André Giusti - foto: Luana Lleras
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Foto OAB - BA

Foto OAB – BA

Rodrigo Leitão me contou recentemente que quando entrevistou a ministra da Cultura da França, anos atrás, precisou subir quatro andares de escada. O prédio, onde ao menos à época ficava o ministério, era antigo, não possuía elevador, e a ministra cansava todos os dias as canelas e os joelhos nos degraus.

No mesmo papo, outro colega de profissão, Ivan Godoy, lembra-se da entrevista que fez com o ministro das Relações Exteriores de um país que não me lembro qual, mas era um desses em que há escola ótima e hospital perfeito para todo mundo e ninguém fica na rua pedindo esmola.

Assim que o Ivan aceitou o café que o ministro ofereceu, o próprio figurão levantou-se, foi no canto da sala e voltou com um copinho de café de garrafa térmica.

No Brasil, não apenas ministros, mas secretários de estado, que muitas vezes nem sabem direito o que estão fazendo no cargo, sobem e descem em elevador privativo, apartados de quem banca seus salários.

Qualquer chefete de repartição pública mequetrefe tem direito a garçom vestido de pinguim trazendo cafezinho e água gelada na bandeja.

Nem me estenderei aos carros oficiais e verbas de gabinete. Ficarei apenas nesses dois exemplos de mordomia rastaquera, a partir da qual vislumbramos um estado cimentado nos privilégios e nas distorções.

Revoltados e perplexos, assistimos todos os dias à consolidação do imenso descalabro que é a vida nacional.

O problema também é este: num país de grandes escândalos, acabamos por não nos dar conta das pequenas indecências diárias.

Mas nos insurgirmos também contra elas, seu costume e sua historicidade arraigada em nossa cultura, é um bom começo para combatermos as grandes patifarias nacionais.

E essa insurreição pode começar com cada um de nós que virar secretário, ministro ou um simples chefe de departamento.

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O Dia

O Dia

Veja

Veja

Tenho me abstido de escrever sobre o momento político.

Confesso que me abateu o ânimo o nítido conluio entre os três poderes a favor da manutenção do descalabro.

Mas é que também têm me causado enfado, como nas últimas horas, tentativas como as de provar que não existiram as agressões verbais dos chefetes do PT contra a Míriam Leitão, que, tendo a projeção que possui, deveria ser internada caso criasse uma história fantasiosa de desrespeito.

Esse esforço de desmerecer a afronta sofrida pela jornalista me arranca tantos bocejos quanto os comentários que ela própria faz na TV.

Da mesma forma me entendia (na verdade, me enoja) o procedimento igual quando o alvo é personalidade alinhada com o chamado “outro lado”. Tenhamos como exemplo os insultos que já foram dirigidos à atriz Letícia Sabatella.

O pior é a pobreza argumentativa de ambos os polos: “ah, mas quando xingaram fulano vocês não disseram nada!” ou ” Quero ver agora o que vai falar aquelazinha que defende os direitos desse, daquele e daquele outro”.

Esse embate raso, calcado no ódio e na ausência de diálogo, pode alimentar ainda mais a despolitização das pessoas, porque chega uma hora em que não há mais saco para Fla-Flu, para Piquet ou Senna, para Marlene ou Emilinha (atenção, mais novos, pesquisem este último).

Discussão política virou sinônimo de barraco nesse país, quando precisa ser cadeira gentilmente puxada para que o adversário sente e converse, pois do contrário haverá o império dos conluios prevalecendo sempre sobre nossas necessidades.

Que tal substituirmos o desmerecimento pela respeito à opinião contrária como primeiro passo para uma sociedade saudavelmente politizada?

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espingarda

Pai: …aí ela me apareceu com o namorado mês passado lá em casa…

Amigo do pai: e como é o rapaz?

Pai: educado, inteligente, simpático, gosta dela, trata com carinho e respeito, foi gentil e respeitoso com todos lá em casa também…

Amigo do pai: que bom!

Pai: bom porra nenhuma!!!!

Amigo do pai: ué, você não gostou dele?

Pai: nããããããão!!!! Claro que não!!!!

Amigo do pai: por quê, cara?

Pai: porque ele tá pegando a minha filha, ora! Por isso: ele tá pegando a minha filha! Eu odeio esse moleque!!!! O-dei-o!!!!

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Saudades do Rio - UOL Fotoblog

Saudades do Rio – UOL Fotoblog

Um dos tipos de pessoa que mais me dão enfado são aquelas que acham que o passado era melhor.

À beira dos 50 anos, muitos de meus pares em idade dão o mundo por acabado, por exemplo, a partir do término do Led Zeppelin.

