No controle da situação

A fase não andava nada boa. A separação recente, a segunda, o atordoava. A cabeça não saía do assunto; era um carro atolado, um homem que mais afundava na areia movediça quanto mais se debatia tentando escapar. No discurso da ex-mulher, a convicção de que tudo terminara por causa dele, de que ele fora o único culpado pelo rompimento. No rastro disso, as negativas irremovíveis rechaçavam seu desejo de reatarem.

Ocupado com isso, o pensamento fugia, levando junto a concentração, a atenção às mínimas situações. Por duas vezes, não reparou o sinal fechado. Não fosse a perícia dos outros motoristas, poderia estar agora de muletas ou cadeira de rodas. E especialmente naquele dia, uma quarta-feira, a mente ia em parafuso. A coordenadora da escola de uma das filhas chamou para uma conversa ele e a mãe da menina, sua primeira mulher. As notas estavam baixas, aliás, bem abaixo da média. Se a situação não melhorasse já no próximo mês, o ano escolar estaria comprometido. Com o humor tomado de ressentimentos, com os quais a filha nada tinha a ver, explodiu com a menina, disse que não pagava colégio para aquele fiasco, que ela metesse a cara nos estudos e tratasse de melhorar as notas.

Saiu com o carro no embalo da irritação, e logo em seguida o telefone tocou. Com as ideias sempre longe e atormentadas, não desconfiou do número de telefone fixo que aparecia na tela digital do painel. Uma mulher dizendo que se chamava Angélica se anunciou como gerente da sua conta no banco. Naquela hora, ele seria capaz de se lembrar de tudo, menos de que sua gerente se chamava Verônica, até porque quase nunca falava com ela. Não tinha dívidas, não pegava empréstimo, não fazia grandes investimentos. Com o carro em movimento, fazendo curvas e ultrapassagens, escutou a mulher perguntar se ele reconhecia um boleto que em instantes bateria em sua conta em nome de um sujeito do qual jamais ouvira falar e com um valor que ele jamais tivera no banco. Ele negou, claro, não sabia do que se tratava. O que deveria fazer? A sujeita passou um número e disse que ele telefonasse para a central do banco o mais rápido possível. Com os miolos fervendo, parou o carro e telefonou. Do outro lado um sujeito informava que havia mais cinco ou seis boletos a caminho de bater e que, somados, dariam um belo dinheiro para trocar de carro ou dar entrada em um apartamento. “Podemos cancelar?”, o cara queria saber. Lógico, foi a resposta, então recebeu as orientações de como deveria proceder. Sem, em momento algum, se dar conta do que fazia, escaneou códigos, digitou senhas, forneceu chaves de segurança. Em menos de uma hora limparam sua conta, dobrando seu limite de cheque especial e seu teto de empréstimos. Levaram uma grana equivalente ao que ele demoraria um ano para juntar se não gastasse um centavo, e talvez nem isso.

Foi buscar a filha na aula particular sem ainda sequer desconfiar do que havia acontecido. Na verdade, não pensava mais na história. Sua cabeça voltara aos velhos problemas: as notas da pequena, a segunda separação. Só se deu conta do cataclisma financeiro quando, mais de uma hora depois, uma moça que se identificou como funcionária do sistema de segurança do banco informou, com a voz grave, em que pé ficara a coisa. “E como eu vou saber que você é mesmo do banco?”, ele perguntou com a voz falhando de desespero e as pernas e as mãos tremendo. “Porque eu não lhe pedi senha alguma e vou orientar que vá imediatamente à delegacia registrar queixa”. Quando deligou, a sala do apartamento onde a primeira mulher morava com as filhas girou e, por instantes, ele viu tudo escurecer. Sentiu-se um navio com o casco rasgado de proa a polpa, em que o mar vai entrando e puxando para o fundo. Quando a filha, a das notas baixas, entendeu o que havia acontecido, e as irmãs se aproximaram, assustadas com a conversa que ouviram lá dos quartos, começaram a chorar. Petrificado, nem isso ele conseguia. Minutos depois, se conscientizou de que ficar daquele jeito não ajudaria em nada, e então começou a tentar colocar um pouco de ordem na cabeça, assimilar a pancada, encarar a realidade e agir o quanto antes.

