
Um sujeito desce uma alameda rumo à avenida principal, onde está o ponto de ônibus.
Dois anjos o observam; são eles que tomam, ou tentam tomar, conta do sujeito.
Ele, então, vê encostar o ônibus que o deixa direto no trabalho, sem que precise pegar um para descer um tempo depois e embarcar em outro, na famosa baldeação.
Mas ele ainda está a uns 50 metros do ponto; começa a correr desabaladamente.
“Será que hoje ele consegue?”, um anjo pergunta ao outro, que responde “Ele tá bem treinado”.
“Alô, piloto! Espera!”, o sujeito berra para o motorista, que já engatou a primeira marcha.
Por sorte, o motorista é daqueles que gostam de passageiro de ônibus, e espera para que o sujeito suba pela porta da frente esbaforido, mas com o ar triunfante de quem venceu o desafio de algum programa de televisão imbecil.
Para ele, pegar essa linha sempre tem gosto de final de campeonato; os ônibus demoram demais.
Chegar no ponto e conseguir pegar um é sempre um sorteio das bolinhas.

Ele acha que tem contra si uma conspiração da natureza, pois perdeu a conta das vezes em que faltando vinte metros para o ponto, o maldito arrancou, deixando-o no vácuo, fora as outras em que, cansado de esperar, resolveu entrar no primeiro ônibus da baldeação e, quando olhou pela janela, o que ele vê ultrapassando? O maldito que facilitaria sua vida com uma única viagem.
“Conspiração da natureza é um pouco demais, não acha?”, um anjo quer saber do outro.
“Claro. Veja lá se com tanto recurso, a natureza vai se dar ao trabalho de conspirar contra um único mortal usando um ônibus…é coisa de ser humano mesmo”.
O primeiro anjo muda de assunto.
“Ele me parece mais de boa ultimamente. É impressão minha?”
“Não é não. Tá mais contentinho mesmo. Hoje saiu de casa cantando Beto Guedes – ‘Canta! Leva a tua vida em harmonia'”
“Alguém ainda canta Beto Guedes?”
“Tem um outro coroa de quem eu tomo conta que também canta”.
“Acho que aquele dia em que ele chutou a porta do banheiro foi o limite”
“Ele chutou a porta do banheiro? Por quê?”
“E eu sei ? Me distraí olhando pro lado e tomei um baita susto com a porta quase se arrebentando na parede. Anjo não pode nem olhar pro lado”.
“Ele parou de reclamar do self-service onde almoça. Todo dia, ao meio-dia, eu ficava estressado porque sabia que ele ia alugar meus ouvidos dizendo que o rango era muito ruim”
“E é muito ruim?”
“Não. Exagero dele. É só ruim. Muito não”.
“Como é que você sabe? A gente é anjo, anjo não come”
“Se eu precisasse comer para saber, eu seria humano, né? E não anjo…”
“Mas ele parou de reclamar da boia?”
“Parou. Uma noite esperei ele pegar no sono e cheguei no ouvido dele: Camarada, é o seguinte: eu tô se saco cheio de te ouvir reclamar sem razão da comida lá da espelunca. Te liga: tomo conta de gente que não tem uma colher de arroz para comer e que ia achar aquilo ali um cardápio cinco estrelas. No dia seguinte ele foi lá e mandou ver, fez um pratão de peão de obra que eu me assustei: vai ter uma congestão e vai me dar trabalho”.

“Eu também paguei um sapo pra ele outro dia. Ele tava no banho, de olho fechado, e eu disse ‘olha aqui, bróder, tu é um cara legal, mas vacila. Então vou te mandar a real. Se chutar de novo porta do banheiro, da cozinha ou seja lá de onde, eu vou deixar você quebrar os dedos do pé, e nem vou pra emergência do hospital contigo, tá ligado?”
“É por isso que ele tá amaciando, pegando leve. Tem uns quinze dias que acorda todo alegrinho, né? Você tá acompanhando…”
“Pois é, acorda sem ranhetar, dá uma mijada, vai abrir a janela e fica um tempo olhando o céu. Depois cuida da gatinha e vai fazer café. No fim, faz uma oração pedido lá um monte de coisa…”
“E a gente que se vire pra anotar”.
“Eu nem anoto mais. Já decorei…”
“Mas a vibe dele tá melhor, tá mais leve, dá bom dia sorrindo”
“É, tá mais fácil pra trabalhar”
“Por isso que conseguiu pegar o ônibus hoje”
“Precisa aprender que quando se vibra no bem, a natureza ajuda, o bem volta”
“Ele sabe disso, não precisa aprender”
“Sabe, mas nem sempre aplica, né?”
“É ser humano, né? Você quer o quê?”