André Giusti - foto: Luana Lleras
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Um texto meio textão pra falar sobre medo

Durantes muitos anos acreditei que a democracia havia realmente se consolidado no Brasil. E quando comecei a pensar assim nem era governo Lula nem nada. Ainda era FHC (aliás, por onde anda, que não se manifesta, não abre a boca?). Juro que jamais pensei que em minha meia idade essa certeza estaria completamente desfeita. O [...]

Durantes muitos anos acreditei que a democracia havia realmente se consolidado no Brasil.

E quando comecei a pensar assim nem era governo Lula nem nada. Ainda era FHC (aliás, por onde anda, que não se manifesta, não abre a boca?).

Juro que jamais pensei que em minha meia idade essa certeza estaria completamente desfeita.

O mais engraçado é que é por intermédio da própria democracia e seu instrumento mais consagrado, o voto, que ela corre o risco de perder as forças e desfalecer feito um anêmico, um desnutrido. Um torturado que apanha até confessar o que jamais cometeu.

O fato é que estou me tornando um sujeito medroso de conversar sobre política em voz alta em locais públicos.

Uma coisa é você ser retrucado por eleitores de candidatos que querem, por exemplo, vender o Banco do Brasil; outra, por quem defende que o Estado volte a ser um grupo de extermínio, dessa vez (por incrível que pareça) sob a chancela democrática do voto (ah, eles querem vender o Banco do Brasil também, é que no discurso tomado pelo ódio isso fica em 2º plano).

Outro dia o poeta Ian Viana foi agredido seriamente durante uma discussão sobre política e eleições.

Confesso meu medo de passar por isso, porque estou ficando velho e cagão.

Medo de termos no futuro perseguições do tipo “não, esse comunista (eu?) não vai tomar posse em cargo público algum”; ou mesmo “ ah, essa aí é filha dele, né? Tem bolsa de estudo pra ela não”. Coisas práticas, da vida diária, que aconteciam 40, 50 anos atrás em segundo plano em relação à barbárie, mas que prejudicaram a vida de muita gente que não necessariamente foi pro pau de arara.

O que esperar de gente cujo argumento é a estupidez da palavra, da agressão verbal e física e cuja campanha por seu candidato se intensifica com mentiras e invenções descabidas buscando convencimento de indecisos nos grupos de zap?

Logo eles que “defendem” o fim da corrupção, da desonestidade.

É claro que desde sempre foi muito claro que não é fim de roubalheira coisíssima nenhuma o que buscam, do contrário estariam se questionando como um dos filhos do candidato enriqueceu 432% desde que foi eleito pela 1ª vez, e porque o próprio candidato não consegue explicar o aumento do seu próprio patrimônio, seu auxílio moradia, seu nepotismo.

Desde sempre é nítido que o combate à corrupção é só o disfarce para o ponta pé que querem dar para que os negros voltem às senzalas, para que os homossexuais não tenham direito a viver em paz sua sexualidade, para que a filha do faxineiro volte a não ter perspectiva de ser médica.

O que me espanta é que nesse bolo de votos a favor da tirania, há um número crescente de mulheres, se as pesquisas não estão erradas. Diante disso, seguro meu impulso de homem imperfeito para não dizer “ então, querida, se apanhar de seu marido, apanhe em paz e não vá à delegacia dar trabalho aos escrivães ocupados em registrar a estupidez contra as mulheres que realmente querem combatê-la”. Claro que me contenho, esfrio a cabeça e não digo nada. Do contrário, me igualaria a quem me oponho.

Medo

Escuto aqui e ali uma meia dúzia de três ou quatro declarar voto no Amoêdo, no Alckmin (versão gourmet do fascista, como ouvi outro dia por aqui) e no Meirelles (não, na verdade nunca ouvi ninguém dizer que vai votar no Meirelles). Para mim, estão dizendo, com outros nomes, que votarão na barbárie.

Há os que juram que não vão votar nele de modo algum, mas juram com muito mais ênfase – e espuma no canto da boca – que não votarão no PT de jeito algum. Então, quando você olha pra pessoa e pergunta apenas com os olhos: “ e no 2º turno, o que você vai fazer?”, ela sorri amarelo e jura com base em sei lá qual entendimento sobre a vida nacional que ele jamais tentará fechar o Congresso ou promover perseguições. E saem de fininho com a cara disfarçada de “foda-se se ele fizer, o importante é que o PT não voltou”.

Entre toda essa gente, sigo com medo, confesso, e pensando como foi dito também por aqui outro dia: “ nem de bairro eu consigo mudar, que dirá de país”.

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