André Giusti - foto: Luana Lleras
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espertinho

1. Em reunião com secretários de estado, empresário do setor da construção civil de Brasília reclama do hospital paulista que para ampliar as instalações na capital do país contratou empresa de engenharia de São Paulo.

Sugere ao secretário responsável pelo conselho de governo que autorizou a liberação do empréstimo de mais de R$ 200 milhões que em casos assim deveria haver uma cláusula para o empréstimo obrigando a quem recebe o dinheiro contratar uma empresa de Brasília. E reclama que assim o dinheiro vai circular lá em São Paulo.

Quando o assunto é política de preços ou relação com o empregado, o empresário brasileiro prega o estado mínimo, enche a boca com o discurso “moderno” de que o mercado é que deve tocar o barco e que o governo deve ficar quietinho e não meter o dedo nessa cumbuca.

Mas, dependendo de onde está seu interesse, aí o estado não deve ser tão mínimo assim, e uma pitadinha generosa de protecionismo estatal lhe cai muito bem sim senhor.

Ronaldinho

2. Não é nem o caso de lembrar que a ligação de Ronaldinho Gaúcho com a política é zero para que ele se candidate logo ao Senado, câmara alta que, pela tradição, exige maturação pessoal e política do candidato.

Também acho desnecessário questionar qual a ligação do ex-jogador com Brasília e o Distrito Federal como um todo, para que ele tenha escolhido ser nosso representante, nós, moradores do DF.

Quantas vezes ele passou pela cidade na vida?

Acho que é suficiente lembrar apenas que o eleitor que confiar a ele seu voto é tão safado e sem vergonha quanto a escória que ocupa parte das cadeiras do parlamento na atualidade.

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Marcia Luz

Marcia Luz

Trate como gentileza o que é dever do outro.
Agradeça até mesmo quando um gesto não passa de obrigação da outra pessoa, como, por exemplo, o motorista que para na faixa de pedestre.

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Portal Terra

Portal Terra

Colega meu de profissão, jornalista de talento e experiência, observa de forma pertinente que não vale a pena o Jornal do Brasil voltar às bancas se for para fazer o mesmo feijão com arroz sem sal e sem refogado que anda sendo feito nas redações de seus antigos e agora novamente concorrentes.

O que se espera do novo JB é ao menos uma tentativa de honrar o que ele foi até a década de 80, e principalmente nas duas décadas que se seguiram à grande reforma do jornal no fim dos anos 50.

Só não concordo com meu colega quando ele diz que precisamos de um jornal de esquerda.

Jornal não é partido para ser de esquerda, centro ou direita.

A linha política de um jornal, e qualquer outro veículo de imprensa, tem que ser o interesse da sociedade, a informação sem rabo preso que ajude na construção de um país melhor do que este que moralmente cai aos pedaços.

Utopia? Não vejo outra maneira de a imprensa inspirar confiança na população.

A política de um jornal só pode ser a do “Pau que dá em Chico dá em Francisco”.

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Abaixo de zero

Leio tardiamente o grande sucesso de Bret Easton Ellis, livro que à época chegou a ser considerado O Apanhador no Campo de Centeio da minha geração.

Fiquei particularmente impressionado com a capacidade do autor de dizer sem falar, de deixar claro uma situação e um sentimento comum entre os personagens sem se referir objetivamente àquela ou a este.

Descrevendo uma sucessão de cenas e acontecimentos fúteis, mundanos, banais, Bret desnuda o vazio de viver de seus personagens, jovens bem nascidos no grand mond do cinema americano, mas o faz sem juízo de valor, sem dizer categoricamente “Que bosta de vida que essa gente leva”.

Isso é feito – e aí mora o grande barato do livro, diria até um pingo de genialidade literária – induzindo o leitor a ter uma quase certeza de que cada um dos personagens pensa – sem dizerem nem para si mesmos – que a vida deles realmente não possui sentido algum.

Além da futilidade e do vazio existencial, outro traço une todos que aparecem na história: a total ausência dos pais desses jovens.

Abaixo de Zero não tem o objetivo de entreter (embora seja livro difícil de largar) nem encantar pelo estilo literário (simples, sem elegância até).

Me parece ter um objetivo bem mais importante do que todos estes: nos manter permanentemente atentos com a utilidade que estamos dando às nossas vidas.

Recomendo.

