A falta que o mar faz e a gente nem sempre sabe

Ponta Verde – Maceió – Acervo particular

A gente só percebe a falta que sentimos do mar quando vamos para longe dele.

Morei mais de trinta anos  no Rio, e quantas vezes abri mão de ir à praia por causa de trabalho ou mesmo de preguiça de cruzar a cidade.

O meu Rio de Janeiro de nascença e criação não é o das novelas ou cartões-postais, fica longe da imagem que o consagra perante o mundo como uma cidade linda.

Então eu não desconfiava de que vivia infinitamente mais perto do mar do que anos depois viveria, por causa dessas cambalhotas que a vida dá.

Mais do que em sua ausência, só há um momento em que percebemos o quanto sentimos falta do mar.

É justamente quando nos reencontramos com a areia, a espuma branca da água e a onda quebrando em nossas costas em um mergulho que nos resgata o emocional cansado das vicissitudes da existência.

Comigo isso aconteceu recentemente, em Ipioca, no belíssimo litoral de Alagoas.

Caminhando pela praia, deparei com um rio calmo e sereno abrindo caminho na areia sob a  tarde prateada pelo sol das três horas.

Altivo, seu curso chegava respeitosamente à beira da praia para construir seu humilde delta, se entregando ao mar para que formassem um único corpo aquático.

Não sou dado a delírios, mas tive a impressão de que um pouco além da arrebentação havia uma espécie de portal, por onde se entrava para um novo tempo, uma época de renovação, um portal em que anjos guardavam a entrada.

Com as águas tépidas batendo em minhas canelas e o sol viril do nordeste escorrendo em meu corpo, eu sabia que estava sendo feliz, imensamente feliz.

Feliz do jeito que se é quando se está junto ao mar.

A Cidade Horrorosa (conto inédito)


Clique aqui para ouvir a narração da história

Por mais que eu tenha acelerado na estrada, não cheguei com o dia ainda claro. Alcancei, no máximo, um resto de sol sumindo atrás da montanha. O acender da noite, ali, era igual ao anoitecer em outras cidades quase mortas do interior; àquela hora com o expediente encerrado, pouca gente movimentava a avenida que margeia a rodovia e seus postos de gasolina, lojas de autopeças e armazéns que vendem fertilizantes e defensivos agrícolas. Havia um ou outro núcleo de vida, principalmente botequins, que não demorariam tanto a cerrar as portas e mandar para casa os fregueses diários, torpes de cerveja vagabunda e pinga barata. Às vezes essas cidades possuem um centro em que há um ensaio de vida noturna, eu pensei, querendo acreditar que encontraria algum canto onde pudesse comer alguma coisa. Não conhecia patavina ali, era minha primeira vez no lugar. Vi muito pouco da cidade, e do que vi não gostei. As ruas escuras de terra eram tomadas de uma ponta a outra por construções, algumas inacabadas ou mesmo abandonadas; desse modo, tornaram-se desenhos lúgubres e fantasmagóricos a compor o lugar. Havia também galpões e depósitos, todos passados da hora de funcionamento, e em suas fachadas apagadas, a noite encarava os raros transeuntes com um rosto sinistro e hostil.

Parei o carro em frente ao endereço que o geolocalizador indicava. Não havia número nem nome de pousada. Apenas um grande e pesado portão de ferro. Não era alto e vi que para além dele abria-se um imenso terreno bem arborizado. Bati com os dedos dobrados no metal, bati palmas, chamei em voz alta “ô, de casa”. O ambiente me respondeu com o silêncio das árvores na noite sem vento.

O portão não tinha trinco. Era de correr, então decidi arrastá-lo para abrir, contando com a hipótese de ver surgir na defesa da propriedade um enfurecido rottweiler. Aberto o portão, corri para dentro do carro. Se houvesse cachorro, teria que mastigar a lataria antes de me alcançar. Meti a primeira e entrei no terreno. Não apareceu cachorro algum, muito menos gente. Havia mais dois carros estacionados no local. Espalhados pelo terreno, uns dez chalés, todos às escuras. Ao fundo, um sinal de vida, enfim. Uma casa diferente dos chalés tinha luz acesa. Fui até lá e topei com um misto de cozinha e recepção, onde uma mocinha, vestindo uma touca de cozinheira, me recebeu, descascando frutas.

“E o resto do grupo?” Ela quis saber quando me identifiquei.

“Chega amanhã. Não te avisaram?”.

O grupo sairia de Brasília às duas da madrugada em um ônibus fretado. “Chegam por volta das oito, e aí a gente vai pro passeio”, expliquei.

Semanas antes, quando decidi ir, já tinha bem claro na cabeça: “De jeito nenhum eu vou de ônibus, sair daqui de madrugada. Eu vou no meu carro. Chego antes, durmo bem e acordo inteiro. Essa gente vai estar triturada de tentar dormir no ônibus, ainda mais nessa estrada cheia de remendo”.

“Cada quarto da pousada dá pra três pessoas. Sai bem mais em conta. O grupo todo vai dividir”, Irene sugeriu erguendo as sobrancelhas, queria me pôr nesse embrulho. E isso era outro problema: nem todo mundo se conhecia no grupo. Eu mesmo conhecia apenas Irene e uma outra mulher, e claro que elas não dormiriam no mesmo quarto que eu. “Irene, meus tempos de escoteiro se foram. Com a minha idade eu não vou dormir com um macho que eu não sei quem é roncando feito porco do meu lado”. “Mas é companheirismo, cara, é a proposta do grupo e do passeio”. “Louvável proposta. Me deixa dormir sozinho no meu quarto que no dia seguinte estarei com toda disposição para ser companheiro”.

