André Giusti - foto: Luana Lleras
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Verão de 1984.

Mais de uma hora de ônibus até a praia, em Ipanema, posto 9, em frente à rua Joana Angélica.

Me achava o Menino do Rio, o André de Biase do subúrbio.

Amarrada no cadarço do calção a grana certa prum guaraná (Guaraná Taí, gostoso como um beijo!) e um pão de mel na padaria da esquina com a Visconde de Pirajá.

Na cabeça era tanto sonho que um verão só não bastaria para viver tudo.

No coração, a alegria de encontrar meus amigos e saber que iríamos rir muito, muito mesmo.

Nos ouvidos, essa canção do Slade, que tocava de 5 em 5 minutos na Rádio Cidade.

Nada de viver no passado, mas às vezes dá vontade de voltar lá rapidinho, dar uma choradinha de alegria e, pronto, encarar de novo o presente, que é o que existe de verdade.

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1 – Tanta escola pra fazer ou melhorar, tanto hospital pra fazer funcionar bem, tanto esgoto pra colocar e a discussão é sobre quem pode ou não usar fuzil.

(Parabéns aos envolvidos).

Bolso

2 – “Eu tenho arma há anos e nunca matei ninguém”. O sujeito fala como se ele, armamentista, fosse ser a regra em um país onde vai ficar 10 vezes mais fácil ter uma arma. E fala com um tom de quem está fazendo um grande favor a todos nós sendo civilizado e não fazer nenhuma cagada com o trabuco na mão.

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canstockphoto.com.br

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Teria sido suficiente e acima de tudo republicano dizer que “todos têm o direito de se manifestar, mas peço que entendam que o Brasil passa por um momento orçamentário difícil e os cortes são necessários, inclusive na educação”.

Mas ao chamar manifestantes de “massa de manobra” e “idiotas úteis”, o governante só reafirma seu (único) talento, conhecido há mais de 20 anos, de jogar gasolina na fogueira, além da sua não menos conhecida total falta de preparo para o cargo que exerce.

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André Dahmer

André Dahmer

O cartum de André Dahmer me remeteu a uma impressão / sensação que sempre tive em relação à literatura, e mais especificamente à crítica literária e ao gosto das editoras.

É só uma impressão, repito, mas me parece que livros cujos personagens são doentios, infelizes, psicopatas, violentos – por aí vai – são mais bem aceitos e ovacionados pela crítica literária.

Não tenho qualquer levantamento estatístico; apenas meu exemplo pessoal.

Em meu 1º livro, Voando Pela Noite (Até de Manhã), lançado em 1996 pela 7Letras, há um conto em que o personagem principal cheira cocaína o tempo inteiro, estupra uma colega de faculdade e se mata (e mata a garota) em um acidente de carro.

Sempre foi o conto preferido da editora, a ponto de, na 2ª edição, em 2013, ter passado a ser o último do livro, para “fechar com chave de ouro”.

Relembrando de alguns (bons) títulos que li nos últimos anos e que foram premiados, verifico que todos eles têm personagens principais doentios, tristes, assassinos ou que acham a vida uma bosta e o ser humano sem salvação.

Personagens ricos, sim, com muito conteúdo, mas nenhum feliz, nenhum “de boa” como se diz hoje, construindo no leitor uma perspectiva melhor do mundo e da humanidade.

Até me pergunto se não é uma derivação intelectual-literária do sensacionalismo dos programas popularescos de TV.

É normal que a literatura aborde a tristeza e suas primas, os desvios de comportamento e seus derivados, pois todos fazem parte da vida.

Mas alegria e a bondade também fazem.

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Guia do Filósofo Aprendiz na Internet - Blogger.com

Guia do Filósofo Aprendiz na Internet – Blogger.com

Filosofia, sociologia e história – especialmente filosofia – não são apenas disciplinas importantes.

São as mais importantes de todas e assim deveriam ser consideradas por quem monta os currículos escolares.

Com todo respeito e reconhecimento às outras matérias, é mais necessário que antes de conhecer equações, fórmulas que cruzam massa e velocidade ou combinações de metais e gases o ser humano estude sobre sua condição nesse planeta e seu papel nessa existência.

