André Giusti - foto: Luana Lleras
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Viajo porque preciso, volto porque te amo

Viajando de carro no fim do ano reparei que estão desaparecendo as frases dos parachoques de caminhão. No lugar delas, os motoristas têm pintado dizeres bíblicos ou uns que anunciam outros modos de salvação. As frases me distraíam durante as viagens de carro quando eu era criança, poupavam a paciência de meus pais, já que [...]

Viajando de carro no fim do ano reparei que estão desaparecendo as frases dos parachoques de caminhão. No lugar delas, os motoristas têm pintado dizeres bíblicos ou uns que anunciam outros modos de salvação.

As frases me distraíam durante as viagens de carro quando eu era criança, poupavam a paciência de meus pais, já que eu ficava pelo menos um tempo sem perguntar de cinco em cinco minutos se já estávamos chegando.

A que uso como título nesse texto é, certamente, a mais famosa de todas. Resignada, sintetiza com lirismo a vida de quem ganha o pão de cada dia cortando o Brasil atrás de um volante. Foi nome três anos atrás do que tem se chamado ultimamente no cinema de road movie.

Mas o principal viés dessa “literatura” estradeira era o humor coalhado de malícia. “Por falta de roupa nova, passei o ferro na velha”, “A moça casa com o pão pensando no salame” e “Sogro rico é que nem porco gordo: só dá lucro depois que morre” tinham essa roupagem Zorra Total e A Praça é Nossa, só que engraçadas.

Minha inocência à época não permitia que eu alcançasse a intenção dessas frases, mas hoje, depois de tanto ler na vida, considero aqueles caminhoneiros do passado uma espécie de poetas da estrada, levando-se em conta que poesia é lirismo, mas também é irreverência, e pode (e deve) ainda ser humor e malícia.

Nada contra a religiosidade de ninguém, mas o sumiço das velhas frases de parachoque me fazem pensar num país que por causa de uma fé ausente de racionalidade e da já repisada auto ajuda barata, está perdendo seu talento natural de rir das próprias mazelas.

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Comentários (2)

  1. Denise Giusti -

    Continuo adorando viajar pelas estradas, viajo pouco ultimamente e quase sempre de ônibus por isso fica difícil observar que não existe mais nos parachoques de caminhãoee essas frases, pena … Ótimo texto, André!

  2. angela giorgio -

    Sim, é isso! Nem lembrava… Também me remeteu à infância…
    Hoje, tenho pavor de viajar nessas estradas… Prefiro as barrinhas da Gol, ou o lanchinho furreca da Tam..
    Abrs

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