André Giusti - foto: Luana Lleras
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Uruguai

No Uruguai, o presidente que sai aplaude com sinceridade o sucessor, que é da oposição, na hora da posse.

País pequeno?

Só no território.

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Na época das eleições de 2018, o primo de minha namorada morreu de depressão.

Era homossexual e não aceitava que quase toda sua família fosse votar no candidato que disse que preferia ter um filho morto do que um filho gay.

Léo – era esse seu nome – não conseguia mais olhar na cara de irmãs e da do próprio pai.

“Esse cara quer matar gente como eu e vocês vão votar nele?”, lembro-me de ter chegado a meus ouvidos essa frase dita por ele em um almoço de família, um dos últimos com sua presença.

Leo

Atualmente, eleito, o candidato em 2018 não passa um dia sem insultar a imprensa, sem ofender moralmente os jornalistas.

Eu sou jornalista e se tivesse que escolher, seria de novo, tal meu amor pela profissão.

E esse candidato hoje chegou aonde chegou com a ajuda dos parentes do Léo.

E de muitos de meus parentes. Parentes próximos, como os dele.

É claro, a dor do Léo era muito maior do que a minha revolta.

Ser agredido em sua opção sexual é bem pior do que na sua escolha profissional.

Mas, Léo, onde você estiver agora, saiba que eu sinto também um pouquinho da tua dor e da tua mágoa com pessoas que a gente deveria amar.

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Trip Advisor

Trip Advisor

Há cerca de um ano escrevi que nunca havia visto tantos moradores de rua em Brasília.

Repito a frase nesta 1a quinzena de 2020, com uma única diferença: me parece que o número aumentou.

Dias atrás estive em Tiradentes e três palavras me chamaram a atenção pela repetição contínua nas fachadas de bares e restaurantes: bistrô, gourmet e empório, onde o menu elenca molhos de frutas exóticas e ervas com nomes cada vez mais estranhos.

Neles, um prato individual não sai por menos de R$ 60, e a quantidade de comida já seria pouca se o preço fosse a metade.

Parece que começa a ficar difícil encontrar a comida básica, boa, simples, honesta, bem servida e de preço ao menos razoável.

O importante não é comer bem, mas comer com charme descolado e posar de adepto da inventividade culinária.

E toma-lhe de gente dormindo na rua, pedindo resto do bandejão ou do self service ralé

Estranho esse país que cada dia mais se gourmetiza e que ao mesmo tempo, miserável, morre ainda mais de fome.

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Se a entidade que representa a sua categoria profissional luta pela democracia, pelo estado de direito, pela legalidade e pela liberdade de expressão e pensamento, fortaleça-a em 2020.

O país precisa.

E é urgente.

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Poesia e Filosofia

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Alunas pobres da rede pública perdem mais de 40 dias de aula em períodos de menstruação por que não têm dinheiro para comprar absorvente.

É um Brasil que a classe média nem imagina que exista.

https://oglobo.globo.com/sociedade/celina/camara-do-rio-aprova-distribuicao-de-absorventes-em-escolas-municipais-23734839

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Rolling Stone - UOL

Rolling Stone – UOL

Perguntaram a Mahatma Gandhi se ele perdoava certo ofensor seu.

Ele respondeu que não.

Diante do espanto – como podia Gandhi, aquele santo, não perdoar? -, ele explicou: não há o que perdoar, não me senti ofendido.

Estou milhões de anos luz atrás da elevação moral de Gandhi, mas como cristão não me sinto nem um pouco ofendido em minha fé e crença com o episódio de fim de ano do programa Porta dos Fundos.

Não me importa se no episódio Jesus é gay e Maria é prostituta.

Fosse passível de comprovação histórica, não reduziria o quilate de seu comprometimento com a melhoria do ser humano.

É bem mais importante para um cristão lembrar-se de que Jesus não estava preocupado com a orientação sexual de ninguém (nem com a cor da pele, nem com a própria crença).

Mais do que ofender a crença de outrem, nós, cristãos, passamos séculos matando em nome de Deus e do próprio Cristo; dizimamos povos para impor a fé que acreditávamos correta, e até hoje muitos de nós olham com preconceito, agridem ou, no mínimo, tratam debochadamente irmãos adeptos da umbanda e do candomblé.

Toda grita e celeuma em torno de A Porta dos Fundos vão bem além da questão religiosa.

É muito mais a treva que se abateu sobre esse país novamente querendo algemar e amordaçar quem não reza por sua cartilha falso-moralista.

Deixemos que cada um tenha a visão que queira ter sobre Jesus, sobre o cristianismo, sobre batata doce com ovo cozido ou sobre a zaga do Madureira.

Vamos, em vez de nos preocuparmos com o alheio, aproveitar que é natal e tentarmos pôr em prática o que ele nos ensinou.

Se por acaso seus ensinamentos estiverem mesmo ainda muito acima da nossa capacidade moral, Gandhi já é bom começo.

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Desculpem-me falar novamente do Flamengo, mas se o seu time algum dia foi campeão da Libertadores (nos últimos minutos) no sábado e brasileiro no domingo, você sabe que é difícil deixar o assunto de lado.

Então, com licença.

1 – Essa Libertadores poderia ter sido a 3a., talvez a 4a. da história do clube.

O Brasileirão poderia ser o 9o., o 10o. quem sabe.