Quando Irene me disse que estava organizando mais um passeio com trilha e cachoeira, Cláudia ainda não havia voltado para casa. O passeio estava marcado para o fim de semana seguinte ao seu retorno. Enxerguei na trilha e na cachoeira enfurnadas em Goiás uma distração, uma chance de pensar e sentir um pouco menos de saudades.

Mas a brincadeira que Irene inventou não seria apenas trilha e cachoeira.

“Irene, que porra é essa de caverna, Irene?”. “Tá no roteiro. Será que você não viu?”, ela respondeu. Conversávamos pelo áudio do zap, eu me instalando no quarto da pousada e ela ainda em Brasília, terminando de arrumar a bagagem. “Eu sou obrigado a entrar em caverna? Já me libertei das minhas encarnações no paleolítico”. “Você não é obrigado a coisa nenhuma. Enquanto o grupo tá lá dentro, espere do lado de fora”. “E quanto tempo vocês vão ficar dando uma de troglodita?”. “Umas três horas pelo menos”. “Puta merda, Irene…”. “Leva um livro. Você não diz que com um livro o tempo passa mais rápido? Vai ser o primeiro trilheiro intelectual que eu vou guiar”, e debochada encerrou a conversa, para continuar se aprontando.

“Por que essa moda agora de entrar em caverna, hein?”, e discutia comigo mesmo, sozinho no quarto bem mequetrefe da pousada. “se o bom é a luz do dia, o vento, os pássaros… querem ficar trancados, fiquem em casa, porra!”.

Pendurei minhas roupas em um cabide de guarda-roupa, sustentado por dois suportes colados a um vão da parede que servia de espaço para um frigobar, que não havia no quarto. Era isso o guarda-roupa. Virei as costas para desfazer o resto da bagagem e escutei atrás de mim o barulho. As roupas vieram abaixo com o cabide de guarda-roupa e com os suportes, espalhando minhas roupas pelo chão. Peguei-as e as deixei mais ou menos esticadas em uma cama de solteiro posta ao lado da de casal, em que eu dormiria. Eram oito da noite e eu precisava de um banho. Àquela hora, na sexta-feira anterior, minha sombra e a de Cláudia vagavam abraçadas pelas paredes seculares do casario histórico de Pirenópolis.

“Eu sinto sua falta aqui comigo…”, confessei a saudade, já desanimado com o que se anunciava para o meu fim de semana. Aquele sábado e domingo seria justamente para não pensar tanto em Cláudia, mas pelo jeito, a tática estava dando errado. “Aí é legal?”, ela quis saber. “Não sei, mas tô começando a achar que não”. “Ué, não é igual a Pirenópolis, não?”. “Provavelmente não”.

Separei uma muda de roupa. Com ela sairia à caça de um buraco com alguma salubridade onde pudesse comer um sanduíche e tomar uma cerveja. Resolvi deixar o chuveiro para quando voltasse. Água morna ajuda no sono, pensei, já desconfiando de que não dormiria muito bem naquele quarto, naquela cama.

A mocinha da recepção-cozinha me ensinou a chegar a uma rua em que havia dois restaurantes. Perguntei qual deles era melhor. “Tanto faz”, ela me respondeu e temi que tenha feito cara de “Os dois são a mesma bosta”. “Se você usar o geolocalizador chega rapidinho”. Agradeci e fui por mim mesmo, eu me recusava a ser um dependente de aplicativo até para andar a pé. Além do mais, nenhum aplicativo me livraria do que aconteceu minutos depois: dar de cara com uma gangue de cachorros vira-latas. Latindo e rosnando, foram se aproximando de mim, lentamente. Tentei conquistar a simpatia deles, mas não deu muito certo. O que deu certo e me livrou foi o passa-fora de um homem magro, curvado e careca. Saiu de uma casa mal-acabada e com dois gritos colocou todos para dentro. “Não mordem não, fique tranquilo”, e voltou pra dentro. Fiz que acreditei, mas já achando melhor não passar por ali na volta, a cachorrada poderia mudar de ideia e adotar outro comportamento.

Eu pensava ainda nos cachorros quando dei de novo pela ausência de Cláudia. Era como se ela andasse ao meu lado naquela cidade semimorta. Foram três meses juntos, feito namorados efetivos, namorados de fato, e não apenas de direito, afastados pelos milhares de quilômetros que tentávamos, mas não conseguíamos encurtar.

Cheguei à rua dos restaurantes com a cabeça longe. Quando aterrissei, percebi que o primeiro que a mocinha me indicou me lembrava aqueles cabarés decadentes em que uma cantora, igualmente decadente, cantava boleros do tempo de meus falecidos pais. Torci para que o segundo fosse ao menos uma polegada melhor. E era. Era até bacaninha, bem transado, como se diz. O problema estava em um telão pendurado na parede, atrás de mim. “Ué, agora você escuta a trilha sonora do desmatamento, do machismo, do racismo, da violência contra a mulher e do trabalho escravo?”, e dessa forma Cláudia respondeu o vídeo que gravei e mandei para ela, de brincadeira; ela enumerou as diversas classificações que eu usava para a música sertaneja. “É Goiás, amada. Além do mais, não tenho opção aqui”. Quando chegou a primeira cerveja que pedi, mandei mensagem: “Eu sinto tua falta, Cláudia. Demais”, insisti. Às vezes eu mesmo me achava chato com essa história, mas era mais forte do que eu. Ela respondeu mandando corações.

