André Giusti - foto: Luana Lleras
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A cobertura do caso Nardoni.

A semana está um prato cheio para veículos de comunicação que adotam como filosofia de trabalho um tipo de cobertura jornalística que, mais do que destacar a importância do fato como noticia, e por isso de interesse da sociedade, transforma o tratamento de certos assuntos em show. A chamada espetacularização da notícia não é novidade [...]

A semana está um prato cheio para veículos de comunicação que adotam como filosofia de trabalho um tipo de cobertura jornalística que, mais do que destacar a importância do fato como noticia, e por isso de interesse da sociedade, transforma o tratamento de certos assuntos em show.

A chamada espetacularização da notícia não é novidade na imprensa. O neologismo rebatiza de certa forma o que sempre foi chamado de sensacionalismo. A nova palavra parece ter nascido nos campos de batalha pela audiência das grandes redes. Sendo assim, espetacularização é, claro, sensacionalismo, só que agora repaginado (outro neologismo criado pela mídia) pela tecnologia televisiva. E quem assiste sabe: televisão e espetáculo se confundem a cada plim-plim.

As emissoras de televisão – principalmente elas – estavam salivando pelo julgamento do caso Nardoni. É o último round do vale-tudo pela audiência que começou na época do crime. Ali, certamente, o tratamento dado à tragédia exacerbou a dor de cada um de nós pela forma como a pequena inocente deixou este mundo. Não me esqueço – e até hoje não digeri – a imagem da boneca sendo jogada ao vivo da janela pelos peritos que participavam da reconstituição do caso. Reconstituição ao vivo! Quem não se lembra da boneca despencando em cores para todo o país? Ah, mas era uma boneca! Alegaram os jornalistas “compromissados” com a informação. Como se não víssemos, automaticamente, naquele monte de pano e trapo a própria criança assassinada. E também a sombra aterrorizante de nossos filhos.

Agora, no julgamento, não é apenas a guerra dos canais com seu massacre de “ao vivos” e repetição exaustiva de informações na maior parte do tempo em que nada de relevante acontece no tribunal. A massificação conquistou também as primeiras páginas dos jornais. A tão alardeada sobriedade dos jornalões do Rio e de São Paulo parece que está tendo que fechar os olhos e engolir em seco manchetes de primeira página do tipo Gritos de Isabella foram abafados. Não discuto a relevância da informação. Discuto a frase forte no alto da página em grandes letras de uma manchete, um ferro quente cutucando a ferida infeccionada que é esse caso em cada família brasileira.

No meio disso tudo, destaque para O Estado de S.Paulo desta quarta-feira. O jornal simplesmente não colocou nada sobre o julgamento na primeira página. É de se ter quase a certeza de que em um jornal como o Estadão a ausência do assunto não tenha sido obra do equívoco de alguém. O julgamento não estava na primeira página simplesmente porque os editores decidiram que não havia informação tão importante assim que justificasse manchete na chamada vitrine do jornal.

Nesse caso, não fizeram nada além de jornalismo sério e preocupado com a sociedade: o que deve nortear o tratamento de uma notícia é a importância, e não o sensacionalismo.

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Comentários (6)

  1. Daiane Garcez -

    Carla, não se assuste se hoje houver uma reportagem sobre o sucesso nas vendas de guarda-chuva e bancos e cadeiras (aqueles de plástico, sabe?). Afinal, o público do lado de fora precisa …

  2. Socio -

    O escândalo é necessário, mas ai por quem vier o escândalo. Há uma forma melhor de informar.

  3. Hugo Giusti -

    É lastimável, tanta coisa maravilhosa acontecendo e ninguem informa. Um dia o Mundo será melhor! Ah, tem que ser!! Valeu André!!!!

  4. Ana Cristina Melo -

    É por isso que há algum tempo eu me desliguei da tevê e dos jornais. Manchetes de violência, principalmente se envolverem crianças, eu não leio. No caso da Isabella, não teve como, pois foi um bombardeio tal que eu precisaria me trancar num quarto blindado para não tomar conhecimento. O crime que já foi tão chocante e mexe tanto com nossos corações de pais e mães (eu que chorei muito a dor de pensar como alguém pode não amar seres tão abençoados), me choco também com esse sensacionalismo.

  5. Carla Furtado -

    Alguém precisava abordar isso! Ainda pior são as matérias feitas “ao redor” do acontecimento, como o JN de ontem que abordou o aumento do movimento nos restaurantes próximos ao local do julgamento. Nonsense total…

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