Põe na conta do homem branco e hetero


No filme Livros Restantes, estrelado por Denise Fraga, há cinco homens.

O primeiro é um sujeito alegre, carinhoso, divertido e, de certa forma, puro.

É um negro.

Os outros quatro são brancos e de meia idade.

O primeiro desses é um cara amoroso, sensível, cuidadoso, ético, de bons valores e princípios.

Ele é gay.

Dos outros três, um é pedófilo; outro, um ex-namorado da personagem de Denise, é um machista, estúpido e insensível e que, mesmo sendo casado e anos depois, insiste em transar com ela.

Por fim, o último é um cara confuso, cheio de preconceitos, e de acordo com a própria personagem principal, não aceita opiniões contrárias. É o ex-marido dela, provavelmente o único responsável pelo fim do casamento, embora isso não seja dito claramente no filme.

Repare que dos homens brancos somente o gay é quem vale alguma coisa. Todos os outros brancos são heterossexuais. E não prestam.

No filme, eles receberam o lixo da humanidade, algo que, se você reparar, vem se repetindo nos últimos anos, não apenas no cinema, mas na literatura, na publicidade sobre direitos das mulheres, gays e negros.

Defendo com veemência a luta das minorias, a briga pelas causas identitárias, mas estou ficando cansado do uso repetitivo desse rótulo: branco e hetero = machista, homofóbico e racista.

Acho que querem me obrigar a me ver como um escroque preconceituoso.

Voto no Lula desde 1989, sou de esquerda, a favor do casamento gay, da adoção de crianças por esses casais; para mim,  mulheres têm que ganhar igual ou mais do que os homens se a função exigir; o racismo é abominável e a reforma agrária é fundamental.

Querem mais ou está bom?

Não sou aquilo que está na tela e, creio, a maioria dos homens brancos e heteros também não é, e não acho legal (aliás, começo a achar discriminatório) colocarem apenas na nossa conta o prejuízo por esse mundo preconceituoso em que vivemos.

O fusca do Agente Secreto e um país que continua bem igual


Há um erro de pesquisa, creio que se chame assim,  sobre o fusca que o Wagner Moura dirige logo na primeira cena de O Agente Secreto.

O filme se passa em 1977 e naquela época os carros no Brasil não tinham retrovisor do lado direito.

Salvo um ou outro modelo de luxo, só havia retrovisor no lado do motorista.

O fusca, como carro popular, não fugia à regra.

Outro detalhe sobre os retrovisores do carro alugado pela produção: o modelo instalado no fusquinha não existia nos anos 70.

Mas isso é chateação de quem é aficionado por carro antigo.

Nenhum retrovisor tira o brilho desse baita filme, que consegue manter o espectador grudado na tela durante quase três horas de projeção.

Acho que há também uma omissão no roteiro, mas que, a exemplo dos retrovisores, não atrapalha o desenvolvimento da trama, sempre tensa, comprovando o baita ator que é Wagner Moura e mostrando um país que, se prestarmos atenção, mudou menos do que deveria e precisava em quarenta e oito anos.

Aqueles tempos

Ô, viado

ô, viadinho

ô, bicha

ô, bichinha

ô, bichona
ô, boiola

ô, arrombado

ô, corno

sua mãe isso

sua irmã aquilo.

Era assim que se tratavam entre si os cavalheiros 40 anos atrás.

Boa parte continua junta, amiga e unida.

Vá tentar explicar hoje em dia aqueles tempos.

Notas de torcedor feliz

1 . Minha geração de torcedores do Flamengo conheceu a glória muito cedo.

Com apenas quatorze anos, eu já havia visto meu time ser campeão brasileiro duas vezes, da Libertadores e do Mundo.

Nossa referência de time de futebol era o Flamengo de Zico & Cia, e acabamos achando que aquilo era o normal.

Não era, e quando viramos adultos, descobrimos isso.

Estávamos nos anos 90/2000, com o Flamengo passando longe das grandes conquistas, ou perdendo, em pleno Maracanã, títulos que estavam na mão,  isso quando não nos fazia sentir a angústia da ameaça do rebaixamento, o que felizmente nunca aconteceu.

Enquanto o time se diminuía, por sua própria conta,  São Paulo, Palmeiras, Vasco, Cruzeiro e Corinthians iam papando os canecos, inclusive a Libertadores.

Se dez anos atrás um vidente aparecesse na minha frente e me dissesse que o Flamengo teria quatro títulos da Libertadores em 2025, eu o mandaria parar de beber.

E em apenas seis anos, ultrapassamos os principais vencedores brasileiros da Libertas.

Para quem, trinta anos atrás, achava que o Flamengo estava fadado a se afundar na mediocridade, esse tetracampeonato é muito mais valioso do que parece.

2. Em 2018, em um jogo entre Palmeiras e Cruzeiro, em São Paulo, a torcida palmeirense começou a cantar: “Ô, cruzeirense! Toma cuidado! O Bolsonaro vai matar viado!”.

