André Giusti - foto: Luana Lleras
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As estranhas réguas do tempo – 2

Há nove anos minha carteira de trabalho não saía da gaveta. Todo esse tempo trabalhei como pessoa jurídica, figura cada vez mais fácil nas redações e assessorias de comunicação país afora. No caso de algumas empresas, contratar como PJ realmente viabiliza a oferta de trabalho. Pela CLT seria inviável e um posto de trabalho estaria [...]

Há nove anos minha carteira de trabalho não saía da gaveta. Todo esse tempo trabalhei como pessoa jurídica, figura cada vez mais fácil nas redações e assessorias de comunicação país afora.

No caso de algumas empresas, contratar como PJ realmente viabiliza a oferta de trabalho. Pela CLT seria inviável e um posto de trabalho estaria fechado. Em outros, no entanto, é esperteza patronal disfarçada de modernidade na relação trabalhista.

Julgamento de mérito à parte, minha surrada carteira viu a luz do sol depois de muito tempo e eis que sou pego de surpresa pelo rapaz do departamento de recursos humanos: “não há mais espaço para contrato de trabalho, você terá que tirar outra”, me avisa tranquilo, devolvendo-me o livreto amarelado que certamente é mais velho do que ele.

Sentei num canto e folheei suas pequenas páginas, e os anos de minha vida profissional passaram manchados de canetas e carimbos. Mas essas marcas não são apenas borrões, são mais ainda lugares, pessoas queridas ou desprezadas, alegrias, sonhos e desilusões.

Gabriel Garcia Marques diz que um homem descobre que está envelhecendo quando começa a se parecer com seu pai. Hoje descobri que isso acontece também quando a carteira de trabalho acaba e não há mais espaço para carimbos e canetadas, e ficamos com um ar abestalhado, segurando o documento, pensando que o tempo deveria ter mais consideração e não nos pegar de surpresa quando fosse avisar que está passando e que estamos mesmo envelhecendo.

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Comentário (1)

  1. Denise Giusti -

    Ótimo texto. Eu já tenho três carteiras, acho que será a última!

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