As duas no bar

É domingo, início de noite, aquela hora em que se começa a sentir a dor da semana inteira pela frente.
Ele chega ao bar e não encontra no lugar a mesa a que se senta costumeiramente.
Não que vá voltar para casa por causa disso, é só questão mesmo de uma rotina quebrada.
A mesa foi puxada para o lado e juntada a uma outra.
Nessa mesa esticada há um grupo grande, ele pode contar sete pessoas: seis são mulheres. O bendito fruto entre elas conversa animado com as que estão em frente a ele. Ao passo que conversa, enrola o braço esquerdo na garota que, obviamente, está a sua esquerda. Esta, sem se desvencilhar do braço do sujeito, conversa animadamente com outra, também a sua esquerda. Consegue uma mesa no pedaço do bar onde geralmente fica, e repara que esta segunda mulher parece muito com uma conhecida sua, até pensou que fosse ela quando chegou.
O primeiro chope veio e ele caça na mochila o bom romance que está lendo, mas antes que seus olhos comecem a deslizar pelas páginas, repara que as duas garotas, a do braço do cara em seu pescoço e a parecida com sua conhecida, começam a falar uma no pé do ouvido da outra, cada uma colando bem os lábios no lóbulo da orelha da outra. E se demoram fazendo isso, e riem quando invertem, quando é a vez da que escutava falar. Só conversam assim, uma colando a boca no pé do ouvido da outra, como se o restante da mesa não pudesse ouvir o que conversam. Bem, ele não tem qualquer dúvida de que realmente não possam.
Duas páginas depois e na metade do segundo chope, ele ergue os olhos do livro e repara que a coisa ameaça esquentar de fato naquele canto esquerdo da outra mesa. As duas se insinuam uma para a outra, trocam uma ou outra carícia nos cabelos, riem com malícia. O cara mantém o braço esticado no pescoço da menina a sua esquerda e não larga da conversa com as que estão a sua frente. Ou ele finge não ver o que acontece ao seu lado ou bem sabe o que acontece e tudo bem, são as regras.

Agora ele não consegue mais voltar ao livro com tanta concentração. O que lhe rouba interesse são aquelas insinuações que não dão trégua. Uma delas ser parecida com uma conhecida sua apimenta aquele interesse indiscreto. Um dia disse a uma amiga, num fim de noite em um bar com três casais de lésbicas ao redor: “Se algum dia um carinha te disser que não gosta de ver duas mulheres se pegando, saiba que ele é um hipócrita querendo bancar o ‘corretinho’, o amiguinho das causas identitárias. Ou é gay também, e aí tudo bem”.
Mas apesar de sua expectativa, as carícias não evoluíram. Veio a conta para a mesa esticada, e todos foram embora, o braço do homem grudado com superbonder no pescoço da menina. A outra, parecida com sua conhecida, deu um beijo no rosto de sua parceira de flerte, e o grupo foi mais ou menos cada um pro seu lado.
Ele ficou ali, naquele bar ao qual ia tanto mas que, na verdade, não encontrava tantos conhecidos assim.
Agora, na metade do terceiro chope, pensa nas duas mulheres, no cara fazendo que não vê, mas sabe de tudo, e sente um baita vazio em algum lugar do peito, da alma, um vazio de um anônimo que chegou ali com a vaga esperança de encontrar alguém para conversar sobre o livro e adiar só um pouco a dor de começar mais uma semana.















