André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Parceria da dignidade

Confesso que já olhei com desconfiança a parceria de Raul Seixas no final da vida com Marcelo Nova. Era até elementar a sugestão de que o ex-líder da banda Camisa de Vênus estivesse aproveitando para se promover a partir da história de Raul Seixas, que mesmo morrendo aos poucos, e em público, ainda arrastava multidões. [...]

Confesso que já olhei com desconfiança a parceria de Raul Seixas no final da vida com Marcelo Nova.

Era até elementar a sugestão de que o ex-líder da banda Camisa de Vênus estivesse aproveitando para se promover a partir da história de Raul Seixas, que mesmo morrendo aos poucos, e em público, ainda arrastava multidões.

Pois o documentário Raul Seixas – o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho, serve aos que creem pouco na raça humana olharem diferente para a aproximação entre um rockeiro mediano, cuja banda chegou no máximo ao segundo escalão do chamado BR Rock, e um mito, cujo corpo físico se desintegrava um pouco mais a cada show da dupla.

Marcelo Nova quem sabe tenha realmente trazido dignidade ao ocaso de Raul Seixas.

Hoje reconhecido como referência de atitude em música e comportamento, Raul amargou, no início dos anos 80, um quase ostracismo. A indústria cultural fechou-lhe as portas por causa da bebida e das drogas, caminho ao qual ela mesma tantas vezes levou aqueles que encheram seus cofres. Raul foi mais um desses. E um dos principais.

Mais do que material, essa dignidade foi certamente moral e artística, de acordo com o que se vê no filme. Walter Carvalho colheu depoimentos de pessoas que dão a entender que Raul teria vivido mais tempo se não houvesse encarado os cinquenta shows que fez ao lado de Marcelo Nova em pouco mais de um ano, uma agenda pesada para um homem que perdera mais da metade do pâncreas e não conseguia se libertar das garrafas.

Sim, possivelmente Raul teria vivido mais, só que provavelmente se arrastado entre uma clínica e outra mais dois ou três anos, lutando contra um monstro comprovadamente mais forte do que ele.

Se a parceria serviu a esse ou àquele interesse menor que o humanitário, ela permitiu que Raul Seixas partisse para a vida eterna vendo o público em delírio gritar seu nome, a exemplo do último show, em Brasília, uma semana antes de sua morte.

E ele merecia morrer com isso na cabeça.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (3)

  1. Denise Giusti -

    Vi o filme e concordo com sua opinião!

  2. giovani iemini -

    eu acompanhei estes fatos na vida do raul. na época, até o samuel rosa do skank chegou a dizer que o nova se aproveitava do raul, contudo, o roqueiro foi o único a se mostrar presente para ajudar o ídolo.
    acho que a volta aos palcos e à vida artística foi mais benéfica que qualquer outra coisa. o raul tava até durango, os shows o levantaram.
    depois, como resultado, só fiquei com antipatia do rosa. nunca mais escutei skank (só traguei, hahaha).

  3. Maria Villela -

    Interessante seu ponto de vista, André. E uma bela crônica!

Deixe o seu comentário!