André Giusti - foto: Luana Lleras
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Parece até que em São Paulo ninguém rouba.

Nem no Rio, Minas, Bahia. De dois meses para cá, a capital do país não virou apenas palco dos escândalos que todo mundo conhece. A crise política em Brasília é combustível que alimenta editoriais país afora, e bem ao costume do brasileiro, um cardápio – muitas vezes repetitivo – de piadas. Com toda razão, é [...]

Nem no Rio, Minas, Bahia.

De dois meses para cá, a capital do país não virou apenas palco dos escândalos que todo mundo conhece. A crise política em Brasília é combustível que alimenta editoriais país afora, e bem ao costume do brasileiro, um cardápio – muitas vezes repetitivo – de piadas. Com toda razão, é claro. Bandalheira, corrupção devem merecer a condenação permanente da imprensa, que acende a vigília da sociedade. E como ninguém é de ferro, piada para ridicularizar os corruptos, o que também é uma forma de indignação. Brincar com a própria desgraça é um dos talentos mais trabalhados pelo nosso povo.

O problema é quando há excesso e o exagero de deboche começa a espirrar na parte digna da cidade, que deve, em uma conta por alto, chegar a uns 98% das pessoas que moram por aqui.

Viver em Brasília, hoje em dia, é motivo de riso. Abra a boca em qualquer aeroporto ou cidade para dizer isso e imediatamente alguém sairá com qualquer gracinha sobre meias, cuecas e panetones. Tudo bem, larápios não chegam ao poder sozinhos. Os daqui foram colocados lá com votos de quem mora aqui, assim como Maluf foi posto lá várias vezes da mesma maneira pelos paulistas, Garotinho pelos fluminenses, ACM pelos baianos, Jader pelos paraenses, e dessa forma país afora. Ou seja, votar errado não é um fenômeno geográfico.

Brasília sofre com uma crônica má interpretação pela imprensa do que seja a cidade. Encarada apenas como imensa repartição pelos jornais de São Paulo e Rio, parece que transforma quem aqui chega, que ao respirar o ar do planalto central o sujeito desanda a roubar o erário. Em parte isso é verdade, é provável que ao longo desses cinquenta anos centenas, milhares de bem intencionados tenham se perdido por causa do desbunde diário que provoca a convivência com o poder. Mas outras centenas, milhares também vieram para cá já mal intencionados, com a chancela do eleitor dos quatro cantos.

É certo que aqui vive uma elite funcional parasitária em certos casos, os chamados barnabés, com salários irreais (e irreais porque pagos com o dinheiro do povo), que chegam e saem à hora que querem ou que simplesmente não vão e permanecem abrigados pela complacência do serviço público. É a face brasiliense da elite paulista, carioca, mineira, cujas mansões e coberturas muitas vezes foram conseguidas à custa da sonegação, do suborno à autoridade, da burla dos direitos trabalhistas dos empregados, do favorecimento em concorrência. Se lá esses não são a maioria da população, aqui esta também é formada por quem bate ponto, faz contas para fechar o mês, vive do salário.

É estranha essa mania de dar à corrupção um único endereço: Brasília, como se houvesse nascido aqui o ademarismo (rouba mas faz)  e seus filhos malufismo, carlismo, chaguismo, garotismo e outros ismos que envenenaram a administração pública. Talvez a diferença seja apenas a tecnologia, obra principal da modernidade, palavra que tanto combina com a capital do país. Afinal, na época do Maluf, por exemplo, ninguém filmava ninguém com câmera escondida.

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