André Giusti - foto: Luana Lleras
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Tios

É sucinta a frase que chega pelo celular depois do almoço: nossa tia faleceu, oremos por ela. Mesmo que se acumulem anos desde a última vez que vimos quem acaba de pegar o túnel misterioso da morte, a notícia sempre vem embrulhada em papel de impacto. Fica, então, suspensa nessa tarde seca e quente, de [...]

É sucinta a frase que chega pelo celular depois do almoço: nossa tia faleceu, oremos por ela.

Mesmo que se acumulem anos desde a última vez que vimos quem acaba de pegar o túnel misterioso da morte, a notícia sempre vem embrulhada em papel de impacto. Fica, então, suspensa nessa tarde seca e quente, de ar parado, de poucas sombras e árvores paralisadas. Só aos poucos vai se dissolvendo no entendimento, reassumindo sua função de comunicar o único algo que nessa vida é inevitável: morrer.

Tios que morreram ou que se vão morrendo são na verdade sinais de que o tempo é mesmo, como muitos deles nos diziam, essa água impossível de se segurar nas mãos. Passar, para ele (o tempo), é verbo que lhe dá sentido, tanto quanto é o chegar para a morte. É por isso que a cada tio que se vai, creiam, é um pouco mais que envelhecemos.

Tios, quando se vão, levam definitivamente uma parte de nossas vidas, aquela que nós nem nos dávamos conta de que eles guardavam feito ferramentas em desuso, botões de roupas fora de moda. E o conhecimento disso nos é dado apenas e exatamente no instante em que nos chega a notícia da morte de um deles.

Mesmo crescidos, mas com eles ainda entre nós, sem que percebamos, de certa forma nossa infância e adolescência persistem em algum lugar do espaço, como se o passado fosse acontecimento paralelo ao presente de angústias e sonhos no futuro. Com os tios vivos, nosso passado é uma lâmpada que esqueceram acesa no sótão onde ninguém sobe. Na verdade, enquanto os tios não morrem, não se encerra aquela noite em que ficamos na casa deles para que nossos pais fossem a um baile de gala; muito menos passa de vez a manhã agitada em que nasceu nosso irmão caçula, quando também se encarregaram de nós.

É somente quando se vão desse mundo os tios , que realmente nos deixam na totalidade essas partes encantadas de nossas vidas, que resistiam semivivas sem nosso conhecimento. Apenas aí é que elas começam a se tornar lembranças esmaecidas, como aliás, no geral, passam a ser, quando vamos envelhecendo, todas as coisas que tínhamos nítidas na cabeça.

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Comentários (2)

  1. Raymundo Jr -

    Que belo texto André!
    Penso também assim e ao longo da minha vida, pude conviver com tios super especiais, alguns, que já não entre nós, que guardarei boas lembranças para sempre. Grande abraço,
    Raymundo Jr.

  2. Denise Giusti -

    Lindo texto. E como sempre cheio de poesia, como gosto! Parabéns.

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