Fundamental também que identifique, já nos primeiros bancos escolares, o que é sua relação com o meio em que vive e o que aconteceu no país e no mundo antes de ele, aluno e futuro cidadão, nascer, para que erros do passado não retornem ao presente.

O problema é que as três disciplinas formam pessoas pensantes, capazes de contestar sistemas e quem os conduzem, o que é uma ameaça em potencial ao poder.

O sistema educacional brasileiro, opressor e apenas preocupado com resultados em programas de seleção (para que possa estampar índices de aprovação em outdoors de propaganda de colégios para brancos e ricos) privilegia matérias que exigem raciocínio, mas não pensamento.

E como já esperávamos, essa forma de ensinar nossos estudantes é também agora uma maneira de governar.

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Paulo Brant, vice-governador de MG e o governador Romeu Zema (Novo)

Política é ambiente dos cínicos e partidos políticos são território dos hipócritas.

Todos eles, em maior ou menor grau, mesmo os que possuem certa consideração e preocupação com a sociedade, distanciam seus discursos de campanha ou de tribuna (quando seus representantes são eleitos) da prática diária nos parlamentos ou palácios de governo.

Mas, no quadro atual, o tal partido Novo se supera na hipocrisia.

É o partido do banqueiro João Amoedo, candidato que, após a comprovação dos esperados desatinos do governo Bolsonaro, começou a receber tantas declarações posteriores de voto no 1º turno do ano passado, que é de se estanhar que não tenha ido para o 2º turno.

É o partido que prega o Estado mínimo, enxuto, com arrocho nos gastos públicos, mas cujo vice-governador de Minas usou bem faceiro o helicóptero do governo para sair de um SPA de luxo no último feriado.

Mesma aeronave que, 2º a imprensa mineira, é usada sem parcimônia pelo governador, como se seu partido jamais houvesse falado em contenção de gastos, em Estado administrado como empresa.

É o partido do Estado mínimo.

Mínimo para o povo pobre; máximo para a mordomia dos governantes.

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Brasília, Asa Norte, CLN 402 - Domingo, 21/4

Brasília, Asa Norte, CLN 402 – Domingo, 21/4

Ontem, dia do aniversário de Brasília, a cidade quase desapareceu debaixo d’água.

Caiu um temporal daqueles de se esperar que Noé passasse dando a última chamada para a Arca.

Estava tomando café em uma padaria chiquezinha, dessas que fazem pãezinhos fofos com semente de girassol da Malásia e amêndoas do Turquestão.

Como a rua a minha frente virou uma corredeira e não havia como sair, pedi uma taça de vinho (Rio Sol, feito no Vale do São Francisco, em Lagoa Grande, em Pernambuco, surpreendentemente delicioso) e até exerci meu direito dominical de bom burguês de postar uma foto da taça nas redes sociais.

Quando me dei conta do prazer daquele momento – a cidade submergindo e eu, sequinho, bebendo vinho – me lembrei do sujeito que lava carros em um estacionamento e que mora lá mesmo, numa velha barraquinha de camping, que, de tão pequena, para se deitar ele certamente precisa dobrar os joelhos.

E pensando se a barraquinha não virara barquinho de papel na força da enchente, me lembrei também das quase 300 pessoas trucidadas pela manhã no Sri Lanka, em nome da estupidez religiosa.

vINHO

Não me senti mal, tampouco culpado pelos cristãos inocentes ou pelo sujeito da barraquinha, ou por quem quer que fosse estivesse em risco de perder a casa naquele aguaceiro.

Mas refleti sobre o quanto sou afortunado nesse mundo de miséria material, moral e espiritual.

Se a gente olhar em volta, teremos, a todo momento, motivos para agradecer a sei lá quem ou a quê – depende da crença de cada um -, mas teremos.

PS: A barraquinha do sujeito do estacionamento continua lá, firme e forte, e ele todo feliz, como se morasse numa fortaleza de pedra.

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Mordaça

Em tempos de compartilhamento instantâneo de conteúdo, a censura serve muito mais como gasolina do que água na fogueira.