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Lava jato

A Câmara Legislativa do Distrito Federal poderia ao menos uma vez na vida provar a utilidade de sua existência e criar lei proibindo o funcionamento de lava a jatos que utilizem água.

Numa cidade que se vê ameaçada pela crise no abastecimento, “chega dói” (como se diz no vizinho estado de Goiás) ver centenas de litros escorrerem pela lataria dos modelos de luxo dos moradores da capital do país.

Quem quiser carro brilhando, que faça a opção pela lavagem a seco, mais cara, por certo, mas com resultado melhor para o veículo e infinitamente mais racional para o meio ambiente.

Uma vez um frentista de um posto de gasolina aqui de Brasília me garantiu que toda aquela água era reaproveitada.

Quando perguntei para quê, ele respondeu: “Para novas lavagens, doutor”.

Menos mal, mas ainda acho um reuso muito rasteiro face à preciosidade do recurso natural mais importante para a vida do Planeta.

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Aílton Freitas / Agência Globo

Aílton Freitas / Agência Globo

A imprensa de Brasília traz a informação de que o departamento responsável pela manutenção dos viadutos da cidade, entre eles o que desabou e milagrosamente não matou ninguém, deixou de gastar mais de R$ 4 milhões na manutenção dessas edificações que passam sobre as cabeças de milhões de moradores da capital do país.

O responsável pelo departamento, que já foi decapitado pela caneta governamental no furacão da crise provocada pelo desabamento, não explicou – eu pelo menos não vi – o motivo de o dinheiro não ter sido gasto.

Com razão, um dos órgãos da imprensa candanga arrisca que a razão foi a austeridade fiscal, compromisso primeiro dos governos no Brasil e lá fora com o mercado financeiro.

Se há algum acerto fiscal do administrador em uma medida como esta, há, no mínimo, um inominável erro político (isso para não entrar no mérito do descaso com a vida da população). Em ano de eleição, uma tragédia provocada por omissão do poder público pode acabar com a pretensão de qualquer governante.

A julgar pelo fato, as contas públicas estão valendo mais do que nossas vidas.

Vale o balanço no fim do mês (pra efeito de marketing, aliás, porque, convenhamos, a despesa nunca é cortada onde realmente deve), mesmo que a cidade desabe ao nosso lado ou em cima de nós.

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metropoles.com

metropoles.com

O desabamento de parte da estrutura térrea de um prédio na Asa Norte, em Brasília, aconteceu no final da madrugada de domingo.

Houvesse sido apenas 24 horas depois, uma segunda-feira de manhã, seria bem mais difícil que a conta fosse apenas de automóveis esmagados pela estrutura que ruiu sobre a garagem.

Hoje parte de um viaduto da principal via de tráfego da capital do país caiu faltando dez minutos para o meio-dia.

Fosse meia hora mais tarde, haveria tráfego maior de gente indo almoçar e pegar/levar filhos na escola.

Seria, portanto, bem mais difícil que não houvesse veículos, inclusive ônibus, passando no momento no exato local do desabamento.

Aliás, já é espantoso que não houvesse qualquer veículo sobre o trecho na hora H em que a estrutura veio abaixo.

É impressionante a imagem de um pequeno automóvel vermelho dando ré segundos depois e apenas a poucos metros do que de repente se transformou em um imenso vão. Apenas mais alguns instantes e seria tarde para que o motorista fizesse a manobra de recuo e fuga do que se anunciava uma tragédia.

Embaixo do viaduto, há uma área que serve de estacionamento, e junto ao que agora é escombro existe um restaurante que recebe por dia cerca de 500 fregueses. Tudo leva a crer que não havia ninguém próximo ou dentro dos carros e no restaurante estavam apenas umas 15 pessoas, que felizmente acabaram vítimas somente de um baita susto.

Mais alguns momentos, o movimento aumentaria. E muito. Se a vida é loteria, isso é mega-sena acumulada.

metropoles.com

metropoles.com

Brasília investe pesado na compra e colocação de câmeras e outros equipamentos de vigilância de trânsito, os conhecidos pardais e barreiras eletrônicas que coíbem o excesso de velocidade.

A cidade também possui uma queda acentuada por alargar vias e erguer novos viadutos, sempre em detrimento do transporte público.

Deveria se preocupar mais com as estruturas que já existem e que já passam de meio século, fiscalizar o que vai apodrecendo em silêncio, escondido, despercebido pela pressa diária da população e pela negligência das autoridades.