Desculpem pôr o nome dessa pessoa nessas linhas, mas é para que a informação fique mais clara.

Não era uma parte da torcida, era um canto que tomava conta do estádio.

Depois disso, não tenho como não identificar o vice com o fascismo, até porque seu torcedor típico é quem, no geral, comunga das ideias do presidiário.

Desde então, para mim, vencer esse time se tornou também um ato político.

3. O Flamengo mora no menino que está em mim e que escolhi levar pra vida inteira.

O nefasto atraso da história


Todos os golpistas na cadeia, começando pelo golpista-mor.

No calor dos acontecimentos, talvez não tenhamos nos dado conta do que isso representa.

Jamais um milico graúdo foi parar no xilindró por causa de manejos antidemocráticos.

E agora eles vão ver o sol nascer quadrado.

O Brasil está sessenta anos atrasado em mandar esse tipo de gente pra cadeia.

Se em 1955 a patotinha golpista que tentou impedir a posse de JK tivesse tido o mesmo destino, não teríamos anos e anos de atraso democrático, de retrocesso institucional, nem a ameaça que essa gente impingiu ao país nos últimos três anos.

A justiça tarda, mas não falha; só que entre um e outro, seu atraso deixa marcas de seus estragos, que apenas o “nunca mais” pode sanar.

Foda-se, eu não te perguntei nada


Giordano Andriola esculacha de alto a baixo o que, segundo ele, é nova tendência na rede social: postar foto ao lado do médico, fazendo cara de saudável e satisfeito com a consulta ou o tratamento.

Fico contente por não ter a mínima ideia de que isso era novidade no Mundo Lixo das redes.

Rede social é para mim, atualmente, obrigação, para divulgar meu conteúdo, e como toda obrigação, traz cansaço.
Por isso, é cada vez mais raro me manifestar na postagem dos outros.

Mas às vezes a palhaçada é tão grande, que não há como ficar quieto.

“O mundo está cada vez mais babaca, alimentado por uma sociedade babaca formada por babacas e otários e otárias”, foi a espinafrada que deixei na postagem do Andriola.

Mesmo que as redes dominem há duas décadas as relações humanas, a vida de quem não conheço nunca me interessou, começando pela viagem dos sonhos, indo ao aniversário de 137 anos do avô e passando pelo “lanchinho básico com ‘miga e seu beibi”.

Por que me interessaria, então, saber que fulano que mora em Ponta Porã foi ao cardiologista?

É de se dizer: “Foda-se, eu não te perguntei nada”.

Ou perguntar: “Por que você não posta foto com o proctologista?”.

A desnecessidade da cafonice em inglês


Hoje recebi um e-mail de trabalho.

O remetente queria uma entrevista e se identificava como  head of content de determinada revista sobre jogos de uma maneira geral.

Senti uma preguiça, um sono.

Não pela mensagem, é claro, legítima em seu pedido.

Mas pelo head of content… 

Pra quê? Por quê?

Escrever em inglês aumenta a importância do cargo? A seriedade? É isso?

Será que escrever chefe de conteúdo fará com que quem recebe a mensagem rebaixe seu autor e o conteúdo dela, dispensando imediatamente o pedido na lixeira do e-mail?

Pois eu tive vontade de fazer isso quando li a expressão em inglês e sua tolice em querer parecer mais séria e importante.

Tenho bem claro para mim que o uso indiscriminado de palavras em inglês no nosso da a dia é uma cafonice tremenda.
Gente escrevendo assim quer parecer importante, de vanguarda, antenado,  mas no fundo lança mão de uma tentativa de mascarar sua colocação insignificante no mundo do trabalho e ludibriar sobre o pouco ou quase nada que tem para oferecer.

Sobre inveja e distância


Amigo meu envia pelo zap foto de sua mudança.

Ele e a mulher estão deixando Brasília após décadas, vão se encravar no meio das montanhas.

Por mais que seja bom para ele e ele esteja feliz com a mudança, eu não costumo dar festa quando um amigo vai embora para longe, ainda que se possa visitá-lo quando for possível.

É que amigo não é vela de filtro, que a gente troca em trinta segundos e a água volta a jorrar limpinha.

Esse meu amigo é um dos melhores poetas contemporâneos, de acordo não apenas com o humilde crivo do poeta que também sou, mas também do leitor diário de poesia.

Nos conhecemos vinte anos atrás, justamente por causa de um livro de poesia que ele, à época, estava lançando.

Passamos tempos distantes, até que nos últimos anos nos aproximamos, e acho que nem foi apenas por causa da poesia e da literatura em geral, mas muito devido a um senso comum de humanismo, valor caro nesse primeiro quarto de século.

Não o invejo pelos milhares de livros que ele encaixota na mudança e que aparecem na fotografia enviada.

Invejo (com a inveja boa) o destino que tomarão tudo isso e mais ele e a esposa, uma pessoa que torna ainda mais bacana ser amigo do meu amigo.