“Irene, essa cidade é uma merda, é horrorosa!”, enquanto esperava a segunda cerveja e um sanduíche, gravei a mensagem, só que baixinho, para que ninguém em volta escutasse. Ela estava on-line. “E daí? A gente não vai passear na cidade, a gente vai pras cachoeiras”. “Mas você disse que o lugar era tipo Chapada dos Veadeiros…”. “As cachoeiras são. Mas você sabe que nenhuma cachoeira fica no centro da cidade, né?”. Eu quis saber onde eu encontraria o grupo. “No estacionamento da trilha da caverna”, ela respondeu. Procurei no aplicativo. Nada do que apareceu tinha o nome da maldita caverna. Deixei para cuidar disso depois, porque chegaram a segunda cerveja e o sanduíche.

Pensei em tomar a terceira, mas deixei pra lá. Eu teria que acordar às seis da manhã no dia seguinte, um sábado, e esperar três horas na entrada de um buraco de pedra, escuro e cheio de água, provavelmente também de morcego. Paguei a conta e em cem metros me vi isolado na noite alta daquela cidade tão tenebrosa quanto desconhecida por mim. De suas casas apagadas, de suas obras não terminadas me parecia que sairiam sádicos monstros devoradores de caras solitários que vagam por um cu de mundo feito aquele. Cláudia só estaria de volta a Brasília dali a dois meses. Tudo estaria igual? Ela estaria igual? Me querendo, me desejando? Em alguns momentos tudo entre nós dois me parecia incerto feito o fundo de uma caverna.

Abri o geolocalizador, que me mandou pelo mesmo caminho da ida. Ou seja, pela rua dos cachorros. Tentei não demonstrar que eu estava com medo. Cinco se aproximaram, latindo e rosnando. Dessa vez o careca envergado não deu as caras. Olhei pro lado, havia algo no chão que parecia um pedaço de pau, mas era um cano semienterrado. Toquei o foda-se e apressei o passo, mas sem correr. Não sei se eram os mesmos da ida, pois agora me pareceram com menos vontade de me abocanhar. Acabaram ficando para trás, latindo e rosnando sem muita convicção, como se dissessem “dessa vez a gente vai aliviar, mas não apareça aqui de novo não”. Eu queria nossa cama, teu calor, teu suspirar durante o sono, teu abraço ao clarear do dia. É ridículo um cara da minha idade perdido nesse buraco fora do planeta com meia dúzia de vira-latas manés ameaçando me jantar. Apareceu apenas um risquinho abaixo da mensagem. Talvez ela já estivesse dormindo.

Arrastei o portão da pousada. O barulho das rodas nos trilhos subiu pela noite. Longe, outro cachorro latiu. Era um portão velho, mal pintado. A entrada daquele lugar me sugeria que ali funcionava um centro de tratamento manicomial, daqueles antigos, com denúncias de tortura e maus-tratos. Não havia uma luz acesa, nem a da recepção-cozinha. Sorte que gravei a direção em que ficava meu chalé.

Penei um tanto até acertar a fechadura por causa da escuridão. Quando consegui, catei o interruptor; achei e a luz se fez no quarto, aquela luz branca, fraca, que dizem que economiza energia, mas que irrita meus olhos e me deixa de mau humor. Tirei a roupa e fui tomar banho. Na porta do box, deparei com uma das maiores baratas que vi na vida. Voltei no quarto e peguei meu sapato de trilha, aqueles de sola grossa. “Toma aqui, sua vagabunda!”  e em um só golpe esmigalhei a infeliz. Deixei a bicha ali mesmo, feito uma fatia de pão prensada na chapa, com aquela gosma verde e nojenta sobrando pros lados. Era um recado para quem fosse fazer a limpeza, se é que fariam.

Pela programação, o passeio iria até domingo, então eu teria que dormir mais uma noite ali. Olhei o relógio. A essa hora eu e Cláudia tomávamos um belo vinho e devorávamos uma pizza assada pelos deuses. Comecei a sentir que eu estava em lugar errado. “Viva o agora. O passado foi bom, mas acabou. Dele, fique apenas com as boas lembranças”, e pude imaginar esse tipo de gente insuportável, súdita do diabo da felicidade tóxica, que sempre vem com frase pronta aparentando te ajudar, mas que no fundo quer pousar de superior a você.

Saí do chuveiro e, distraído, por um triz não pisei, descalço, na asquerosa da barata. Desviando da nojeira, escorreguei e o que me salvou foi me agarrar à pia, embora tenha acertado o calcanhar na quina do blindex do box. Doeu. “Noite filha da puta”, rosnei, feito os cachorros da rua. Poderia ter sido pior, refleti, eu poderia ter me estatelado nu, em cima da barata.

Finalmente pus a roupa de dormir e me deitei. Tentei ler, mas aquele inferno de luz é inimigo das atividades intelectuais. Fui ao interruptor: e a escuridão se fez completa, no quarto e lá fora.