“Eu tô com mais raiva de mim do que dos caras”, ele disse, balançando a cabeça, decepcionado consigo mesmo, achando-se merecedor do prêmio otário do século. “Fique tranquilo, amigo. Esses caras enganam até policial”, e o inspetor veio com essa, sem tirar os olhos da tela do computador em que registrava a ocorrência. Não dava para saber se falara aquilo apenas para consolá-lo. Deixou a delegacia, foi para a casa cruzando a noite que já ia alta. Quantas vezes desprezou links e e-mails suspeitos, ignorou números de telefone estranhos. “Meu Deus… onde eu estava com a cabeça”, e, perguntando a si mesmo, o pensamento tonteava pelo assunto, pelas notas da filha e, invariavelmente, insistia na separação, na vontade de contar a ex-mulher, ver se ao menos essa desgraça monetária comoveria. Era um daqueles dias em que um homem se senta no meio-fio e pensa ser o pior exemplar da espécie.

Apesar dos acontecimentos, teve um sono de pedra, sem interrupção e sem sonhos. Não sabe se foi por isso, mas acordou estranhamente calmo. Quebrado financeiramente, mas calmo. Há um ano, ainda casado, procurara uma terapeuta e uma psiquiatra. Queria, finalmente, dar um jeito em seus transtornos de humor. A terapeuta o jogou para a segunda. “Você é bipolar”, a médica diagnosticou, um veredito que deu trabalho para ser alcançado, levou mais de quarenta dias para que ela chegasse a uma conclusão. Entrou nos remédios. Aquilo vinha dando certo. Os berros com a filha um dia antes eram situações que aconteciam cada vez de modo mais esparso. Agora, nas primeiras horas daquele manhã pós golpe, seu mundo estava ruindo, mas ele decidia agir como se estivesse no banco da praça assistindo às crianças brincarem ou dando milho aos pombos. Fora o tratamento, havia também a filosofia, cujas aulas comparecia com regularidade na escola clássica. Inspirava-se nos estoicos, em sua postura de encarar inclusive as maiores dificuldades como situações normais do percurso. Um rombo na conta bancária, fruto de um roubo: talvez fosse agora a oportunidade de colocar em prática o que aprendia e de justificar o dinheiro que gastava em consultas, remédios e sessões de análise.

Conforme os dias passavam e o banco não dava uma solução para o seu caso, intensificava seu exercício de buscar manter o próprio centro, enfrentando tudo aquilo com estabilidade emocional e resignação com o que veio e com o que viria. Não culpava ninguém, e ao contrário do que dissera na delegacia, sobre ter raiva de si próprio, não se culpava mais. “Você está muito bem para quem está passando por tudo isso”, e ele, alimentando uma discreta vaidade, ouvia a psiquiatra e a terapeuta repetirem praticamente a mesma frase.

A prova de fogo veio quando o banco não aceitou estornar o que os estelionatários levaram; alegou que ele fora o culpado, que fornecera senhas e chaves de segurança. Com a educação de manual técnico, a gerente só faltou dizer que ele arriou as calças para os bandidos. Tudo bem que dera as senhas, “Mas se eu estivesse com uma arma apontada para a cabeça?”, e, calmamente, usou a hipótese em tom de argumentação. A gerente deu de ombros, que tivesse uma granada na boca, o banco não lhe devolveria um tostão. Os bandidos lhe roubaram e o banco lhe extorquia.

Entrou na Justiça, convencido de que pouco poderia esperar de uma briga entre um banco e um pobre mortal. O que os falsários levaram equivalia a cinco vezes o seu salário, fora o empréstimo que fizeram em seu nome e que, juntamente com os juros, formava uma dívida que iria com ele para o túmulo. Teve que vender o bom carro que comprara pouco tempo antes e o pequeno apartamento que lhe coube na primeira separação. Do que conseguiu com as vendas, metade foi para cobrir o rombo feito pelos bandidos. O que sobrou não dava para um apartamento novo. Foi morar de aluguel e andar de ônibus. Mas não disse sequer um palavrão nessa história toda.

Passaram-se dois anos. A Justiça não decidia nada, nem contra nem a favor dele. E ele sempre encarando com normalidade. Afinal, era um simples cidadão de classe média, o tipo de gente para quem os tribunais não andam. Na contramão da revolta e da indignação, seguia em seu centro, sem blasfêmia, sem maldizer o caminho de pedra que a vida o obrigou a tomar.

