André Giusti - foto: Luana Lleras
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Vinte anos de CBN – lembranças do ‘Rádio nervoso’

A fome dos jovens em viver intensamente o presente faz com que eles não se deem conta da importância futura de certos acontecimentos que presenciam, e que deles às vezes até fazem parte. Eu tinha 23 anos no dia primeiro de outubro de 1991 e, bem de acordo com a idade, não percebi que era [...]

A fome dos jovens em viver intensamente o presente faz com que eles não se deem conta da importância futura de certos acontecimentos que presenciam, e que deles às vezes até fazem parte.

Eu tinha 23 anos no dia primeiro de outubro de 1991 e, bem de acordo com a idade, não percebi que era testemunha do nascimento de uma revolução no radiojornalismo brasileiro, e porque não dizer no próprio rádio nacional?

Com pouco tempo de profissão, eu era um dos repórteres mais novos do Sistema Globo de Rádio no Rio, cuja locomotiva à época era a Rádio Globo. Quando a CBN entrou no ar naquele dia, a redação se dividiu entre os que achavam maluquice uma rádio que só transmitiria notícias e os que, contrariados – mas não sem razão -, viam naquilo tudo apenas acúmulo de trabalho.

Não lembro se aderi a alguma dessas correntes, mas tenho certeza de que não possuía a menor dimensão do que aquilo significaria para a minha profissão, e para mim como profissional, em particular.

Pedi demissão da empresa cerca de um ano depois e retornei em 1995 para viver o melhor período de minha vida profissional. Aprendi a ser repórter – e a ser repórter de rádio – fazendo, diariamente, o que chamávamos de ‘rádio nervoso’, sob a batuta de algumas das pessoas que mais entendem do veículo no país, infelizmente há muitos anos longe da CBN.

‘Rádio nervoso’, na época, traduzia-se em trabalho apaixonado de cavucar notícia e ‘brigar’ – muitas vezes até com os colegas de trabalho – para entrar no ar e cumprir o sagrado dever de informar.

O tal ‘rádio nervoso’ era ao vivo, sujeito a erros e vexames, mas geralmente compensado com a sensação/certeza de que havíamos dando um show de jornalismo no ar, e depois disso os jornais e a TV’s que se virassem para correr atrás e recuperar o prejuízo.

O ‘rádio nervoso’não apenas era feito ao vivo, mas era feito do local onde os fatos aconteciam, e não do interior das gélidas e silenciosas redações de hoje em dia, onde olhos medrosos acompanham sem piscar – e apurar e confirmar e questionar e duvidar – o que as agências de notícias publicam, prática que está quase incorporada aos manuais de redação não só das rádios, mas também de muitas TV’s.

O ‘rádio nervoso’ era transmitido por gente que sabia (e tinha coragem) de mudar um noticiário inteiro estando ele já sendo transmitido; que não se prendia ao texto; que fazia do improviso ao microfone a forma natural de se comunicar com o ouvinte.

Não, o ‘rádio nervoso’não era feito por jornalistas com pavor de notícia de última hora, muito menos por quem – com todo respeito ao talento que possa ter escrevendo para jornais e revistas – não consegue intimidade com o microfone para chamá-lo de você.

Foi trabalhando assim, ‘nervoso’, que participei de coberturas memoráveis, tais como o leilão da Vale e o julgamento da dupla Guilherme de Pádua e Paula Thomáz.

Não sendo submetidos às leis do ‘terrorismo como método de gestão’, pelo menos no Rio trabalhávamos com seriedade e cobrança dura das chefias, mas igualmente com alegria e descontração, o que não raro era usado para consertar nossos próprios erros.

Foi o que aconteceu quando, cobrindo manifestação no centro da cidade, encerrei meu boletim informando que os manifestantes iram fechar a rua, mas errei feio no slogan da emissora, o lendário ‘CBN, a rádio que toca notícia’, acabando por dizer – ao vivo, é claro – a rádio que toca na rua. No estúdio, Marco Aurélio, meu modelo de âncora, não deixou a bola cair: sim, André Giusti, toca na rua, no carro, no trabalho, em todo o lugar a CBN toca.