Tive um sono agitado. Quando fechava os olhos, passavam por dentro deles cenas do fim de semana com Cláudia. Mas não era só isso. Estava preocupado com a hora de acordar e em como encontrar o grupo lá na tal caverna. Antes de apagar a luz, olhei novamente no aplicativo. Nada do que aparecia mostrava ser o mesmo local em que eu teria que encontrar com todos. Mas o que mais estava me tirando o sono era que barata é comida de escorpião, e que escorpião adora obra, entulho de obra, todo esse traste. Só faltava eu levar uma picada de um monstrinho desses e morrer por lá mesmo, envenenado, depois de um dia inteiro de convulsão. Eu seria apenas uma lembrança talvez boa, talvez má quando minha família e Cláudia me encontrassem nesse portal das almas perdidas.

Após idas e vindas do sono, acordei de uma vez às cinco e quinze da manhã. Fiquei de um lado pra outro da cama, esperando o dia clarear. Qualquer pequeno barulho eu já achava que era um escorpião. Quando a janela finalmente iluminou o quarto, me levantei e procurei notícias do grupo no celular. Estavam na estrada desde as duas da matina. Às quatro e pouco, Irene mandou mensagem com a seguinte e animadora instrução: “Olha só, pergunta pra alguém aí na pousada como se faz para chegar na trilha da caverna. Lá não tem internet e eu não consigo falar com o guia local para ele me mandar a localização”. Eu e Cláudia andamos o dia inteiro pela margem do Rio das Almas, uma trilha sombreada, sinalizada, decorada por mansas praias de água doce e gelada e milenares pedras com pontos dourados, parecendo ouro. Quanta diferença. Dizem que esse é o estímulo da vida: alternância de experiências. Eu dispensava toda a experiência das últimas horas. Olhando para baixo, vi se repetir no chão do quarto, como se fosse em uma tela, a imagem do rio e da trilha em sua margem. Eu e Cláudia nessa tela. Na vida real daquele quarto sofrível, havia somente eu, depois de uma noite mal dormida. Alguma coisa em mim, que desde quando cheguei repelia aquele lugar, começou a dizer que eu fosse embora dali.

“Eu não sei onde fica, não sou daqui, mas já ouvi falar que é bem longe e um pouco complicado de chegar”, respondeu uma mocinha, a que servia o café da manhã. Àquela hora, outros funcionários ainda não haviam chegado. Perguntei pelo dono. “É uma mulher. Mora em Goiânia. Raramente aparece”.

Mastigando um pão de queijo e virando um café preto, eu olhava o imenso terreno que já anunciava os sinais da seca. Com o sol batendo, o lugar não era feio. Mas também não era bonito. Certamente Cláudia faria a mesma observação.

Voltei pro quarto e entrei no banheiro. A barata esmigalhada me pareceu ainda mais imunda. “Irene, tô voltando pra Brasília. Não precisa me esperar. Desculpa”, escrevi, sentado no vaso.

Tirei minha roupa de trilha, que vesti quando ainda tentava acreditar que deveria permanecer ali. Vesti a mesma com que vim. Joguei o resto das roupas de qualquer jeito na bolsa e ainda olhei pela última vez o quarto onde passei menos da metade de um dia. O acerto com a pousada eu havia feito em Brasília. A outra parte da grana do passeio, se Irene pudesse devolver, beleza. “Se não puder também, foda-se” disse tranquilo, certo do que fazia, e acelerei cruzando a cidade. “É realmente horrorosa”, concordei comigo mesmo, olhando pela janela do carro, agora com a ajuda da luz do sol. Eu estivera ali apenas para tomar duas cervejas, comer um sanduíche, dois pães de queijo, matar uma barata e dar uma cagada. Lamentando minha sorte naquele velho oeste, meu pensamento não passava da memória de Pirenópolis com Cláudia. Eu tentava, mas não conseguia que fosse diferente.

Pelo retrovisor interno, vi a nuvem de poeira que se erguia na avenida principal à medida que os pneus de meu carro riscavam a pista, misto de terra e asfalto malcuidado. E assim peguei a rodovia, acelerando, ao passo que aumentava o volume de uma playlist de meus rockinhos das décadas de setenta e oitenta.

Estiquei as marchas e em pouco tempo já estava a mais de 140 por hora. Eu queria chegar a Brasília antes do meio-dia. No entanto, minha esperança começou a fraquejar logo que apareceu, a minha frente, uma fila de umas cinco carretas. Pista simples, e no sentido contrário, outra leva interminável de carros e mais umas tantas carretas. Ultrapassar seria um jogo de paciência. Foi quando surgiu no retrovisor do motorista um carro prata, com a seta esquerda piscando, indicando que estava ultrapassando. Era um chevrolet classic, um sedã dos anos dois mil. Na pista contrária, uma carreta vinha a toda e a uma distância insuficiente para ultrapassagem, só que o velho chevrolet não arredava, insistia e já estava emparelhado com meu carro. Quando se convenceu de que seria esmigalhado pelo monstro que vinha em sentido contrário, o cara me olhou com cara de quem pede piedade. Esse frêmito de contato visual, a noventa por hora, foi o suficiente para achar o sujeito muito parecido com o ex-namorado de Cláudia, um milico que lhe deu um soco na cara por causa de um resultado de eleição. Demorei a frear. O sujeito era mesmo a cara do escroto. Ele buzinou, quase pediu clemência. Se eu não o deixasse entrar, a carreta jogaria aquela lata velha para cima de mim. Pisei no freio, ele entrou entre meu carro e a jamanta da frente, quase tocando o para-choque traseiro no dianteiro do meu carro. A carreta da mão oposta passou feito uma flecha gigante, um segundo depois.