Quem sabe como prêmio pelo seu comportamento, a mesma vida decidiu aliviar sua barra, oferecendo-lhe alguns motivos para sorrir. Arrumou uma namorada bacana e um emprego com um salário melhor, que lhe abriu a possibilidade de financiar um apartamento; usado, mas melhor do que aluguel. Conseguiu também comprar um Fiat 1998 em bom estado, que não o deixava a pé. A filha, se não se tornou a melhor aluna da escola, ao menos andava dentro da média exigida nas notas.

Era nele que estava quando o celular tocou. Como não havia tela digital no painel, viu o número na tela do aparelho. Riu, uma risada discreta, calma, serena. É claro que não havia como saber se era o mesmo número, provavelmente não. Mas o prefixo, que ele jamais esqueceria, esse sim era igual. Nem da própria mãe atendia mais a ligação. Recusava e ligava em seguida para ela, para confirmar de quem se tratava. Agora, no entanto, calmamente disse “alô”. Chegou a achar bem parecida a voz da mulher com a da outra, mas essa impressão era apenas um palpite das marcas que o episódio deixou em sua memória. Essa mulher dizia que se chamava Soraia e, claro, era sua gerente, cujo nome, na verdade – agora ele se lembrava bem – era Natália. Se o telefone e a mulher eram diferentes, a história era a mesma: tantos e tantos boletos que bateriam em sua conta nos próximos minutos. Era mesmo difícil a Polícia pôr as mãos nos pilantras. Se por acaso os que o limparam foram presos, haveria mais uns quarenta agindo.

“Sim, claro, vou ligar agora”, ele respondeu sorrindo calmamente da mesma lorota de telefonar para a “central do banco”. Enquanto escutava ela dizer os números do telefone da central pirata, sentia-se feliz consigo mesmo, feliz de, em uma situação feito aquela, conseguir se manter calmo e centrado.

“Em que mais lhe posso ser útil, senhor?”, e a falsária se encaminhava para terminar de cumprir sua missão no golpe. Sempre sorrindo, sempre calmo, ele pediu, com uma educação de lorde. “Querida, por obséquio, você me faria um favor?”. “Claro, senhor. No que mais posso ajudá-lo?”, e a bandida perguntou. Deveria fazer teatro, era uma atriz desperdiçada. E ele, como se estivesse em um templo budista, escutando um mantra na presença do próprio Buda, disse calmamente, com um sorriso tranquilo: “Vai pra puta que te pariu, sua vigarista”.

Antes de desligar, sempre sem afobação, pode escutar a meia dúzia de xingamentos que a pilantra gritava do outro lado da linha.

Woman practices yoga and meditating on the mountain sunset background.

Pássaros mortos, poemas inúteis

De que adiantaram
os poemas
Que te escrevi
ao longo desses anos?
Eles não te fizeram ficar
Muito menos bater
De volta em minha porta.
São pássaros mortos
Que não voam
Nem cantam mais.
Pegue todos
E os enterre
Em cova rasa
Feito indigentes sem RG.
Mas se achar
Que jamais foram pássaros
E que agora
Nada são além
De papel inútil,
junte essa porra toda
E vá queimar
No fundo do quintal.

Balada dos pés descalços

Ela me mandou um desses
Dizeres de internet
Sobre caminhar descalço
No coração do outro
Porque é solo sagrado.
Pois eu já pisei em seu coração
Com pantufas macias
De ir para a cama dormir,
Pisei com sapato novo
De ir à festa
E dançar até amanhecer,
Com calçado forte
De subir pirambeira
Para descobrir
A suntuosidade da mata
grandes saltos
E pequenas cachoeiras.
Quantas vezes feliz
e em paz
Sequer toquei o chão.
Mas hoje sim,
Eu piso descalço.
Descalço
E com os pés sangrando.

Poema inédito

Com você aprendi
A falar com os bichos
E a escutar
A respiração das plantas.
Você deu sentido
e significado
aos vinhos que eu bebia,
Educou meus ouvidos
Para os pianos
E me fez pena de pássaro
A subir no vento
as ladeiras de Minas.
O mais engraçado
É que você não sabia
Sequer desconfiava
De que nos intervalos
Me ensinava poesia.

