André Giusti - foto: Luana Lleras
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Estive recentemente em um evento literário em Pirenópolis, cidade histórica de Goiás, a cerca de duas horas de Brasília.

Nesses eventos, tão bom quanto vender livros e mostrar nosso trabalho é descobrir, como leitor, outros autores.

E por isso também valeu muito a pena participar quase um mês atrás da e-cêntrica, que deve se repetir em agosto em Cidade de Goiás (sim, a terra de Cora Coralina).

Divido, então, esses livros com vocês – todos são de poemas.
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Pedro Tostes eu já conhecia, mas nos tornamos camaradas em Piri, onde me aproximei de sua poesia, que é um necessário tapa, cusparada, escarrada, golfada de vômito em um blend (não é assim o modo chique de dizer?) de país/sociedade/ser humano atuais.

Depois, para respirar, leia Keyane Dias.

A poesia dessa brasiliense é como abrir janela em quarto fechado, fazendo nos sentir integrados às árvores, flores e pássaros lá fora, no quintal.

Cássia Fernandes e Dairan Lima explicam com extrema beleza, capacidade e precisão poéticas as dores de amor e solidão das mulheres, o que serve também para os homens, porque dor e solidão têm o costume de serem assexuadas.

Por fim, Carlos Edu Bernardes, que não estava no evento, mas cujo livro me chamou a atenção pela capa e pelo título.

Me ganhou com uma poesia lírica sem pieguismos e uma linguagem que me pareceu próxima à Música Pop, ao Blues e ao Rock, o que sempre me agrada, pois me vejo como pessoa e autor nesses espelhos.

Enquanto volte e meia pula aqui ou acolá uma lista dos “dez-poetas-da-atualidade-imprescindíveis-e-necessários-que-você-não-pode-deixar-de-ler”, sabe-se lá com que critérios elaborada, ficam aqui minha humilde listinha de poetas (de Goiânia, Brasília e São Paulo) que descobri no interior do Brasil e meus votos de boa leitura.

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A seca em Brasília é bela, tão bela quanto cruel para com os sistemas respiratórios mais sensíveis.

O estio na capital do país é paleta de cores a ser descoberta pelos olhos mais atentos e menos apressados, aqueles que se ocupam com a vida que de fato existe, aquela que corre do lado de fora das alienantes (e imbecilizantes) telas de smartphones.

Raquel Madeira - Asa Norte - Brasília, DF

Raquel Madeira – Asa Norte – Brasília, DF

Nos últimos dias, Brasília está lilás.

É a primeira leva de ipês que se derrama pelos eixos e quadras, anunciando, justamente, a abertura oficial da estiagem.

Lá pela metade de agosto, será a vez dos ipês amarelos.

Eles são o 2º aviso da criação, a de que a seca está no auge e que você não deve se aventurar a pé por aí, debaixo do sol das 2 da tarde, pois há o risco de se tornar um graveto estorricado antes de chegar a seu destino.

Os ipês amarelos são uma forma deslumbrante de bela de te preparar para a crueldade desses dias em que se você passar com mais força a sola do sapato na grama, periga provocar uma queimada.

A 3ª e última leva de ipês, a dos brancos, aflora lá pela virada de setembro para outubro, e além de beleza ela traz o aviso mais esperado do ano por quem mora em Brasília: a de que a chuva está próxima.

Dito e feito: entre 10 e 15 dias a água desce, ressuscita a grama e a nossa esperança de que a vida vale mesmo muito a pena, embora com um ou outro desgosto aqui e ali.

Raquel Madeira - Asa Norte - Brasília, DF

Raquel Madeira – Asa Norte – Brasília, DF

Portanto, decore: lilás, amarelo e branco – começo, meio e fim – ascensão, apogeu e declínio da seca.

É a tecnologia da mãe natureza, muito mais bela e perfeita do que qualquer Apple ou Samsumg.

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meninão (2)

O Brasil é feito um grande meninão de 50 anos com cabeça de 15.

Que faz besteira desde os 15 e não se toca que já está com 50.

Coleciona burradas e delas não armazena qualquer aprendizado.

Recebeu uma Copa do Mundo, sediou uma Olimpíada.

Dez anos atrás (exatamente) alardeava-se os benefícios que os dois eventos trariam ao país.