Ficamos assim, eu e o cara, esperando a chance de nos livrarmos do trânsito à frente. Na primeira oportunidade, dei seta pra esquerda, reduzi a marcha e entrei acelerando na pista contrária. Dava para ver lá na frente que vinha movimento, mas que a ultrapassagem não seria arriscada. Só que o desgraçado entrou na minha frente. Eu buzinei. Ele continuou. Acelerei, grudei na traseira dele, buzinando. Ele acelerou também. Estávamos a mais de cento e vinte, eram cinco carretas a serem vencidas à nossa direita. “O que é que esse infeliz coloca para essa velharia andar desse jeito? É gasolina da Nasa, é?”, gritei. Eu estava tão colado à traseira do carro dele, que a distância entre os dois deveria ser de um palmo. “Para, que vai dar merda!”, escutei dentro da minha cabeça. Deveria ser minha consciência ou minha sensatez. Voltei para a pista certa assim que consegui ultrapassar todas as carretas. E o desgraçado também conseguiu, andando pouco além de mim, numa velocidade incompatível com um carro daquela idade.

Logo, logo apareceu mais tráfego. Fiquei ligado. Aquela geringonça não ia se dar bem em cima de mim, ah, mas não ia mesmo. Novamente a noventa por hora, eu esperava a chance. Quando ela apareceu, pisei tudo que pude no acelerador. O infeliz resolveu fazer o mesmo, e novamente veio para cima do meu carro. Só que agora eu não arredei. Emparelhamos na contramão, o meu carro pegando uma parte do acostamento da pista contrária, cento e vinte, cento e trinta. Ao nosso lado direito, duas carretas em boa velocidade. Na pista em nossa direção, outras tantas, se aproximando. Senti um gosto gelado subir pela garganta; o coração acelerou mais do que o motor. “Se eu tiver um enfarte agora, não vão saber se eu morri do coração ou da porrada”. Ao menos morreria com uma bela trilha sonora, ao som de Girl Next Door, do Romantics, uma das pérolas da minha playlist. Admito que por um fiapo de tempo, essa ideia, a de morrer, chegou a me agradar. Eu seria uma versão de meia idade do João Roberto, o boizinho que se mata em um pega por causa de um amor não correspondido, na música Dezesseis, da Legião. Mas em um segundo, tirei isso da cabeça, até porque se não quisesse morrer eu tinha pouco tempo. Joguei a terceira e acelerei até o motor perder o ar. Passei na frente do imbecil, me livrei das carretas, joguei pra direita e respirei fundo. Ele veio para trás de mim, piscando farol alto. “Vai piscar o olho do seu cu, seu babaca”, gritei e acelerei para dar distância. Só que não demorou cinco minutos para aparecerem mais carretas, caminhões e ônibus, e logo em um trecho da estrada bem sinuoso. Aquietei atrás deles, não havia muito a fazer naquelas condições da pista. Pois o boçal, que se parecia com o ex da Cláudia, também boçal, pensava diferente, e feito um kamikaze se lançou na faixa contrária, cortando nas curvas e lançando mão até mesmo do acostamento contrário. Do cano de descarga, subia a fumaça azul de óleo queimando em motor velho. “Tomara que você morra debaixo de uma carreta, seu filho da puta. Mas que morra sozinho, sem levar ninguém junto”, e desejei com a sinceridade mais trevosa de que eu seria capaz, movida em boa parte pela semelhança física do sujeito com o escroto do ex-namorado da minha namorada, um escroque que a espancou algumas outras vezes, e que se eu não aparecesse, quem sabe Cláudia estivesse entrando na porrada até hoje.

Eu estava ao volante há duas horas, mas com aquela pauleira de estrada, equivaliam a cinco. Eram nove da manhã. Acho que conseguiria chegar em casa antes do meio-dia, mas não tão antes quanto eu planejava. Eu precisava de uma mijada e de um café.

“Você está muito antissocial. Não veio no ônibus com a gente e não quis dividir o quarto com ninguém. O que é que a humanidade te fez? E ainda por cima vai embora sem nem dizer o motivo”, era a mensagem de Irene que li depois de tomar o café”

“Minha cabeça está em outro lugar, Irene. Desculpa”, respondi já no carro, com o motor ligado e a playlist de volta.

Mais uns dez quilômetros e o trânsito foi ficando lento, até parar de vez. “E isso agora. Vou chegar em Brasília amanhã”, sacudi a cabeça contrariado. De repente surge uma ambulância dos Bombeiros indo desesperada pela contramão, no acostamento. Um carro da Polícia Rodoviária fez o mesmo. “Ih…cagada lá na frente”, deduzi o óbvio. O trânsito começou naquele anda e para, e quando andava, a velocidade não pedia nem a segunda. Só uns vinte minutos depois foi possível ver o que havia acontecido. Uma carreta gigantesca estava parada no meio da pista contrária, e um carro havia entrado com a frente toda embaixo dela. Era um chevrolet classic. Com a lentidão, demorei a alcançar o ponto do acidente. Quando passei pelo local, olhei para esquerda, para dentro do carro. O sujeito que parecia com o imbecil que Claúdia namorou tinha os olhos vidrados, de um pavor congelado, fixos no painel do veículo, certamente a última coisa que viu na vida. De sua boca e nariz escorriam grossos filetes de sangue. Alguém chegou para cobri-lo com um plástico preto. Era o mesmo cara que eu tinha visto vivo, ainda que de relance, cerca de quarenta minutos antes e que agora levava o para-choque de uma carreta no meio dos peitos. Tudo sempre pode estar por um fio, a gente não deveria esquecer, ainda mais quando provocamos. É óbvio que fiquei baqueado. “Otário tem mais é que se foder mesmo”, mas não contive a frase que disse entre dentes, que me foi crescendo, ganhando corpo de palavras e de raiva, a ponto de eu não poder segurar. No vácuo, ainda veio outra: “Tomara que esse filho da puta não tenha posto nenhum inocente no mundo pra estar em casa a essa hora esperando, sem saber que ficou órfão”. E quando o tráfego normalizou, acelerei forte, muito mais com raiva do que com pressa. Raiva do imbecil que perdeu a vida de forma tão estúpida; raiva do cara que namorou Cláudia; de Cláudia, por ter namorado o cara; raiva daquela merda de cidade onde perdi uma noite da minha vida, e raiva por Cláudia não estar me esperando em Brasília.

