André Giusti - foto: Luana Lleras
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Boechat e a simplicidade do rádio

Boechat não era um homem de rádio. Descobriu-se de rádio já burro velho. E bem ao contrário de outras crias dos jornais impressos que povoam as rádios de notícias há mais de 20 anos e entendiam o ouvinte, Boechat sabia lidar com o microfone, chamava-o de “meu bem”, para usar uma expressão empregada a Pelé [...]

Reprodução youtube

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Boechat não era um homem de rádio.

Descobriu-se de rádio já burro velho.

E bem ao contrário de outras crias dos jornais impressos que povoam as rádios de notícias há mais de 20 anos e entendiam o ouvinte, Boechat sabia lidar com o microfone, chamava-o de “meu bem”, para usar uma expressão empregada a Pelé com a bola.

Trabalhei nas chamadas emissoras all News por quase 25 anos e delas me afastei em 2010.

Saí cansado de tentar explicar – principalmente aos mais novos, mas também a muito sujeito rodado – que o rádio nada mais é do que uma conversa que tem muita gente escutando.

Cansei de dizer que na vida normal ninguém fala que fulano estava “dirigindo após ter ingerido bebida alcoólica”. A gente fala que o cara bebeu e foi dirigir, que estava dirigindo bêbado.

Ninguém te conta que o vizinho “foi alvejado por disparo de arma de fogo em via pública”.

A gente fica sabendo que o vizinho tomou foi um tiro no meio da rua.

Cansei de dizer para fazerem o que Boechat fazia: falar claro, objetivo, simples.

Parecia propositalmente caricato em algumas situações, como a que em pleno século 21 forçou uma ingenuidade para dizer que achava que ainda se usava creme rinse.

Às vezes pecava pelo excesso, pela crítica pela crítica, de olho na audiência, e havia também as risadas forçadas e teatrais na conversa com José Simão.

Mas Boechat aproximava o rádio do ouvinte, no meio de tanta gente que rema no sentido contrário, gente para quem os únicos verbos da língua portuguesa parecem ser afirmar e seguir.

(Reparem que ninguém mais garante, assegura, acha; todo mundo só afirma, bem como nada nem ninguém permanece, continua. O trânsito só segue engarrafado, o paciente só segue internado. É cansativo, é desinteressante).

Boechat já faria falta se o rádio atualmente fosse uma constelação de astros e estrelas.

Na mediocridade e no marasmo, fará ainda mais.

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Comentários (2)

  1. André Giusti Autor do post -

    Obrigado, irmão! É bom escrever para quem entende do meio.

  2. David Rangel -

    Excelente, Giusti!

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