André Giusti - foto: Luana Lleras
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Um século de incômodo e talento

Não acredito na arte que não provoque, ao menos em um pequeno momento, certo incômodo. Música, pintura, artes plásticas, literatura servem para expandir os sonhos, fazer-nos pausar da realidade, exprimir pontos de vista, mas são também instrumentos de reflexão. E isso pode incomodar, e aí estará uma das funções da arte. Quem escreve não pode [...]

Não acredito na arte que não provoque, ao menos em um pequeno momento, certo incômodo.

Música, pintura, artes plásticas, literatura servem para expandir os sonhos, fazer-nos pausar da realidade, exprimir pontos de vista, mas são também instrumentos de reflexão. E isso pode incomodar, e aí estará uma das funções da arte.

Quem escreve não pode fugir ao dever de incomodar. Incomodar todos os lados, diga-se de passagem. Se quem escreve sempre consegue, no sentido da unanimidade, concordância de um dos lados, desconfie do que lê, pois deve haver algo errado com quem escreve.

Nelson Rodrigues, que faria 100 anos nesta quinta-feira, escandalizou a direita porque desencavava a lama apodrecida dos “bons costumes” da classe – média. Expunha o nervo hipócrita da vidinha requentada da classe média, escravizada e oprimida pelos padrões do senso comum. Padrões da aristocracia, da Igreja, do machismo. Padrões dos poderosos.

Era odiado pela esquerda por que talvez enxergasse as imbecilidades e as fraquezas de conduta nas correntes que a vida toda quiseram nos fazer acreditar que só arregimentavam santos e anjos salvadores.

Provavelmente nosso maior frasista, não era panfletário de nenhuma ideia, muito menos ideologia. E como poderia ser, se incomodava tanto?

Por isso, e por fazê-lo com extremo talento, não tornou-se a unanimidade – burra, em sua opinião – , mas em seu centenário, está se eternizando.

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