Dirigi desse jeito uns cinco, seis quilômetros, até que amoleci os nervos e caí num pranto convulsivo, dolorido, a ponto de não enxergar nada à minha frente e ter que encostar em um posto de gasolina. Eu ainda não tinha visto, mas no celular Irene respondera, dizendo que eu fosse atrás desse lugar onde estava a minha cabeça.

Para falar de amor e ditadura


Não há nenhuma novidade em dizer que conhecer o passado nos faz agir no presente para que ele não se repita no futuro.

Isso se aplica desde nossa vida pessoal até o Brasil deste ano de eleições em que o retrocesso ameaça mais uma vez a sociedade brasileira.

O livro O Grande Amor de Nossas Vidas, do escritor baiano Ivan Sérgio Santos, é uma história de amor cujo maior mote é o passado cruel desse país durante vinte e um anos do século vinte.

Na história de um trio amoroso vivido por um guerrilheiro, uma estilista e um jornalista quase não há flores, noites românticas ou momentos de incendiar a cama.

As páginas atravessam, de maneira dolorida, pungente e revoltante, a destruição de uma família, a clandestinidade e o pior dos monstros dos anos de chumbo: a tortura  e suas irreparáveis sequelas, como o alcoolismo.

E quando a tortura entra na história, Ivan Sérgio Santos usa a imbecilidade e a estupidez da ditadura, incapaz, muitas vezes, de acertar de fato seus alvos, para reservar uma grande surpresa ao leitor.

O Grande Amor de Nossas Vidas, premiado pela Biblioteca Nacional / Funarte, é uma bem narrada história que é bem mais do que uma história de amor, é um grande recado, um aviso, um alerta de que a barbárie do passado assunta de novo, perigosamente e com o ódio que lhe é peculiar, o presente e o futuro do país.

As duas no bar

É domingo, início de noite, aquela hora em que se começa a sentir a dor da semana inteira pela frente. 

Ele chega ao bar e não encontra no lugar a mesa a que se senta costumeiramente.

Não que vá voltar para casa por causa disso, é só questão mesmo de uma rotina quebrada.

A mesa foi puxada para o lado e juntada a uma outra.

Nessa mesa esticada há um grupo grande, ele pode contar sete pessoas: seis são mulheres. O bendito fruto entre elas conversa animado com as que estão em frente a ele. Ao passo que conversa, enrola o braço esquerdo na garota que, obviamente, está a sua esquerda. Esta, sem se desvencilhar do braço do sujeito, conversa animadamente com outra, também a sua esquerda. Consegue uma mesa no pedaço do bar onde geralmente fica, e repara que esta segunda mulher parece muito com uma conhecida sua, até pensou que fosse ela quando chegou.

O primeiro chope veio e ele caça na mochila o bom romance que está lendo, mas antes que seus olhos comecem a deslizar pelas páginas, repara que as duas garotas, a do braço do cara em seu pescoço e a parecida com sua conhecida, começam a falar uma no pé do ouvido da outra, cada uma colando bem os lábios no lóbulo da orelha da outra. E se demoram fazendo isso, e riem quando invertem, quando é a vez da que escutava falar. Só conversam assim, uma colando a boca no pé do ouvido da outra, como se o restante da mesa não pudesse ouvir o que conversam. Bem, ele não tem qualquer dúvida de que realmente não possam.

Duas páginas depois e na metade do segundo chope, ele ergue os olhos do livro e repara que a coisa ameaça esquentar de fato naquele canto esquerdo da outra mesa. As duas se insinuam uma para a outra, trocam uma ou outra carícia nos cabelos, riem com malícia. O cara mantém o braço esticado no pescoço da menina a sua esquerda e não larga da conversa com as que estão a sua frente. Ou ele finge não ver o que acontece ao seu lado ou bem sabe o que acontece e tudo bem,  são as regras.

Agora ele não consegue mais voltar ao livro com tanta concentração. O que lhe rouba interesse são aquelas insinuações que não dão trégua. Uma delas ser parecida com uma conhecida sua apimenta aquele interesse indiscreto. Um dia disse a uma amiga, num fim de noite em um bar com três casais de lésbicas ao redor: “Se algum dia um carinha te disser que não gosta de ver duas mulheres se pegando, saiba que ele é um hipócrita querendo bancar o ‘corretinho’, o amiguinho das causas identitárias. Ou é gay também, e aí tudo bem”.

Mas apesar de sua expectativa, as carícias não evoluíram. Veio a conta para a mesa esticada, e todos foram embora, o braço do homem grudado com superbonder no pescoço da menina. A outra, parecida com sua conhecida, deu um beijo no rosto de sua parceira de flerte, e o grupo foi mais ou menos cada um pro seu lado.