Invejo pela beleza do lugar que eles nos mostram igualmente em fotos, uma cidade que, de acordo com os dois, tem vida noturna e agitação cultural, o que não é comum em lugares assim.

Mas essa crônica não é sobre inveja.

É sobre distâncias.

Distâncias com os quais aprendi a conviver desde quando pisei em Brasília pela primeira vez, mais de vinte e sete anos atrás.

Distância dos pais, dos irmãos, dos amigos semeados na adolescência e que floriram, felizmente, na fase adulta; distância de um grande amor, distância do mar e da serra.

Aprender a conviver não significa que você deixou de sentir. E de ressentir.

Reconheço que a vida em Brasília trouxe para perto de  mim várias pessoas que fizeram casa em meu coração, e esse meu amigo poeta é um deles.

Só que é o mesmo amigo poeta que se vai, para viver nos braços da distância que eu tanto conheço, que eu tanto já vi, que eu tanto vivo.

Um dia chegará a inexorável distância final, a mais longínqua de todas, e restará, juntamente com a saudade, uma esperança de sujeito teimoso, acreditando que vai encontrar todos (os longes e os pertos também) em alguma estação quando desembarcar do trem azul, com o sol na cabeça.

Renato Fino escreve sobre Só Vale a Pena se Houver Encanto

Mª Beatriz Giusti


O escritor Renato Fino
, curador da AnTa, a anti-festa literária da Asa Norte, um dos melhores eventos literários a que Brasília já assistiu, fez uma resenha que na verdade é um verdadeiro raio-x de meu romance Só Vale a Pena se Houver EncantoEspia só. 

“A literatura contemporânea anda sequestrada por temas afetados, que são direcionados a públicos restritos e copiados de manchetes digitais. Tem sido feita como música para escritório, que agrada os ouvidos sem ferir as almas. Este é um tempo de escritores que temem o cancelamento vindo de editoras, de leitores e de seguidores, o que explica, talvez, a abundância de escritas que não tocam a ferida comum a todos, e que se limitam a fazer o que, em verdade, deveria ser o papel do estado. A literatura de Giusti não quer salvar o mundo e, justamente por isso, salva a literatura. Giusti escreve com liberdade de escritor e faz valer o encanto que se prova com a leitura de um bom texto, ou seja, ele faz literatura à vera, o que é uma coisa rara em tempos de bandeiras ao vento e cancelamentos às cegas, em tempos que fazem da literatura um veículo particular, para não dizer que fazem dela um burro de carga. Verdade seja dita, neste século de literatura politicamente correta, Giusti chega a ser um escritor maldito.”

Um homem branco e a barbárie


Ferdinando é branco, bem alimentado, bem vestido, bem instruído, bem empregado no terceiro andar do bloco E da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Nasceu no interior de Goiás, onde a família tem umas terras.

Ferdinando gosta de discutir sobre o noticiário que passa na Globo News.

“É tudo vagabundo, não pode aliviar. Pra chorar a mãe do policial, que chore a dele, a do vagabundo”, e ele é categórico, enquanto as imagens abalam e chocam o país (ou também nem tanto).

“Mas Ferdinando, no meio de 120 todo mundo era bandido?”

“O que inocente ia tá fazendo na favela e no meio da bandidagem?”

Ferdinando, homem branco, bem alimentado, bem vestido, bem instruído, bem empregado no terceiro andar do bloco E da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, nunca foi ao Rio de Janeiro. “Minto. Fui uma vez e fiquei na casa de uma tia da minha mãe na Barra, mas foi um dia só”.

Ferdinando nunca entrou numa favela.

“Nunca entrei porque em Brasília não tem favela”, ele assegura que não tem, ele acredita que não tem.

extra.globo.com

Ferdinando é um burocrata de planilhas e tabelas, mas rechaça com autoridade a versão do especialista em segurança pública que crítica a operação em entrevista na Globo News

“Como é que esse babaca diz isso? Tá falando asneira!”, acusa Ferdinando, entendido de planilhas e tabelas no terceiro andar do bloco E da Esplanada dos Ministérios.

Mas Ferdinando não entende apenas de segurança pública no Rio de Janeiro, onde mal esteve.

Você pode conversar sossegadamente com ele sobre astrofísica, física quântica, gravidez de risco, ponto de cada corte de carne no churrasco, tipo de graxa para sapato marrom e preto e motores de foguetes.

Se você estiver pela Esplanada dos Ministérios, com dúvida sobre algum desses assuntos, procure Ferdinando, homem branco,  bem alimentado, bem vestido, bem instruído, bem empregado no terceiro andar do bloco E.

Atualmente seu interesse maior é segurança pública no Rio de Janeiro, e a partir da ampla visão adquirida no dia em que passou na casa da tia da mãe, na Barra da Tijuca, ele vai lhe assegurar:  “É tudo vagabundo, não tem como aliviar”.

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