Porque em algum momento os céus, ou seja lá o que for que protege essa terra, podem esgotar sua quota de milagres.

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Adoro Cinema

Adoro Cinema

Na minha vida profissional trabalhei com alguns colegas que sempre se mostraram preocupados em demasia com os interesses comerciais e políticos das empresas em que trabalhavam.

Quando uma matéria tinha sinais de que poderia incomodar relações prezadas pelos patrões, ainda antes de ela ser fechada o sujeito já estava cheio de dedos, refugando na hora de escrever o que sabia e o que era importante dar conhecimento à sociedade, o principal cliente de um veículo de comunicação.

Ben Bradlee, personagem de Tom Hanks no excelente The Post – A Guerra Secreta, é o editor chefe do Washington Post e seu (único) compromisso é com a informação no caso do vazamento de um relatório secreto do governo americano sobre a guerra do Vietnam.

Em duas horas de filme, Bradlee enfrenta pressões principalmente dentro do próprio jornal para não dar conhecimento ao povo americano da notícia que é nitroglicerina pura.

Em certo momento do filme, me lembrei de um rapaz, de futuro promissor na profissão, que chegou certa vez para mim na redação com um belo exemplo daquilo que chamamos furo de reportagem.

Titubeante, sua preocupação maior era se haveria represália quando a matéria fosse ao ar. Respondi que na emissora havia gente que ganhava bem mais do que ele para se preocupar com isso, e que seu papel ali, naquela hora, era gravar a matéria e entregar ao editor.

Pois Ben Bradlee, a partir de experiências anteriores do personagem, torna-se exemplo a ser seguido por alguns colegas que, infelizmente, se acham mais realistas do que o rei e se arvoram em defender interesses que na verdade nem sabem se são realmente de quem os emprega.

E se forem, a preocupação é justamente do patrão.

A nossa é com a notícia.

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Menina andando de bicicleta
Testemunhar a conquista de um filho nos traz igualmente a sensação da vitória.

Quando dobram alguma dificuldade, ultrapassam obstáculos, obtêm êxito em desafios é um pouco (aliás, um muito) de nós que também sai vencedor.

Nossa dedicação não deixa de estar ali consagrada.

Pela minha lembrança, o primeiro desses tantos momentos é quando a criança aprende a andar, quando solta de nossas mãos e vai pela casa, pela calçada, confiante já em suas próprias pernas.

O segundo certamente é quando aprendem a andar de bicicleta.

Por esses dias, pela terceira vez em minha vida de pai levantei esse troféu imaginário.

Após alguns dias de tombos e choro, minha filha mais nova saiu pedalando pelo jardim, enchendo de gritos de alegria (meus, dela e das irmãs) a noite de verão.

O equilíbrio inseguro foi se firmando a cada vai e volta emocionado da novidade, conquistada também com um pouco do meu esforço em lhe transmitir amor e confiança.

Vendo-a se distanciar no longo corredor embaixo do prédio e dominar o mistério de se mover sobre duas rodas, sobreveio-me a orgulhosa impressão de que estou colaborando para que, quando realmente estiver longe de mim, saiba se equilibrar também na vida.
*
André Giusti
Do Livro As Estranhas Réguas do Tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)
À venda aqui, na seção Livros do site

Capa As Estranhas Réguas

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Cony

Comprei este exemplar de um dos clássicos de Carlos Heitor Cony uns dois meses atrás.

A morte do autor, há algumas semanas, fez com que a obra furasse a minha sempre extensa fila de livros a serem lidos.

Percebi nas páginas que contam a história de um publicitário e sua mulher, 30 anos mais jovem, traços comuns a outros livros de Cony.

Parece haver em sua literatura a imperfeição da pressa jornalística, característica de quem escreve sempre com o ponteiro do relógio apontado contra si, feito uma arma.

Isto faz pensar que alguns parágrafos poderiam ter sido escritos de outra forma.

Talvez também o que dizem os personagens em alguns momentos poderia estar na boca do narrador. E vice-versa.

Há, até mesmo, a impressão de que Cony usou de modo inadequado determinado verbo, quando deveria ter optado por outro, que demonstraria melhor o sentido que ele quis dar à frase.

Mas – com tudo isso e apesar disso – tente e veja se consegue interromper ou deixar de lado a leitura de um livro de Cony.

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