Algumas coisas quem sabe realmente eram melhores 30, 40 anos atrás. O futebol brasileiro e a Fórmula 1 são o que me ocorrem após algum esforço. Ou seja, nada com importância capaz de eleger o passado melhor do que o presente. Portanto, muito pouco para haver razão em ser passadista.

Mas os piores da espécie são os passadistas que se arvoram de politizados, e que não passam de analfabetos políticos sem conhecimento histórico (invariavelmente o segundo é condição obrigatória para o primeiro).

É aquele que ganhou espaço nos últimos anos, por causa das redes sociais, dizendo que na época da ditadura militar não havia isso ou aquilo.

Outro dia descobri um sujeito cuja referência do passadismo é mais recente. Encheu a boca para dizer: “Nem na época do Collor havia tanta bandalheira! ”.

Os dois casos confirmam o mal que faz a ausência do supracitado conhecimento histórico.

Na ditadura e no governo Collor ninguém gravava a conversa com ninguém.

E muito menos havia delação premiada.

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Temer

Pode até não haver prova cabal de que Temer mandou comprar o silêncio do Eduardo Cunha, mas não há como deduzir outra coisa quando o dono do grande matadouro diz “O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: eu tô de bem com o Eduardo” e o Presidente da República de ocasião diz que “Tem que manter isso, viu?”.

Falta muito pouco mesmo para ser batom na cueca.

Essa é a parte da gravação que está, digamos oficialmente, ainda no terreno da forte suspeita.

Mas há outra que já galgou o patamar da imoralidade.

É quando o Presidente da República – o Presidente da República!!!!!! – ouve o dono do matadouro dizer que está manejando juízes e procurador de acordo com seus interesses.

Ouve e não fala nada. Exatamente. O Presidente da República, autoridade mór do país, ouve alguém dizer – com a maior naturalidade – que está interferindo na Justiça e fica calado.

É mais do que incompatível com o cargo.

É crime.

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20170509_080310 (1)

Alguns dias atrás soube que fui preterido em duas oportunidades de emprego. O motivo não foi técnico. “Sabe como é, né? É aquele jeito explosivo dele…”, as pessoas confessaram a quem me trouxe a informação.

Profissionalmente, fui criado em ambiente de gritos, esporros e telefone na cara, o que atualmente – fácil, fácil – se chamaria de assédio moral.

Tive como chefes excelentes jornalistas, mas que não possuíam qualquer condição emocional de comandar uma equipe.

Tornei-me chefe de redação bem novo, aos trinta anos. Fui uma solução barata para a empresa para a qual eu trabalhava na época, Rádio CBN – Sistema Globo de Rádio. Fui pego pela gola, tirado em uma semana da minha cidade, trazido para uma outra em que eu jamais havia pisado. Quando cheguei, foi dito a mim após ser apresentado à equipe: toma, agora é com você, se vira!

Não tive qualquer capacitação para ser chefe, ou líder, na linguagem polida e moderninha dos manuais de administração. Enfrentei a coisa a partir do modo como eu via ser feito, e como disse acima, não tive sempre os melhores exemplos. E no meio da guerrilha que é uma redação, é claro que o emocional me venceu em vários momentos.

As pessoas que se referiram ao meu jeito em momento algum se preocuparam em perguntar se eu havia mudado. Não me veem há anos, não convivem comigo há outros tantos.

Quem trabalhou comigo de uma década pra cá sabe que não sou exatamente o Buda redivivo, mas passo longe de um modelo dinamite de O Diabo Veste Prada. Aprendi, de diversas formas, entre elas a dor, que precisava mudar.

Só que mais importante do que isso é dizer que jamais me vali de minha profissão para proveito próprio, pessoal. Nunca entrevistei ninguém para obter benefício posterior, nem que fosse um mero ingresso para teatro. Se me davam, era porque queriam, eu não pedia. Assisti a ótimos shows e peças de teatro, mas com a consciência tranquila de quem serviu à sociedade com o jornalismo.

Por que informação para mim é somente o que pode interessar à sociedade. Se é permuta de interesses pessoais entre o jornalista e o outro lado, virou corrupção.

Acho dispensável dizer que nunca pus a mão em mesada de político ou governos.

Como chefe, lancei muita gente no mercado. Quando a pessoa não correspondia ao que a empresa precisava dela, eu dava uma, duas, às vezes três chances. E se tivesse que dispensá-la, o fazia sem a fritura pelos corredores ou junto aos meus superiores.

Sofro de uma total falta de talento para fazer média com a cara dos outros. Sou amigo de quem gosto, e não de quem preciso. Se você que está lendo esse texto já foi a minha casa algum dia, saiba que esteve lá porque ao menos na época eu gostava de você, independentemente de você ser gerente geral ou operador de xerox.

