
Por onde passo, praticamente não vejo árvores. Ela me explica que havia muitas, e então reparo em canteiros vazios, alguns abrigando a raiz morta, ainda em exposição. “Os moradores cortaram, ou pediram para cortar. Não gostam que ninguém aproveite a sombra e estacione o carro na calçada da casa deles”, ela me explica.
Esse pensamento estúpido, tacanha, mesquinho não é um regionalismo. Em Brasília, já ouvi gente dizer que derrubou uma mangueira porque “aquela praga só sabe jogar folha morta no chão pra gente varrer“. É um mundo difícil, um país difícil, em que, em tempos de aquecimento global, há quem prefira virar torresmo debaixo desse sol inclemente a varrer folhas ou procurar vaga para estacionar.
“Quando chegamos aqui, em 1987, era tudo assim”, e, apontando, ela mostra uma belíssima casa na beira da praia, que sustenta uma arquitetura moderna ainda hoje; de traços arrojados que, mesmo para quem está na calçada, deixam nítido que privilegiam a claridade e a ventilação, naturalmente vindas da praia.
As casas que, penso eu, outrora deveriam dar à cidade a justa e adequada imagem de balneário dos sonhos, foram dizimadas – ela me explica -, para que em seus imensos terrenos se erguessem monstros de dez, quinze andares, revestidos pelo mau gosto do granito e do vidro fumê, consagrando o ar condicionado e a iluminação artificial como modo de vida e jeito de estar em casa. Ela me descreve como as casas foram desparecendo, “às vezes quatro, cinco de uma só vez”, e então eu imagino um moleque gordo, mal educado e esganado dando cabo, em dez minutos, de um imenso pacote de biscoitos recheados de gordura trans. Seu nome é construção civil, filho da ganância e do lucro, afilhado da corrupção do Estado.
Andamos calados, procurando marquises que nos socorram na ausência das árvores. “Eu imaginava que a cidade fosse totalmente diferente”, confesso sem graça, sem querer me estender e acrescentar que a sinto opressiva. Que contrassenso: opressão e beira-mar. Ela sorri, como se não esperasse que eu dissesse nada muito diferente. “A minha médica mora aqui”, e ela aponta outra casa, antiga, bonita, elegante. Casa boa. Me vêm à cabeça um grupo de jovens, colegas de universidade, ali, naquele jardim, quarenta e tantos anos atrás, num fim de tarde numa roda de violão. “Não passa uma semana sem vir alguém de construtora bater aqui perguntando se ela quer vender. Ela diz que só sai daqui morta. Devem vir para conferir se ela ainda está viva”, e brinca. É uma situação em que só cabem conformação bem humorada ou fuga, pois não há mais como reverter nada. “A cidade que você imaginou existiu sim, era assim”, e ela aponta novamente a casa da médica, “só que você chegou com mais de quarenta e cinco anos de atraso.” Eu sorrio, nostálgico, não pelo lugar, que não é meu, nunca foi. Sorrio nostálgico por um modo de vida humanizado que deixou de ser, aqui, lá, acolá. Sorrio nostálgico pelos violões e pelos jovens mudos, sem canções. E em seguida rio sarcástico: Alguém tocará violão na portaria desses prédios que lembram mausoléus ao se pretenderem modernos, mas que na verdade parecem mais os monstros daquele desenho dos anos oitenta, o Transformers?

O efeito disso, desses monstros luxuosos, não está apenas no alto, na projeção artificial de sombras e no bloqueio do vento, como aconteceu em Copacabana, nos anos 1950, mas também embaixo, nas ruas estreitas onde a alta classe média gosta de se impor em suas SUVs trogloditas, suas camionetes gigantescas e seus Jipes de guerra, perfeitos para os filmes americanoides rodados em cidades de imensas avenidas, como Los Angeles. Aqui são ruas em que havia dez casas em cada quarteirão, portanto, dez famílias saindo de manhã e voltando à noite. Agora, são quarenta famílias em cada uma das dez ou quinze gaiolas de fumê e granito ao longo das ruas magrelas. Não pode dar certo. É engarrafamento e stress que as agências de viagem precisam se esforçar muito para jogar debaixo do tapete.
“É o progresso!”, e de súbito me lembro de um mero conhecido, exultante, saudando o erguimento de um desses monstrengos alguns anos atrás em outra capital, cerca de três horas daqui, outra joia da coroa que é esse litoral. Os monstros de concreto, granito e fumê ganharam os céus, as casas foram dizimadas e as ruas viraram simples canaletas entupidas de aço e borracha porque entende-se como progresso essas edificações excludentes não apenas do ser humano, já que no mínimo oitenta por cento da população só entra nesses edifícios a trabalho, mas também do meio ambiente, do saneamento básico que sustente tanto impacto, da água de qualidade que chegue a todas as torneiras e do urbanismo como instrumento de fazer a cidade para todos, seja na beira do mar, seja no subúrbio ou na periferia.

E enquanto uns comemoram seu ideal de progresso, e eu, utópico, penso nas cidades que existiram e nas que jamais existirão nesse país errado, o gordinho mal educado e esganado já abriu mais um pacote de biscoito recheado.

Muito oportuna tua crônica. Neste momento,no Rio Grande do Sul, há uma manifestação popular para evitar um novo espigão na rua considerada a mais bonita do mundo, exatamente porque tem um corredor de árvores belíssimo. É assim mesmo, os “gordinhos” nunca estão saciados.