Era o tal legado, palavra grandiosa, dona de certa aura de mitologia grega (a depender da imaginação) que, embora não tenha esse significado, na 1ª vez que a escutamos chega a sugerir riqueza.

É só olhar para a nojeira que continua a Baía de Guanabara, para a sucata das instalações olímpicas e para os elefantes brancos que são a maioria dos estádios da Copa e a gente entende o meninão de 50 com miolo de 15.

Agora a história se repete (como farsa) nessa ideia de se construir um autódromo no Rio, que, diga-se de passagem, perdeu o seu antigo justamente por causa da Olimpíada.

Dessa vez, o legado terá entrega imediata, não será preciso esperar: 180 mil árvores serão derrubadas em uma área remanescente de mata atlântica, a última em zona plana, 2º especialistas.

Um autódromo para ficar abandonado como estava o de Jacarepaguá? Como está há sei lá quantos anos o de Brasília?

Meninão Brasil, se liga!

Pare de ficar sem pagar a escola dos filhos só para ir a restaurante de luxo e ter carrão importado.

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Não tenho certeza, mas me parece que há uma brisa na literatura nacional soprando na direção de se inovar a forma de escrever um romance.

Há autores tentando, e alguns conseguindo manter o interesse do leitor.

Caso de José Rezende Jr. em seu recém-lançado A Cidade Inexistente (7Letras).

A história aborda um drama silencioso e desconhecido do Brasil que vive nas grandes cidades: as pessoas atingidas por barragens, que tiveram que sair, muitas vezes às pressas, do lugar onde viveram durante anos, porque sua história e a de sua família despareceu debaixo das águas de alguma hidrelétrica.

Como inovação, no livro não há, declaradamente, um personagem principal, papel que parece caber à própria cidade afogada.

Personagens se revezam recebendo as luzes principais da narrativa.

Ora um aparece mais do que outro, e logo em seguida se recolhe por algumas páginas, para dar espaço a quem aguardava a vez.

Uma aposta feliz de Rezende, capaz, com essa ousadia, de inclusive abiscoitar outro Jabuti, o que já fez alguns anos atrás.

E o que embala o leitor no vai e vem de cada personagem é a narrativa dotada de extrema sensibilidade humana, com invólucro da mais fina poesia.

Não me consta que Rezende seja poeta, e se de fato não é, conseguiu ser, inovando na forma de escrever um romance.

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Moro

Nesta 4ª feira, no Senado, certamente o ex-juiz vai dizer que é normal magistrado conversar com promotores.

Suponho que realmente seja.

Minha dúvida é se é normal um magistrado estar em grupos de zap conversando com os promotores.

Por mais formal que seja, um grupo dessa espécie sugere proximidade, objetivos em comum.

Será que ele também fazia o mesmo com os advogados de defesa?

Se é normal para um lado, deveria ser também para o outro, eis minha outra dúvida.

Enquanto isso, aguardo mais celeridade do Intercept nas revelações sobre esses diálogos.

Greenwald voltou a repetir que o material está sendo analisado, checado, em nome do bom e responsável jornalismo.

Muito bom que seja.

Mas pela minha experiência na profissão, séries de reportagens chegam ao público apenas depois de superada essa fase de checagem e comprovação.

O diálogo envolvendo FHC é pesado, incômodo (que uso aqui como eufemismo de comprometedor), mas acho que está havendo mais propaganda do que entrega por parte do site.

Ou de uma entrega mais rápida.

Paciência não é um recurso renovável.

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O Sérgio Augusto Novaes Cabral postou o link da gravação ao vivo dessa música aí debaixo.

O meu link é a versão de estúdio.

Certamente é o maior hit do Foreigner, uma banda meio farofa meio sessão da tarde (é só reparar no vídeo, que está a uma passo da cafonice).

E eu não tô nem aí, porque me amarro no Foreigner e essa é, em minha opinião, uma das canções mais lindas de minha geração e de toda a história da música pop.

E torna-se mais bela pela lembrança que me traz.

É que a 1ª vez que a ouvi foi em uma baita festa pra lá da Curicica, um lugar no Rio que à época era provável que fosse demarcado pela Funai, mas que hoje deve estar coalhado de condomínios e shoppings com estátua da liberdade na entrada.

Não conhecia a dona da festa, fui arrastado por um camarada da escola, que tinha um fusca azul com um siri enfeitando a alavanca de câmbio.

