André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Será um natal difícil

A campanha eleitoral deste ano não está abalando apenas a democracia. Está abalando também amizades e até laços de família. Quase todo dia sei de alguém que saiu de algum grupo de uatzápi, chocado com a posição daquele colega de 2º grau ou daquele primo que julgava tão bacana, tão sereno e centrado nos posicionamentos. [...]

Rabanada

A campanha eleitoral deste ano não está abalando apenas a democracia.

Está abalando também amizades e até laços de família.

Quase todo dia sei de alguém que saiu de algum grupo de uatzápi, chocado com a posição daquele colega de 2º grau ou daquele primo que julgava tão bacana, tão sereno e centrado nos posicionamentos.

E esse mesmo alguém sempre tem alguém a quem ele parou de seguir, desfez a amizade ou mesmo bloqueou.

Não tiro a razão e muito menos acho que quem assim age seja antidemocrático, que não aceite o debate ou opinião diferente da sua.

Sabe por quê? Porque não se trata mais apenas de discussão política, como foi em outras eleições de ânimos acirrados: Collor e Lula (1989) e Dilma e Aécio (2014).

É uma discussão por causa de valores humanos, de respeito ao próximo, à dignidade do semelhante.

Então, não dá mesmo para continuar sob o mesmo teto virtual que aquele colega que te emprestava o caderno na faculdade (que amava Pink Floyd e agora tá com cara de bunda sem saber o que fazer com os discos); aquele outro que te chamava sempre pro churrasco e o primo criado feito irmão quando eles defendem e empunham uma candidatura contrária a nossos principais valores, aqueles mais caros que sempre nos levaram a ver as pessoas com respeito e igualdade.

Quando votam em um candidato que lava as mãos em relação a um eleitor que mata um homem com 12 facadas apenas porque esse outro votou no adversário, eles estão também lavando as mãos, chancelando a estupidez.

É punk, radical (use o adjetivo que quiser) mas respeito ao semelhante, começando pela sua integridade, está acima até mesmo de amizades e laços de família.

Que se saia então dos grupos de zápi, que se esfriem as relações, que até mesmo tacitamente as encerremos, se estão nos afrontando em nossos princípios. Relações precisam de saúde.

Será um natal difícil, ao que parece.

Mas tem como se imaginar comendo rabanada e escutando falar de Jesus aquele seu cunhado que, a julgar em quem votou, considera normal que tenham colocado ratos na vagina das mulheres? Talvez daqui a um ano, quando o cenário for diferente, a poeira de toda essa estupidez tiver baixado e, quem sabe, ele tiver se arrependido.

Este ano não dá.

É o preço da coerência.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (0)

Deixe o seu comentário!