André Giusti - foto: Luana Lleras
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49 de idade, 30 de jornalismo

Alguns dias atrás soube que fui preterido em duas oportunidades de emprego. O motivo não foi técnico. “Sabe como é, né? É aquele jeito explosivo dele…”, as pessoas confessaram a quem me trouxe a informação. Profissionalmente, fui criado em ambiente de gritos, esporros e telefone na cara, o que atualmente – fácil, fácil – se [...]

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Alguns dias atrás soube que fui preterido em duas oportunidades de emprego. O motivo não foi técnico. “Sabe como é, né? É aquele jeito explosivo dele…”, as pessoas confessaram a quem me trouxe a informação.

Profissionalmente, fui criado em ambiente de gritos, esporros e telefone na cara, o que atualmente – fácil, fácil – se chamaria de assédio moral.

Tive como chefes excelentes jornalistas, mas que não possuíam qualquer condição emocional de comandar uma equipe.

Tornei-me chefe de redação bem novo, aos trinta anos. Fui uma solução barata para a empresa para a qual eu trabalhava na época, Rádio CBN – Sistema Globo de Rádio. Fui pego pela gola, tirado em uma semana da minha cidade, trazido para uma outra em que eu jamais havia pisado. Quando cheguei, foi dito a mim após ser apresentado à equipe: toma, agora é com você, se vira!

Não tive qualquer capacitação para ser chefe, ou líder, na linguagem polida e moderninha dos manuais de administração. Enfrentei a coisa a partir do modo como eu via ser feito, e como disse acima, não tive sempre os melhores exemplos. E no meio da guerrilha que é uma redação, é claro que o emocional me venceu em vários momentos.

As pessoas que se referiram ao meu jeito em momento algum se preocuparam em perguntar se eu havia mudado. Não me veem há anos, não convivem comigo há outros tantos.

Quem trabalhou comigo de uma década pra cá sabe que não sou exatamente o Buda redivivo, mas passo longe de um modelo dinamite de O Diabo Veste Prada. Aprendi, de diversas formas, entre elas a dor, que precisava mudar.

Só que mais importante do que isso é dizer que jamais me vali de minha profissão para proveito próprio, pessoal. Nunca entrevistei ninguém para obter benefício posterior, nem que fosse um mero ingresso para teatro. Se me davam, era porque queriam, eu não pedia. Assisti a ótimos shows e peças de teatro, mas com a consciência tranquila de quem serviu à sociedade com o jornalismo.

Por que informação para mim é somente o que pode interessar à sociedade. Se é permuta de interesses pessoais entre o jornalista e o outro lado, virou corrupção.

Acho dispensável dizer que nunca pus a mão em mesada de político ou governos.

Como chefe, lancei muita gente no mercado. Quando a pessoa não correspondia ao que a empresa precisava dela, eu dava uma, duas, às vezes três chances. E se tivesse que dispensá-la, o fazia sem a fritura pelos corredores ou junto aos meus superiores.

Sofro de uma total falta de talento para fazer média com a cara dos outros. Sou amigo de quem gosto, e não de quem preciso. Se você que está lendo esse texto já foi a minha casa algum dia, saiba que esteve lá porque ao menos na época eu gostava de você, independentemente de você ser gerente geral ou operador de xerox.

E essas pessoas lá do começo do texto conhecem esse meu modus operandis tão bem quanto conheceram o meu outrora ‘jeito explosivo´. Mas a gente sabe que a balança humana sempre pende para o lado dos defeitos.

Hoje amargo um certo ostracismo na imprensa, sentindo e sabendo o quanto tenho a dar ainda ao país e à sociedade fazendo jornalismo com a energia física e mental aliada à experiência de homem e profissional.

Ao mesmo tempo, sei de pessoas que nem sempre prezaram pela conduta moral na hora de fechar uma matéria, entrevistar uma autoridade ou mesmo decidir quem empregar ou demitir de uma equipe e que estão muito bem, obrigado, no topo da cadeia alimentar.

É que falavam baixo, com aquela polidez de manual e sorriso inabalável.

Há poucos metros de fazer 49 anos de idade e com três décadas de jornalismo, paro para pensar se o mundo não é, então, dos sonsos e dos dissimulados.

Se for, que façam bom proveito dele.

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