André Giusti - foto: Luana Lleras
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A fortuna nossa de cada dia

Ontem, dia do aniversário de Brasília, a cidade quase desapareceu debaixo d’água. Caiu um temporal daqueles de se esperar que Noé passasse dando a última chamada para a Arca. Estava tomando café em uma padaria chiquezinha, dessas que fazem pãezinhos fofos com semente de girassol da Malásia e amêndoas do Turquestão. Como a rua a [...]

Brasília, Asa Norte, CLN 402 - Domingo, 21/4

Brasília, Asa Norte, CLN 402 – Domingo, 21/4

Ontem, dia do aniversário de Brasília, a cidade quase desapareceu debaixo d’água.

Caiu um temporal daqueles de se esperar que Noé passasse dando a última chamada para a Arca.

Estava tomando café em uma padaria chiquezinha, dessas que fazem pãezinhos fofos com semente de girassol da Malásia e amêndoas do Turquestão.

Como a rua a minha frente virou uma corredeira e não havia como sair, pedi uma taça de vinho (Rio Sol, feito no Vale do São Francisco, em Lagoa Grande, em Pernambuco, surpreendentemente delicioso) e até exerci meu direito dominical de bom burguês de postar uma foto da taça nas redes sociais.

Quando me dei conta do prazer daquele momento – a cidade submergindo e eu, sequinho, bebendo vinho – me lembrei do sujeito que lava carros em um estacionamento e que mora lá mesmo, numa velha barraquinha de camping, que, de tão pequena, para se deitar ele certamente precisa dobrar os joelhos.

E pensando se a barraquinha não virara barquinho de papel na força da enchente, me lembrei também das quase 300 pessoas trucidadas pela manhã no Sri Lanka, em nome da estupidez religiosa.

vINHO

Não me senti mal, tampouco culpado pelos cristãos inocentes ou pelo sujeito da barraquinha, ou por quem quer que fosse estivesse em risco de perder a casa naquele aguaceiro.

Mas refleti sobre o quanto sou afortunado nesse mundo de miséria material, moral e espiritual.

Se a gente olhar em volta, teremos, a todo momento, motivos para agradecer a sei lá quem ou a quê – depende da crença de cada um -, mas teremos.

PS: A barraquinha do sujeito do estacionamento continua lá, firme e forte, e ele todo feliz, como se morasse numa fortaleza de pedra.

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