André Giusti - foto: Luana Lleras
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Aki naum

A internet não mudou apenas a vida de cada um de nós. Tem mudado também a escrita. Ou esculhambando-a, dependendo do ponto de vista. No já envelhecido twitter, aqui virou aki. Antes que os “twiteiros” se arvorem na defesa de que um K ocupa menos espaço do que um Q e um U juntos, algo [...]

A internet não mudou apenas a vida de cada um de nós. Tem mudado também a escrita. Ou esculhambando-a, dependendo do ponto de vista.

No já envelhecido twitter, aqui virou aki. Antes que os “twiteiros” se arvorem na defesa de que um K ocupa menos espaço do que um Q e um U juntos, algo importante nos espremidos 140 caracteres, lembro do não, palavra que o ser humano mais ouve na vida desde que nasce. Muitas vezes ele aparece escrito naum, destacando o som que o til empresta ao A e ao O quando estes estão juntos. A justificativa da economia de espaço cai por terra.

Esses dias li o protesto de uma “twiteira”. Indignada com o editorial de determinado jornalista, ela pedia ao fulano  “nos polpe de suas opiniões”. O que se escreve na internet, e em particular no twitter, pode ter dois aspectos. O primeiro é que se escreve errado pela necessidade momentânea de se economizar espaço ou mesmo pela pressa em se digitar logo a mensagem. É ruim, só que menos grave do que o segundo: escrevem errado, pois acham que aki e naum são as formas corretas.

Aqui em Brasília é normal as pessoas falarem que vão “ao Goiás” ou “vieram do Goiás”. Com o tempo, é previsível que a forma errada  de falar substitua mesmo o “ir a Goiás” ou o “vieram de Goiás”, da mesma maneira que vossa mercê tornou-se a avó anacrônica de você.

E é aí que bate o medo de que as mudanças impostas à língua pela própria capacidade que ela tem de se transformar na boca do povo – algo bem saudável, diga-se de passagem – sejam conduzidas pelos equívocos dos que não sabem escrever, e que muitas vezes usam as máscaras das acomodações da escrita à internet.

Não defendo “menos internet”.

Defendo mais leitura.

Dos livros, é claro.

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Comentários (6)

  1. Ana Cristina Melo -

    André,
    seus textos são ótimos. Pena que meu tempo esteja tão curto, mas vou mudar isso. Em vez de acumular o que tenho para ler, reservarei cinco minutinhos cada vez que você avisar que tem presente para nós.
    Quanto ao texto, concordo com você. Os jovens já leem pouco, escrevendo assim, que futuro terão? Meu palpite para o “naum” é ser a forma que arranjaram para dar eco à aversão aos acentos. ;) Bjs

  2. Ana Benevides -

    Oi André,
    Adorei encontrar eco em suas palavras. Pior que escrever errado, não ler nada ou quase, é usar o gerúndio indiscriminadamente. Pobre vernáculo. Ô dó!
    Vou repetir: Gostei muito do seu livro. Parabéns.

  3. André Giusti Autor do post -

    Ninguém explicou até hoje porque é DE GOIÁS e DO AMAZONAS, é mesmo uma regra sem sentido, sem qualquer lógica como aliás ficaram ainda mais sem lógica algumas regras com a tal da “reforma”.

  4. Sócio -

    “Nascer no Cairo, fêmea de cupim”. Lembra? Estou por fora deste história de “twitter”. Por enquanto, eu acho. Quando lemos é importante ter a “pegada” do livro. Importante correr os dedos nas linhas. As vezes bater as costas das mãos na página e comentar: “Mas isto é mesmo bom!”
    Do Ariosto não sei dizer. Do Zedias: deixa ele quieto.

  5. giovani iemini -

    o pior é ter que aceitar reformas orto-estupido-gráficas que ATRAPALHAM ainda mais a compreensão da língua escrita.

  6. Eduardo -

    Rapaz, o pessoal lá de Recife tb (abreviação “internética”) tem mania de dizer que é DO Recife. Quem está certo: o gramático fluminense (ou paulista, gaúcho, seja o que for) ou a gente da cidade? Tento escrever como mandam os gramáticos, mas se o sujeito de(o) Goiás ou de(o) Recife acha que merece o artigo definido, por que negar-lhes este direito? Afinal, ninguém volta DE Mato Grosso ou DE Pará. Se matogrossenses e paraenses podem ir e voltar com artigo definido, por que não recifences e gioaenses? (Espero ter acertado todos esses gentílicos; a verdade é que estou chutando alguns).

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