Até hoje, aquela CBN da qual fiz parte, toca no meu coração.

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Comentários (6)

  1. Fred -

    falei disso outro dia, do tempo que voce entrou na radio globo , de quando virou cbn, seus dias de ir cobrir area policial.etc.

  2. André Giusti Autor do post -

    Eu concordo Haeser. A CBN da qual falo é uma de mais de 15 anos atrás. A atual…bem , não escuto mais há algum tempo.abs.

  3. Lucio Haeser -

    Outra. Ouvia com atenção na CBN um jogo do Guga Kuerten. Estava no match point. Aí… entra o Repórter CBN. Tudo bem. São só dois minutos e os horários precisam ser cumpridos (embora na CBN essa regra não se cumpra com rigor). Volta a programação. Agora vou saber o resultado do jogo, pensei. Esperei meia hora e nada da informação sobre como acabou o jogo do Guga. Desisti. Fui dormir enfurecido com a rádio. Ela simplesmente abandonou o ouvinte. Sei que nada é perfeito. Muito longe disso. Falhas acontecem em todos os lugares e haverá mil razões para explicá-las. E eu sou o primeiro a admitir as minhas falhas, que não são poucas. Só relativizo alguns elogios.

  4. Lucio Haeser -

    Outro exemplo da lentidão da CBN, agora no futebol. Um campeonato chegava ao final. Devido ao regulamento, havia várias possibilidades de campeão, dependendo dos resultados de dois ou três jogos. Não recordo o ano, faz 10 anos, acho. Na Gaúcha, dias antes da rodada final, já se explicitavam aos ouvintes as diferentes combinações possíveis. No dia dos jogos, resolvi ouvir a Globo/CBN no final das partidas. Para meu espanto e indignação, percebi que foi nesse momento que eles resolveram COMEÇAR a fazer os cálculos. E ainda ficavam discutindo no ar por causa de dúvidas que surgiam. Até que um deles finalmente resolveu ler o regulamento para tirar a dúvida. Acho que isso não acontece mais. Mas aconteceu e eu ouvi.

  5. Márcia Porto Brandão -

    Ótimas lembranças André. Entrei no sistema globo de rádio nessa época também, só que como estagiária e tinhamos as mesmas responsabilidades que os repórteres. A CBN não podia ficar sem notícia em nenhum momento. Lembro que, faziamos longas matérias “frias” para, poder cobrir espaços nos finais de semanas em que nada acontecia. Essa foi a minha maior escola e sinto muito orgulho de ter começado minha profissão no Sistema Globo/CBN. Parabéns pelo artigo. Grande bj

  6. Lucio Haeser -

    Olá André. Eu tenho uma visão um bocado diferente da CBN. Acho que por ter sido acostumado a sempre ouvir Gaúcha e Guaíba (a Gaúcha por sinal, já fazia 24 horas de jornalismo cerca de uma década antes da CBN), sempre achei a CBN lenta e sem senso de urgência. O cara da madrugada, então, é um verdadeiro sonífero. No 11 de setembro, soube da notícia pela CBN. O âncora, sem a menor cerimônia, disse tranquilamente: “…parece que um avião de pequeno porte se chocou com o World Trade Center.” Ora pelotas. Mesmo que fosse de pequeno porte, era pra falar de outra maneira. Mas, enfim, ouço bastante a CBN, só não acho que ela seja acelerada. Também acho que a CBN não sabe aproveitar a rede que tem. Quando morava em Florianópolis, percebia que as CBNs de Floripa e de Blumenau simplesmente não conversavam entre si. Só esclareço que o que falo sobre Gaúcha e Guaíba não é bairrismo. Não sou daqueles gaúchos que acha que o RS é o melhor em tudo. Longe de mim. É um lugar como outro qualquer. Como todos, tem as suas particularidades.

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