Eu ainda não tinha idade para dirigir.

Mas como o fuscão azul vivia sem gasolina e a gente sem dinheiro, fomos de ônibus.

Na volta, perdemos o busum / baú e tivemos que andar durante duas horas – mato de um lado e de outro – no meio da madrugada.

Tudo isso para pegar um 2º ônibus que nos levaria até um ponto onde, então, pegaríamos um último até em casa.

Passamos mais tempo indo e voltando do que na festa.

E rimos de tudo, e nos divertimos com tudo.

E a música se tornou inesquecível, e todo aquele tempo também.

Por que a gente desaprende a relaxar quando cresce, quando vira adulto?

Não deveríamos, porque quando começamos a envelhecer, percebemos que precisamos urgentemente reaprender.

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Verão de 1984.

Mais de uma hora de ônibus até a praia, em Ipanema, posto 9, em frente à rua Joana Angélica.

Me achava o Menino do Rio, o André de Biase do subúrbio.

Amarrada no cadarço do calção a grana certa prum guaraná (Guaraná Taí, gostoso como um beijo!) e um pão de mel na padaria da esquina com a Visconde de Pirajá.

Na cabeça era tanto sonho que um verão só não bastaria para viver tudo.

No coração, a alegria de encontrar meus amigos e saber que iríamos rir muito, muito mesmo.

Nos ouvidos, essa canção do Slade, que tocava de 5 em 5 minutos na Rádio Cidade.

Nada de viver no passado, mas às vezes dá vontade de voltar lá rapidinho, dar uma choradinha de alegria e, pronto, encarar de novo o presente, que é o que existe de verdade.

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1 – Tanta escola pra fazer ou melhorar, tanto hospital pra fazer funcionar bem, tanto esgoto pra colocar e a discussão é sobre quem pode ou não usar fuzil.

(Parabéns aos envolvidos).

Bolso

2 – “Eu tenho arma há anos e nunca matei ninguém”. O sujeito fala como se ele, armamentista, fosse ser a regra em um país onde vai ficar 10 vezes mais fácil ter uma arma. E fala com um tom de quem está fazendo um grande favor a todos nós sendo civilizado e não fazer nenhuma cagada com o trabuco na mão.

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canstockphoto.com.br

canstockphoto.com.br

Teria sido suficiente e acima de tudo republicano dizer que “todos têm o direito de se manifestar, mas peço que entendam que o Brasil passa por um momento orçamentário difícil e os cortes são necessários, inclusive na educação”.

Mas ao chamar manifestantes de “massa de manobra” e “idiotas úteis”, o governante só reafirma seu (único) talento, conhecido há mais de 20 anos, de jogar gasolina na fogueira, além da sua não menos conhecida total falta de preparo para o cargo que exerce.

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André Dahmer

André Dahmer

O cartum de André Dahmer me remeteu a uma impressão / sensação que sempre tive em relação à literatura, e mais especificamente à crítica literária e ao gosto das editoras.

É só uma impressão, repito, mas me parece que livros cujos personagens são doentios, infelizes, psicopatas, violentos – por aí vai – são mais bem aceitos e ovacionados pela crítica literária.

Não tenho qualquer levantamento estatístico; apenas meu exemplo pessoal.

Em meu 1º livro, Voando Pela Noite (Até de Manhã), lançado em 1996 pela 7Letras, há um conto em que o personagem principal cheira cocaína o tempo inteiro, estupra uma colega de faculdade e se mata (e mata a garota) em um acidente de carro.

Sempre foi o conto preferido da editora, a ponto de, na 2ª edição, em 2013, ter passado a ser o último do livro, para “fechar com chave de ouro”.

Relembrando de alguns (bons) títulos que li nos últimos anos e que foram premiados, verifico que todos eles têm personagens principais doentios, tristes, assassinos ou que acham a vida uma bosta e o ser humano sem salvação.

Personagens ricos, sim, com muito conteúdo, mas nenhum feliz, nenhum “de boa” como se diz hoje, construindo no leitor uma perspectiva melhor do mundo e da humanidade.

Até me pergunto se não é uma derivação intelectual-literária do sensacionalismo dos programas popularescos de TV.

É normal que a literatura aborde a tristeza e suas primas, os desvios de comportamento e seus derivados, pois todos fazem parte da vida.

Mas alegria e a bondade também fazem.

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