André Giusti - foto: Luana Lleras
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Vinho e futebol descalço

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na Itália foi a relação simples e quotidiana das pessoas com o vinho. No país que é um dos principais produtores do mundo, vira-se em um copo de plástico uma pequena garrafa de 375 ml (ou até menor), para se acompanhar um panino (tipo de sanduíche), [...]

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na Itália foi a relação simples e quotidiana das pessoas com o vinho.

No país que é um dos principais produtores do mundo, vira-se em um copo de plástico uma pequena garrafa de 375 ml (ou até menor), para se acompanhar um panino (tipo de sanduíche), os dois vendidos em um trailer fuleiro, igual aos que aqui existem em beira de praia.

É um momento desprovido de qualquer solenidade ou aparato, e nem por isso isento de delícia.

Se fôssemos comparar com algo no Brasil, arriscaria aquelas peladas jogadas por meninos descalços em campos de terra ou mesmo no asfalto, e que só terminavam quando a mãe de cada um vinha buscar pela orelha o respectivo filho.

De uns vinte anos para cá, o brasileiro, que historicamente só tomava pinga e cerveja de qualidades discutíveis, começou a aprender sobre os prazeres do vinho, mas parece não ter aprendido que não necessariamente a bebida merece pompa e circunstância. E na maioria dos casos, excetuando quem realmente estudou sobre a bebida, a simplicidade prazerosa de uma garrafa aberta acaba se perdendo numa encenação que tange as raias do ridículo: muita mão mole rodando taça de cristal, muita fungada na borda da taça, muita impressão descabida, assemelhando-se a delírio – certa vez ouvi que determinado vinho era reticente (?).

Milênios nos distanciam da cultura e do conhecimento que os europeus detêm sobre o vinho, tão acima da ideia rasa de que “se é caro é bom, se é relativamente barato é ruim”.

Portanto, longe de ser qualquer culto à bebida, esses gestos e trejeitos estão bem mais próximos da ostentação, do esnobismo, emblemas de uma camada da classe média que ascendeu socialmente devido à conjunção de seus méritos com a conjuntura econômica do país nas duas últimas décadas.

É como se os moleques que jogavam descalços na terra e no asfalto passassem a jogar, de uma hora para a outra, apenas em gramado perfeito e com chuteiras da Nike.

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Comentários (2)

  1. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, Claudia, pelo excelente comentário.

  2. Cláudia Guerreiro -

    Sim, André, texto perfeito. Em qualquer casa portuguesa ou francesa, espanhola ou alemã, o jantar – pão com queijo e chouriço, em geral – é acompanhado por uma garrafa de vinho ou, no caso da França, de sidra, que por aqui nem se fala, tamanho com o preconceito existente em relação à bebida.

    Mas na onda do ‘novo’ brasileiro, além dos ‘entendidos’ com quem temos que dividir a mesa em certas situações, há ainda a figura do vendedor que, no afã de bater a sua cota de determinado produto, intimida o cliente com frases de efeito carregadas de ‘pitadas amadeiradas e aromas de cerejeiras em flor’, espantando aqueles que simplesmente querem beber um bom vinho sem gastar muito e ponto.

    Por fim, acho que falta um tipo de cultura em nós (somos muito jovens), bastante presente no velho mundo, que diz estar o prazer das coisas centrado unicamente no momento em que elas acontecem. Vamos brindar?

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