Ele ficou ali, naquele bar ao qual ia tanto mas que, na verdade, não encontrava tantos conhecidos assim.

Agora, na metade do terceiro chope,  pensa nas duas mulheres, no cara fazendo que não vê, mas sabe de tudo, e sente um baita vazio em algum lugar do peito, da alma, um vazio de um anônimo que chegou ali com a vaga esperança de encontrar alguém para conversar sobre o livro e adiar só um pouco a dor de começar mais uma semana. 

Teatro: a guerra silenciosa do rancor, da mágoa e da inveja

Geraldo Lima, autor de Antes que Ela Chegue

Esteve em cartaz recentemente, em algumas salas de Brasília e cidades satélites, a peça Antes que ela chegue, um monólogo conduzido com delicadeza e sentimento à flor da pele pela atriz Paula Passos, que há alguns anos me deu a alegria de declamar um poema meu  nesses recitais da vida.

O texto é do escritor Geraldo Lima, de quem li  cerca de um mês atrás o romance Quem foi que soltou os cavalos no campo de trevas ?, publicado pela Editora Patuá, que merece leitura atenta e a oferece de modo prazeroso.

Mas o lance aqui é a peça, com o texto do Geraldo e a interpretação da Paula.

Em pouco menos de uma hora, os dois levam ao público uma tocante história de família, que tem como pivôs duas irmãs, sendo que a narradora é a única que aparece, até porque se trata de um monólogo.

A atriz Paula Passos em Antes que ela chegue

Em meio a produções cada vez  mais politizadas e embandeiradas (o que não é ruim, de modo algum, apenas cansativo em alguns momentos), o espetáculo descerra as cortinas das relações familiares e como os reflexos delas podem se arrastar, prejudicar e até mesmo anular vidas inteiras.

Em um mundo movido pelo ódio e pela ganância, que lança mísseis sobre escolas e hospitais, Antes que ela chegue mostra que a inveja, a mágoa e o rancor podem nos fazer estar permanentemente em guerra conosco e com o mundo a nossa volta, nos matando pouco a pouco e mais e mais a cada dia.

A peça pode ter nova temporada no segundo semestre. Se tiver, não perca.

 

Escrever se aprende escrevendo. E lendo. (Só acho)


Comecei a escrever na virada dos treze para os quatorze anos.

Devido à rusticidade de meus primeiros poemas, é mais apropriado dizer que eu “rascunhava coisas” nos cadernos.

Intuitivamente, no entanto, eu sabia que estava aprendendo a escrever.

Nada mais verdadeiro: eu aprendi a escrever escrevendo.

Os poetas, contistas, cronistas e romancistas que lia naqueles primeiros anos (muitos ainda leio) foram responsáveis pela primeira forja do autor que sou hoje, quarenta e três anos depois.

Naqueles tempos não havia (ou ao menos não se falava) oficina literária ou oficina de criação.

Nossas oficinas eram escrever e ler, ler e escrever.

Não tenho o que falar das oficinas, até porque nunca fiz nenhuma, mas me chama a atenção a quantidade delas sendo oferecidas nas redes sociais. Parece cursinho para concurso público.

Não conheço praticamente nenhum dos ministrantes (desculpa o substantivo esquisito, mas muitos dizem que vão “ministrar” uma oficina). O que escreveram? O que escrevem? O que publicaram? Por onde publicaram? E, também, que livros leram? Que autores fazem parte de sua formação de leitores?

Outro dia, não sei quem em uma rede social chamava a atenção para uma certa pasteurização na maneira de escrever de alguns autores contemporâneos, de como alguns livros se assemelham, parecendo repetir uma estrutura erguida e mantida por equações e fórmulas vestidas de literatura.

E aí sinto dizer a quem anda por aí anunciando oficina literária, ou de criação, que literatura não é para ser igual.

É justamente para ser diferente e fazer a diferença no mundo. 

Antes de defender a 6X1, vá trabalhar no feriado

Por muitos anos trabalhei em regime de escala de feriados e fins de semana. Quando digo feriados, digo 25 de dezembro e 1º de janeiro também.

Dependendo das circunstâncias, era um fim de semana trabalhando e outro de folga.

Nesse regime de escala, o 1 x 1, eram doze dias trabalhando direto até chegarem o sábado e o domingo de refresco.

Que nem sempre eram de refresco, mas sim de cuidar de pendências acumuladas ao longo da semana que a carga horária impediu de resolver, como a troca do óleo do carro, por exemplo.

Quem defende a manutenção da escala 6×1 ou é empresário e comerciante ou jamais pegou no trampo numa sexta-feira santa ou num primeiro de maio, nunca encarou um sabadão e um domingão ralando para garantir o feijão de cada dia, aumentar o lucro do patrão e contribuir com o crescimento do PIB, essa sigla que sempre serviu apenas a meia dúzia de três ou quatro arquibilionários.

Experimente colocar uma máquina para funcionar ininterruptamente. Uma hora ela vai dar pau. Com o ser humano é semelhante.

Acho até que 5×2 é pouco. Não vejo necessidade de se trabalhar mais do que quatro dias na semana. Poderíamos ter uma folga na quarta-feira ou o expediente começando 12h na segunda e terminando 12h na sexta.

