Entro no carro e de cara percebo que “o ritmo do som era pesado“, como diria Celso Blues Boy.
Uma guitarra rola solta no rádio.
Parece Judas Priest, mas não tenho certeza, e não pergunto quem é.
Quero saber sim que emissora é aquela.
Nenhuma, é uma playlist do spotify, o motorista explica e, imediatamente, pergunta solícito e profissional se eu quero que troque a música ou mude para outra coisa.
De modo algum. Muito pelo contrário. Pode aumentar, e explico que não tem um mês fiz no Uber um misto de viagem e tortura, quando o motorista escutava aquela nojeira de sertanejo, em que uma música é igual às outras em tudo: letra, melodia (?) e arranjo, além de parecer sempre que apenas uma pessoa canta todas.
Na melhor viagem de Uber que, tenho certeza, farei nos próximos dez anos, o motorista, um rapaz de cabelo moicano e com idade para ser meu filho, conta como montou a playlist e discorre sobre Led Zeppelin como se houvesse tido, nos anos setenta, a idade que tem agora.
Entusiasmado, refuta a ideia de que o Greta Van Fleet é uma mera cópia do que fizeram Plant, Page, Bohan e JPJ, o que ganha minha imediata concordância, admirador de primeira hora do Greta.
O papo envereda pelo Spotify em si, sobre como o aplicativo (com mais prós do que contras, a meu ver) revolucionou nosso modo de escutar música e que, para quem estiver de coração e ouvidos abertos, pode mostrar quanta coisa boa se faz no Rock nesse século 21, contrariando a má vontade dos dinossauros e aquele discurso sonolento de que “Rock bom é só até o anos 80”.
Para provar que estou mesmo atento ao que rola no planeta guitarra/baixo/bateria, recomendo ao rapaz duas bandas que podem ser consideradas novas, que são da virada do 20 para o 21: Colective Soul e Powderfinger.
Então, para que eu me sinta de vez o tiozão antenado na new generation, ele confessa que não conhece, mas que vai lá na busca do aplicativo, o quanto antes.
Pago a corrida no QR Code e me despeço do motorista desejando “Rock’n Roll na veia!”.
Na calçada, me lembro de Neil Young cantado “Rock’n Roll can never die”.
“Não vai morrer, Neil, não vai”, digo para mim mesmo em um diálogo imaginário, sentindo, mesmo que por um tempo menor que a duração de uma música, um pouco mais de esperança na humanidade.

Ótimo o driver do Uber! Além de te propiciar uma bela e animada viagem, te pautou esta deliciosa crônica!
como sou usuário de urbe, isto comumente acontece comigo, mas deixo o motorista escolher a música que ele gosta, pois ele é quem me conduz