André Giusti - foto: Luana Lleras
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Reprodução FB A.Marino

Reprodução FB A.Marino

Do nada me cai no colo deliciosa lembrança trazida pelo poeta Alexandre Marino.

Na foto, página do (saudoso) Jornal do Brasil com a matéria assinada por ele, que também é jornalista.

Je Vou Salue Marie acho que foi o primeiro grande desafio de um país que saía da censura como um todo, inclusive na cultura.

O filme de Jean Luc Godard mostrava Maria – mãe de Jesus – como uma garota normal, que engravida de uma maneira normal (como Maria engravidou, diga-se de passagem).

O conservadorismo caiu de pau em cima, querendo proibir o filme no cinema.

E conseguiu.

Sarney era o presidente e cedeu à pressão: a censura estrebuchava, mas ainda dava uns gritos.

O Marino conta bem tudo isso na página dele, veja lá.

Eu era um moleque de primeiro período de faculdade de comunicação, um tanto longe ainda de uma redação, e vivi, justamente como estudante, toda essa polêmica.

O DCE da minha faculdade conseguiu uma cópia clandestina do filme e a exibição foi feita num cantão meio escondido do campus, porque, pelo que me lembro, a direção da faculdade (Estácio de Sá, no Rio) também não via com bons olhos aquela coisa da mãe de Jesus ter tido relação sexual.

Eu fui na exibição, um pouco por ideologia política, à época ainda incipiente, e muito mais pela bagunça.

Por isso achei o filme chato pra cacete, e dormi na sessão.

Embora já universitário, minha pobre cabecinha ‘tava ainda mais para Spielberg do que para Godard.

Mas essa lembrança que o Marino me trouxe, nessa tarde isolada de quarentena, é aquele conforto que a gente sente quando percebe que a vida passou, e que a gente viveu.

Tipo aquela bala que a gente tirou o papel todo, bem devagar, e chupou toda, até o fim.

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Página  Faxineira (FB)

Página Faxineira (FB)

Trancados em casa, percebemos que essa situação serve também para darmos valor a pessoas e coisas que ou nos passam despercebidas ou das quais reclamamos.

Falo das faxineiras/diaristas e das donas de casa.

Não há academia mais pesada do que banheiro e cozinha pra limpar, casa pra passar pano (e sem o glamour de uma academia, sem gente bonita e sarada passando de um lado pro outro).

E cozinhar?

Uma coisa é fazer num domingo ou noutro aquela receitinha descolada que zanza pelos sites bacaninhas.

Outra é conjugar criatividade com o que tem na geladeira e partir pra cima do fogão todo santo dia.

E no meio disso tudo, vamos nos lembrando e nos perguntando, com uma saudade até então impensável, quando voltaremos a, por exemplo, encarar aquele buzum cheio ou a fila da praça de alimentação do shopping em que já conhecemos todos os vendedores.

Ps: No 2o. turno, em 2018, alguém que pregava o voto nulo postava sempre “vocês escolheram o pior 2o. turno da história”. E ele e milhões escolheram o pior 2o. turno da história para pregar o voto nulo. Deu no que deu.

Ps2: Não aguento mais ver kkkkk nos grupos de zap.

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Muhammad Hak Kadour/AFP

Muhammad Hak Kadour/AFP

1.Agora dizem que o sujeito é despreparado para o cargo, instável emocionalmente e até mesmo que não é muito bom das faculdades mentais. O engraçado é que de uma hora para a outra os que passaram a dizer isso são os que dois anos atrás não levantavam esses problemas (imprensa, inclusive), problemas que eram nítidos, claros, explícitos. Um olhar apenas superficial sobre seu passado e seus 30 anos de vida parlamentar mostraria claramente tudo o que está sendo “descoberto” agora.

2.O fantástico e surreal mundo dos grupos de zap e suas fake news que elegeram um Presidente da República. Veja na foto abaixo.