Proibir a veiculação de uma mensagem só faz com que ela ganhe com mais força ainda o continente sem fronteira das redes sociais.

Aí, acontece justamente o que o censor queria evitar: que todas as torcidas do planeta conheçam o que ele proibiu de direito, mas, devido ao mecanismo frenético da comunicação atual, não de fato.

A matéria da Revista Crusoé censurada pelo STF mantém o padrão das matérias nascidas a partir do vazamento (seletivo) da lava-jato: acusações sem provas de alguém que está de olho nos benefícios da delação premiada. Nada mais.

Com o dedo anacrônico da censura, ganhou holofote que não teria se a parte atingida ficasse calada e fizesse ouvido de mercador, como diziam avós distantes em nossa infância.

Tão lamentável quanto a censura é o STF ocupar seu tempo de modo corporativo, trabalhando a favor de interesses particulares de seus integrantes.

Fala-se, com razão, da qualidade do atual Congresso, muito aquém de um parlamento que já teve Ulysses e Tancredo, para ficar em apenas dois exemplos.

Qualidade maior não parece ter o Judiciário de hoje em dia.

O que não é, de modo algum, motivo para fechamento.

De nenhum dos dois.

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Poucos sabem que sou sujeito religioso.

Se me perguntarem, falo sobre o assunto com naturalidade, mas não tenho talento nem paciência para tentativas de converter o próximo.

Aos chatos insistentes na pregação, ofereço minha adaptação às palavras do próprio Cristo: Ide e pregai (Mas não enchei o saco)!

Criado em família espírita, permaneço estudando a doutrina trazida ao mundo por intermédio do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido como Allan Kardec.

Mas o faço em casa, distante dos centros espíritas que já frequentei, por não concordar com a maneira retrógrada, monótona e alienada, fora da contextualização do mundo atual com que o Espiritismo é levado às pessoas nesses lugares. Ao menos em Brasília, onde moro, tem sido assim.

O afastamento efetivo se deu ano passado, por ocasião das eleições.

Não aceitei que a Federação Espírita Brasileira (sem fazer campanha política, por favor, entendam!) não tenha em momento algum se manifestado alertando aos adeptos da doutrina que diversos pontos da plataforma política e do discurso de determinado candidato eram frontalmente contrários aos ensinamentos de Jesus.

Diocese de Sete Lagoas

Diocese de Sete Lagoas

Em resumo, não aceitei (e não aceito) que um cristão, no meu caso particular, os espíritas, tenha votado nesse candidato.

E votaram, muitos votaram, tanto é que fui execrado de vários grupos de zap do meio espírita com o velho argumento covarde e conivente com a opressão de que “aqui não é lugar para se discutir política”.

Quando na verdade a discussão não era sobre política.

Era sobre valores; cristãos, inclusive.

Agora a Folha de São Paulo traz pesquisa informando que entre os evangélicos a aprovação ao governo chega a 42%.

31% dos católicos, umbandistas e candomblecistas ouvidos consideram o governo ruim ou péssimo.

O percentual de reprovação mais alto está entre os que não possuem religião: 47% acham o governo ruim ou péssimo.

Os espíritas, como sempre, não são citados.

Olhando a pesquisa e casando-a com minha experiência recente, começo a concluir que não as religiões, mas seus líderes e doutrinadores nos templos, igrejas, terreiros e centros talvez não estejam transmitindo corretamente a mensagem de amor ao próximo que todas elas trazem em seus ensinamentos.

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As quatro frases elementares – e possivelmente as únicas – dos eleitores do Bolsonaro nas redes sociais são (não necessariamente nesta ordem):
- Deixa de mimimi (essa é tópi. Aliás, tópi é o adjetivo preferido deles)
- Ah, me poupem!
- Magoou?
- ‘ceis ‘é’ tudo petista! Kkkkkkkk!!!!

Porco

PS: Tudo bem que o Exército nada tenha a ver com o Ministério da Justiça, mas é incômodo o silêncio de Sérgio Moro sobre o pai de família executado ontem no Rio.

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