E poderíamos ter ainda mais duas Copas do Brasil.

Mas o Flamengo jogou no esgoto do interesse escuso dos cartolas e das péssimas administrações umas duas gerações de craques feitos em casa, como (ainda) reza o antigo lema.

Leonardo, Zinho, Djalminha, Marcelinho, Paulo Nunes e Sávio são apenas alguns exemplos que poderiam estar no patamar da era Zico e da recém-consagrada geração, que se em seus astros principais não é prata da casa, é ao menos conquista de uma administração eficiente.

E que devolveu o Flamengo à altura da sua própria história.

Correio 24 horas

Correio 24 horas

2 – Entre uma Copa do Brasil aqui, outra ali, um brasileiro ganho na marra (2009) e uns dez quilos de campeonato carioca, vivemos duas décadas de chacota, com ameaças constantes de rebaixamento e eliminações vexatórias em pleno Maracanã, nosso habitat natural.

Agora que voltamos ao nosso devido lugar, o colunista consagrado da Folha de São Paulo (jornal paulista) vem falar que a TV Globo investe no Flamengo para espanholizar o futebol brasileiro.

Quando “us curíntia”e “us parmeira” estavam mandando no futebol tupi com seus Tites, Felipões, dez cabeças de área (bagre), toque de bola pro lado e 1X0 amarrado, não tinha espanholização.

Era a decantada supremacia do futebol de “zan baulo”.

O colunista (de quem gosto, diga-se de passagem), torce pelo Fluminense e o link de sua coluna foi ovacionado por colegas meus jornalistas que respeito à bessa.

Torcedores do Vasco, do Botafogo…

Claro, claro, isenção do colunista, isenção dos leitores. Jamais pensei em dor de cotovelo.

3 – Outro colunista que admiro, até porque foi um dos maiores jogadores de todos os tempos, garante que o River tem mais time que o Flamengo, e sua coluna se preocupou com esse fato, colocando na sombra a superação rubro-negra.

O colunista, quando desfilava nos gramados, vestiu a camisa dos quatro grandes do Rio, mas é confessadamente botafoguense.

Craque que foi, deveria saber (e sabe) que no futebol nem sempre vence o melhor, ainda mais quando não é tão melhor assim.

4 – Pra encerrar, já tem gente dizendo que o Mundial Interclubes não é importante para os clubes europeus.

E realmente não é tanto quanto é para os sulamericanos.

Mas vi por aí alardearem que o Liverpool deve jogar o torneio com time reserva.

Ou seja, jornalisticamente já estão salivando (se o Flamengo chegar à final) para cuspir o escárnio – “Pô, perderam pros reservas!” – ou a inveja – “Ah, qual é! Ganharam de time reserva…”.

Ser grande (ou melhor, gigante) incomoda.

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Livro Bertran

Paulo Bertran foi talvez o historiador mais importante do centro oeste das últimas décadas.

Devorei o seu A História da Vida e do Homem no Planalto Central, difícil de encontrar até na Estante Virtual.

Há cerca de dois anos, descobri o poeta maravilhoso que ele foi, que nada ficou devendo ao historiador.

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Ao longo de três dias comecei e parei três livros (três romances).

Cheguei, no máximo, à página 50. E desisti.

Como para mim ler é quem nem remédio de pressão para hipertenso – não passo um dia sem -, deixei um pouco de lado a dedicação dos últimos tempos aos autores contemporâneos e me socorri dos consagrados.

Deu certo mais uma vez, agora com Bukowsky (Veríssimo, Rosa, Machado, Fernando Sabino, John Fante já me prestaram socorro em outras ocasiões).

Pulp

Pulp, o último livro do autor, que morreu em 1994, estava na fila da minha estante há quase dois anos, intocado.

Comecei a menos de 24 horas, não cheguei à página 50 e já asseguro que é uma das melhores e mais divertidas obras desse alemão criado nos Estados Unidos e um dos maiores críticos do american way of life, mesmo que pareça não ter tido em momento algum a real intenção de sê-lo.

Os personagens de Bukowsky acentuam o lado escatológico das pessoas, o que no lugar de causar repulsa, os aproxima do leitor (ao menos os que não se acham acima das necessidades humanas); tomam porres homéricos e vivem se envolvendo em encrencas por causa da dívidas de jogo.

Mas o que me ganha é que contam tudo isso – e outro tanto mais – de maneira extramente divertida, engraçada (Pulp já me arrancou três ou quatro risadas maravilhosas), algo do que tenho sentido falta em autores contemporâneos, a maioria nacionais.

Não obstante a qualidade (muitos do que li são muito bons, até já citei por aqui), me parece que falta a capacidade de fazer o leitor rir, rir de chamar a atenção de quem está do lado, seja pela escatologia e pelo sarcasmo (caso de Bukowsky, por exemplo), seja pelo inusitado das situações (como Fernando Sabino em O Grande Mentecapto, para citar um clássico).

Tenho lido muita coisa boa que bate forte no racismo, no machismo, na desigualdade social, por exemplo, que fala de relações familiares difíceis, quando não doentias.

Tudo fundamental nos dias de hoje.

Mas é também fundamental uma boa risada, até por causa de todas essas mazelas e misérias sobre as quais precisamos escrever e ler, para que sejam combatidas.

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