E essas pessoas lá do começo do texto conhecem esse meu modus operandis tão bem quanto conheceram o meu outrora ‘jeito explosivo´. Mas a gente sabe que a balança humana sempre pende para o lado dos defeitos.

Hoje amargo um certo ostracismo na imprensa, sentindo e sabendo o quanto tenho a dar ainda ao país e à sociedade fazendo jornalismo com a energia física e mental aliada à experiência de homem e profissional.

Ao mesmo tempo, sei de pessoas que nem sempre prezaram pela conduta moral na hora de fechar uma matéria, entrevistar uma autoridade ou mesmo decidir quem empregar ou demitir de uma equipe e que estão muito bem, obrigado, no topo da cadeia alimentar.

É que falavam baixo, com aquela polidez de manual e sorriso inabalável.

Há poucos metros de fazer 49 anos de idade e com três décadas de jornalismo, paro para pensar se o mundo não é, então, dos sonsos e dos dissimulados.

Se for, que façam bom proveito dele.

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Julio Machado é Joaquim José da Silva Xavier na telona Foto: Imovision / Divulgação

Julio Machado é Joaquim José da Silva Xavier na telona
Foto: Imovision / Divulgação

O diretor Marcelo Gomes explica que para compor o Tiradentes de seu filme Joaquim, utilizou a ficção aliada à pesquisa de registros históricos.

Pois o resultado que conseguiu parece bem próximo ao que realmente deve ter sido o principal nome do mais famoso movimento que tentou separar o Brasil de Portugal.

Joaquim mostra Tiradentes como homem do povo, que em determinado momento dá um basta à usurpação do estado.

Nesse instante, nasce o idealista, que bem intencionado sai pelas Minas Gerais pregando a libertação do país das garras da coroa portuguesa, pensando não apenas em si, mas na melhoria da condição de nossa miséria histórica.

Ficção ou não, o Tiradentes de Marcelo Gomes me pareceu bater com o que historiadores de várias correntes nos apresentam, inclusive quanto às contradições do mártir da independência.

Mas o que me pareceu ainda mais de acordo com a real história do país foi o caráter cínico da Inconfidência Mineira mostrado no filme.

Sem qualquer conexão com o romantismo que os livros de escola impingem à Inconfidência, Marcelo Gomes deixa clara a instrumentalização da ingenuidade de um homem do povo para mobilizar a massa, dobrar o maldito domínio luso e conquistar apenas para uma camada privilegiada seus interesses imediatos e a longo prazo, sem dar a essa massa – não a título de recompensa, mas de justiça – a dignidade com que ela, massa, nunca foi tratada.

Qualquer semelhança com o que aconteceu no Brasil nesses mais de duzentos anos que separam a execução do Alferes dos dias atuais não é mera coincidência.

É só a história do Brasil, crua e real, se repetindo.

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https://aguabravarock.wordpress.com/

https://aguabravarock.wordpress.com/

Muitas bandas de Rock’n Roll no Brasil tiveram vida curta, muitas sequer chegaram a gravar um disco inteiro.

Em alguns casos, foi um favor que fizeram ao público.

Em outros, foi de se lamentar a breve existência.

Em minha opinião, é o caso do Água Brava, banda carioca que, pela minha recordação, surgiu ali na mesma época do Barão e do Paralamas.

Nem chegaram, na época, a gravar um LP completo.

Tinha e tenho até hoje um compacto com o principal sucesso do grupo: Pressão, meu hino quando eu tinha 17 anos e era revoltado com diversos aspectos da humanidade, entre eles ser obrigado a estudar química, física e biologia.

A música do Água Brava tinha um acentuado quê setentista, mas já anunciava de alguma forma o que seria feito naqueles decantados anos 80.

Pra mim, trazia influências de O Terço, mas também antecipou um pouco o som que o Barão fez depois que o Cazuza saiu. Não sou crítico musical, escrevo de orelhada, de metido que sou a falar sobre uma das coisas que mais amo: Rock’n Roll.

As letras traziam mensagens contra a repressão e alusivas à guerra fria, bomba atômica, e lendo o noticiário dos últimos dias, bate um medo de que de repente elas estejam voltando a ser atuais.

Cinco anos atrás, a banda, sem o baterista original, já falecido, se reuniu e gravou um CD.
Há muito tempo não comprava CD, e embora o disco esteja no spotify, resolvi comprar, direto com o próprio guitarrista, Daniel Cheese.

É sempre legal comprovar depois de tanto tempo que as coisas que você achava boas aos 15 anos eram realmente boas, a ponto de você ouvir com satisfação às portas dos 50.

Valeu, Água Brava! Vida breve, marcas longas.

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Arte: Gurulino 115 norte Brasília - Df

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Giustipress

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