Seria uma ótima oportunidade para, entre outras coisas, ficarmos mais tempo com nossos filhos e não precisarmos mandá-los para a terapia e para o psiquiatra, e evitar que eles alcem voo do alto de um prédio.

O dia em que podíamos ter matado o verme. E não matamos.


Neste dia dezessete de abril completa dez anos de uma das sessões mais sombrias da história da Câmara dos Deputados.

Era noite de domingo quando centenas de vermes referendaram o primeiro passo a favor do golpe que tirou do poder uma presidente legitimamente eleita. O segundo, e definitivo, seria dado pelo Senado quatro meses depois.

Entre esses vermes, estava um deputado completamente inexpressivo, que em sua vida parlamentar totalmente insignificante, embora dispendiosa para o bolso do contribuinte, jamais apresentou um projeto de lei e, menos ainda, foi relator de alguma matéria legislativa.

Esse estúpido começou a entrar para a história naquela noite de espíritos do mal ao elogiar o maior torturador de que se tem notícia no mapeamento do terror da repressão no Brasil.

Se tivesse sido imediatamente advertido por quem presidia a sessão (outro verme, se todos se recordam) e logo em seguida respondido por quebra de decoro parlamentar, é possível que o país não estivesse atravessando esses últimos anos em que nossa democracia, às vezes, parece uma tísica subindo uma ladeira inclinada.

O verme está atrás das grades domésticas, mas seu sobrenome ameaça, com real possibilidade, voltar  a aparecer em documentos oficiais da pátria, tudo isso depois que encabeçou uma tentativa de golpe de estado com direito a matar o presidente e o vice-presidente eleitos democraticamente.

Mas o que me parece tremendamente absurdo é que entre os dispostos a empurrar novamente essa família rampa do Planalto acima estão milhões de pobres, pretos, gays, mulheres e nordestinos, recortes da sociedade brasileira que sempre foram alvos de preconceito e desprezo por parte do elogiador de torturador e admirador de barbárie.

Eu realmente não entendo como pobres, pretos, gays, mulheres e nordestinos podem votar em quem quer varrê-los da paisagem brasileira (pode-se usar varrer com o sentido de exterminar).

Essa gente, e os eleitores tradicionais e consagrados da família verme, me dão vontade de mandar o Brasil ir se fuder.

O problema é que se você, feito eu, não tem como ir morar no exterior, acaba se fudendo junto.

Recomendação de Leitura Por Mário Baggio*


Já comentei mais de um livro de André Giusti (de prosa e poesia) e sobre todos eles fiz a seguinte anotação: é admirável a ternura com que o autor aborda seus personagens, como maneja com carinho seus comportamentos e ações, sem entretanto esconder ou perdoar seus defeitos, fraquezas e vacilos. É algo como fazia o cineasta francês François Truffaut. Se André Giusti fosse cineasta, seria um Truffaut.
Não é diferente em “Só vale a pena se houver encanto”, sua primeira prosa longa. Aliás, que título bonito, que escolha acertada, quanto lirismo há nessa frase!
O romance de Giusti busca dar forma literária a uma experiência geracional específica: a daquelas pessoas que foram jovens nos anos 70/80, viveram a ditadura e a psicodelia daqueles anos, celebraram a abertura política e hoje enfrentam a maturidade sob o signo da frustração, da instabilidade profissional e da revisão de expectativas; mesmo assim, nunca abriram mão do senso ético e da retidão moral, a despeito das consequências que uma atitude assim poderia trazer. Mesmo com toda dificuldade, viver, trabalhar, amar são coisas que só valem a pena se houver encanto.
O livro acompanha Alessandro Romani de 2002 a 2016, jornalista e aspirante a escritor, morador de Brasília, cuja trajetória é marcada por demissões sucessivas do trabalho, o nascimento das três filhas, o desgaste conjugal e uma persistente sensação de inadequação diante das engrenagens do mercado profissional e da vida adulta. Trata-se de um protagonista típico de uma geração que acreditou que iria mudar o mundo, mas que, ao atingir os 50 ou 60 anos, percebe um saldo não muito equilibrado de conquistas e perdas (mais perdas do que conquistas). O período em que o romance acontece é singular (grandes transformações políticas e sociais com a eleição de Lula para dois mandatos, o golpe contra a presidenta Dilma, a ascensão da extrema-direita). Escrito em primeira pessoa, o romance reforça o tom confessional, e isso é muito eficiente para aproximar texto e leitor. Auto ficção? Intuo que sim.
Romani é jornalista e seu ambiente profissional é descrito sem meias-tintas: nada de glamour, reconhecimento e remuneração justa, antes competição acirrada e a quase ausência total de ética. O que importa é o lucro e o desempenho. É evidente que essa situação crítica trará reflexos na esfera íntima do protagonista, como o fim do casamento, as necessidades das filhas em idade de crescimento e os boletos que não param de chegar. No trabalho, a luta constante para manter aceso o encanto e resistir aos conchavos, falcatruas e puxadas de tapete. Familiar, não?
Em síntese, “Só vale a pena se houver encanto” é um romance representativo de uma geração que envelheceu sem ter plenamente resolvido ou cumprido suas promessas de juventude. O protagonista representa o sentimento inexorável de esgotamento, mas também a persistência — ainda que frágil — de uma aposta na direção da felicidade. É nesse equilíbrio que reside a força do ótimo livro de André Giusti.

*Escritor e crítico. Autor, entre outros, de Vozes para tímpanos mortos (contos, Litteralux, 2025)

Rolar para cima