O Brasil não era Brasil quando houve a idade media.

Mas nos últimos tempos, o país esta fazendo um esforço concentrado para vivê-la, 524 anos depois que ela terminou.

O problema é que por aqui não há muitos sinais de Renascimento.

O discurso dos desconectados

definicionabc.com

Hoje, no portal da CNN, analistas de sua majestade o mercado dizem que a política de valorização do salário mínimo é preocupante, porque pode abalar as contas públicas, já que o efeito na Previdência Social, maior gasto do governo, terá bastante impacto.

Salvo engano, acho que esses caras nunca saíram às cinco da manhã com marmita debaixo do braço para esperar, ainda com o dia escuro, um ônibus ou um trem lotado e chegar duas horas depois no trampo.

Ou mesmo um aposentado que precisa de cada centavo que ganha do INSS para comer e tomar remédios.

rrinterativo.com.br

Será que é o aumento do salário mínimo de acordo com o custo de vida que causa rombo nas contas públicas?

Ou seriam escândalos como salário pra filha de milico que já virou o Cabo da Boa Esperança e não se casou no papel justamente pra não perder a boquinha?

Ou as gratificações milionárias de juízes que, suspeitamente, proclamam sentenças sem cabimento.

São apenas dois exemplos de rios de dinheiro que desaguam em privilégios.

Mas não, o que arromba os cofres do país é o salário mínimo do pobre.

Vão se “fudê”, tecnocratas desplugados da vida real.

Irmãos dos pássaros, árvores, flores e águas

Parque Nacional de Brasília

Eu me encontrei nessa história de fazer trilha.

Caminhar pelo cerrado adentro pode ser, antes de tudo, um passeio por você mesmo.

Debaixo do sol, pisando firme a terra arenosa, se embrenhando pelas árvores tortas, a mais típica característica do bioma, e tomando os caminhos coloridos por flores exóticas, como a caliandra e o chuveirinho, ao som da trilha sonora dos pássaros e do correr das águas, nos sentimos irmanados a tudo isso, e ainda ao vento, às nuvens e ao próprio céu azul.

Caliandra

Sim, tudo isso é peça da criação, como nós somos.

Não somos um elemento apartado de toda essa obra majestosa; nós também somos a criação e o que chamamos de natureza.

Cachoeira do Urubu – Lago Norte – Brasília – DF

Quem sabe se no dia em que enxergarmos esse pertencimento, descobriremos que se não quisermos desaparecer por causa da fome, da sede ou engolidos pelos mares e pelas enchentes, não resta saída além da preservação.

O problema é que enxergarmos isso é a cada minuto mais urgente

As moças da mesa ao lado

Uma das moças na mesa ao lado no restaurante espera a irmã, que demora um pouco.

É domingo, faz sol e elas são bem jovens. Portanto, a espera não incomoda.

A irmã chega fazendo cara de lamento e pergunta “Sabe aquele casaquinho que você me emprestou?”.

Embora não perca a tranquilidade, a outra já sabe que boa coisa não aconteceu.

“Pois é, fui lavar e ele ficou assim e assim”, e detalha o estrago, se desmanchando em pedidos de desculpas.

A dona do casaco não se abala.

Dá de ombros, “tudo bem”, e ela diz que tem vários, não vai fazer falta.

É claro que esse comportamento é traço de sua personalidade, mas fico pensando que nele deve haver muito da educação dada pelos pais.

É possível que tenham ensinado que não vale a pena privar-se da paz de um domingo ensolarado por causa de coisas sem muita importância, mesmo que às vezes sejam até maiores e mais valiosas que um casaco.

É provável também que tenham cultivado nas filhas o sentimento de não competição, de não quererem, a qualquer custo e de todo o modo, ser sempre melhor do que a outra, do que os outros em todos os lugares e ocasiões.

Acho que se educarmos nossos filhos assim, no lugar do conflito teremos a harmonia; no da vingança, o perdão, e a amizade substituirá, certamente, a rivalidade.

Quando nos dermos conta, no futuro, teremos contribuído para um mundo melhor.

Aliás, na casa daquelas duas irmãs do restaurante, o mundo certamente deve ser um pouco melhor.
*
André Giusti, do livro As Estranhas Réguas do Tempo (Crônicas, Multifoco, 2014)

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