Fake news descarada

Fake news descarada

3.Acho que tudo isso tá servindo para que repensemos como nosso olhar sobre o próximo pode ser de discriminação, mesmo que não notemos ou façamos por mal. O Governo da Bahia , acertadamente, quer proibir a entrada de quem vem de Rio e SP. Quanto carioca e paulista zoa nordestino, debocha, discrimina. Taí a oportunidade para parar e pensar.

4.Abasteci com R$ 50 de álcool há 9 dias e acho que não cheguei a gastar metade disso. É o lado menos ruim do isolamento, ao menos pro meu bolso, mas, certamente, nem um pouco pro dono do posto.

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O fantástico e surreal mundo dos grupos de zap que elegeram um Presidente da República.

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IStok

IStok

Contam os jornalistas mais velhos (bem mais velhos do que eu), que um dia o Figueiredo, último general da ditadura, tomou umas a mais em uma solenidade no Palácio do Planalto e disse em uma roda de amigos (puxa-sacos):

- As três coisas de que eu mais gosto começam com C: churrasco, cavalo e a 3ª vocês perguntam pra Dulce.

Dulce era a 1ª dama.

Mas nem ele foi tão deprimente ou constrangedor.

Nem ele fez o país passar tanta vergonha.

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Uruguai

No Uruguai, o presidente que sai aplaude com sinceridade o sucessor, que é da oposição, na hora da posse.

País pequeno?

Só no território.

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Na época das eleições de 2018, o primo de minha namorada morreu de depressão.

Era homossexual e não aceitava que quase toda sua família fosse votar no candidato que disse que preferia ter um filho morto do que um filho gay.

Léo – era esse seu nome – não conseguia mais olhar na cara de irmãs e da do próprio pai.

“Esse cara quer matar gente como eu e vocês vão votar nele?”, lembro-me de ter chegado a meus ouvidos essa frase dita por ele em um almoço de família, um dos últimos com sua presença.

Leo

Atualmente, eleito, o candidato em 2018 não passa um dia sem insultar a imprensa, sem ofender moralmente os jornalistas.

Eu sou jornalista e se tivesse que escolher, seria de novo, tal meu amor pela profissão.

E esse candidato hoje chegou aonde chegou com a ajuda dos parentes do Léo.

E de muitos de meus parentes. Parentes próximos, como os dele.

É claro, a dor do Léo era muito maior do que a minha revolta.

Ser agredido em sua opção sexual é bem pior do que na sua escolha profissional.

Mas, Léo, onde você estiver agora, saiba que eu sinto também um pouquinho da tua dor e da tua mágoa com pessoas que a gente deveria amar.

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Trip Advisor

Trip Advisor

Há cerca de um ano escrevi que nunca havia visto tantos moradores de rua em Brasília.

Repito a frase nesta 1a quinzena de 2020, com uma única diferença: me parece que o número aumentou.

Dias atrás estive em Tiradentes e três palavras me chamaram a atenção pela repetição contínua nas fachadas de bares e restaurantes: bistrô, gourmet e empório, onde o menu elenca molhos de frutas exóticas e ervas com nomes cada vez mais estranhos.

Neles, um prato individual não sai por menos de R$ 60, e a quantidade de comida já seria pouca se o preço fosse a metade.

Parece que começa a ficar difícil encontrar a comida básica, boa, simples, honesta, bem servida e de preço ao menos razoável.

O importante não é comer bem, mas comer com charme descolado e posar de adepto da inventividade culinária.

E toma-lhe de gente dormindo na rua, pedindo resto do bandejão ou do self service ralé

Estranho esse país que cada dia mais se gourmetiza e que ao mesmo tempo, miserável, morre ainda mais de fome.

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Se a entidade que representa a sua categoria profissional luta pela democracia, pelo estado de direito, pela legalidade e pela liberdade de expressão e pensamento, fortaleça-a em 2020.

O país precisa.

E é urgente.

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Poesia e Filosofia

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