André Giusti - foto: Luana Lleras
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Olhando na cara a bosta de pessoa que eu sou

Por muitos anos tentei disfarçar meus defeitos. Tantas vezes engoli a seco e sorri amarelo buscando um disfarce em situações que me colocavam pele a pele com o que tenho de pior. Não que eu quisesse parecer bonzinho. O que eu não queria, por vergonha, era deixar claro como sou ruim. Sempre me contorci, por [...]

mdemulher.abril.com.br

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Por muitos anos tentei disfarçar meus defeitos.

Tantas vezes engoli a seco e sorri amarelo buscando um disfarce em situações que me colocavam pele a pele com o que tenho de pior.

Não que eu quisesse parecer bonzinho.

O que eu não queria, por vergonha, era deixar claro como sou ruim.

Sempre me contorci, por exemplo, para não demonstrar ciúme, e não apenas de namoradas, muitas vezes de amigos também.

Ciúme é o código Morse da insegurança, que por sua vez desnuda uma pessoa frágil. E é preciso ter coragem para se mostrar frágil nesse mundo. Eu não tinha.

Mais que ciumento, rebolava para que não notassem como sou invejoso. Afinal, a inveja atesta pobreza de espírito, e como ser agente de um mundo melhor com essa condição?

São apenas dois exemplos dos penhascos obscuros da minha personalidade.

Na semana em que o calendário me pôs a dois passos dos 50, acho que cristalizei um processo iniciado lá pelos primeiros anos dos 40: assumir para mim mesmo quem realmente sou, me olhar no espelho como sou quando acordo, de cabelo amarrotado e barba por fazer. Pros outros, não me preocupar se não pareço um cara saído do banho, perfumado, com a roupa pega uma hora antes na lavanderia.

Tenho ciúmes e sou invejoso, e esses já são defeitos suficientes para justificar o que quero dizer aqui. Não preciso falar sobre os tantos outros.

Posso ter tanto ciúme de um ex-namorado de vinte e tantos anos atrás, quanto de um amigo que vai à casa de outro amigo em São Paulo, mas não vem à minha em Brasília.

Tenho inveja de quem viaja muito e viajou sempre pro exterior, de quem anda com notas de R$ 50 na carteira e dela as tira como se fossem de R$ 5. Ou até de R$ 2. Tenho inveja de quem compra, do nada, uma bela roupa, só porque estava passando pela loja e gostou do que viu na vitrine. E que vai sair dali sem a consciência pesada em relação às contas que vão vencer.

Assumir a bosta de pessoa que sou em determinados – e tantos – momentos me traz uma paz que eu não tinha quando lançava mão do disfarce.

E a consciência clara de quem realmente sou, e como isso me atrapalha, torna mais premente a necessidade de tentar mudar.

Se eu não mudar, não é por falta de conhecimento do que precisa se transformar em mim.

PS: Acho brega mandar flores pra mulher.
PS2: Tenho preconceito contra quem gosta de música sertaneja e de pagode.

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