima insinuação que seja.

Quando chegamos a meu destino, pago o Uber e na hora em que ele vai se despedir, eu peço “Me dá teu pix aí, mer’mão”, e acentuo meu sotaque carioca, para, de brincadeira, contrapor o seu, tão agudo. “Vai cemzinho aí pra tu. Até o fim do dia, tu descola o resto”, e fecho o aplicativo do banco.

Ele chega a chorar, levanta as mãos pro céus, diz que eu sou um enviado de sei lá onde.
Quando o carro se afasta, não deixa de me passar pela cabeça, rapidamente, que toda aquela história poderia ser um fantástico teatro.

Se for, eu penso, a consciência a pesar, em algum momento, não será a minha.

E sigo meu rumo me sentido, agora sim, um verdadeiro homem de paz.

 

1 comentário em “Um homem de paz”

  1. Marisa Gomes de Amorim Demarchi

    Como é bom acreditar nas pessoas, é assim mesmo que temos paz, é assim que somos homens de paz!!
    Lindo!

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