André Giusti - foto: Luana Lleras
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Levei minhas três filhas para assistir ao documentário Cora Coralina: Todas as vidas.

Já no corredor do shopping, a mais velha disse, mãos nos bolsos, pensativa em seus 14 anos.

- Pai, eu entendi tudo o que ela quis dizer nos poemas. Por que outros poetas não escrevem assim, pra gente entender o que eles estão dizendo?

Tentei argumentar que muitas vezes à poesia não cabe apenas o simples papel do entendimento fácil. Muitas vezes é necessária também a construção de imagens fora do senso comum, do normal, do padrão, imagens que inflem as asas da imaginação do leitor.

Tudo bem, ela concordou, mas em seu rosto, visivelmente estava a preferência pelo estilo simples de poeta goiana em dizer coisas belas..

interneeduca.com.br

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Essa parte do documentário é a que cabe a nós escritores: estamos nos fazendo entender? Nossa mensagem está cumprindo seu papel, ou o que dizemos faz sentido apenas para o nosso restrito universo de autor e nossa pretensão estética?

A outra parte do documentário diz respeito a todos nós, poetas, advogados, técnicos em edificações, oficiais de cartório… e é bem mais importante que qualquer reflexão sobre o fazer poético.

O que fazemos diariamente para justificarmos nossas vidas? Estamos colocando nelas toda a alegria, força, dedicação, esperança, energia e amor que elas merecem? Nós somos felizes com nossas vidas?

Ao final do filme, a poesia acaba sendo a menor parte de Cora Coralina.

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Irmãs
Uma das moças na mesa ao lado no restaurante espera a irmã, que demora um pouco. É domingo, faz sol e elas são bem jovens. Portanto, a espera não incomoda.

A irmã chega fazendo cara de lamento e pergunta “Sabe aquele casaquinho que você me emprestou?”. Embora não perca a tranquilidade, a outra já sabe que boa coisa não aconteceu. “Pois é, fui lavar e ele ficou assim e assim”, e detalha o estrago, se desmanchando em pedidos de desculpas.

A dona do casaco não se abala. Dá de ombros, “tudo bem”, e ela diz que tem vários, não vai fazer falta.

É claro que esse comportamento é traço de sua personalidade, mas fico pensando que nele deve haver muito da educação dada pelos pais.

É possível que tenham ensinado que não vale a pena privar-se da paz de um domingo ensolarado por causa de coisas sem muita importância, mesmo que às vezes sejam até maiores e mais valiosas que um casaco.

É provável também que tenham cultivado nas filhas o sentimento de não competição, de não quererem, a qualquer custo e de todo o modo, ser sempre melhor do que a outra, do que os outros em todos os lugares e ocasiões.

Acho que se educarmos nossos filhos assim, no lugar do conflito teremos a harmonia; no da vingança, o perdão, e a amizade substituirá, certamente, a rivalidade.

Quando nos dermos conta, no futuro, teremos contribuído para um mundo melhor.

Aliás, na casa daquelas duas irmãs do restaurante, o mundo certamente deve ser um pouco melhor.
*
André Giusti, do livro As Estranhas Réguas do tempo (Crônicas, Editora Multifoco, 2014)

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Se há um filme em cartaz que trata de questões contemporâneas, este filme é certamente The Square – A Arte da Discórdia, candidato sueco ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

E ele não se limita a apenas uma questão, como outros que escolheram falar sobre racismo, homofobia, pedofilia, etc.

The Square abre o leque das mazelas de uma Europa egoísta, que não reconhece nos seus problemas atuais o fruto de suas ações predatórias ao longo dos séculos.

AdoroCinema

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Partindo do mundo egocêntrico das galerias de arte, The Square começa falando da desconexão desse universo com o sentimento e entendimento do homem comum, que deveria perceber na arte uma forma de compreensão e mudança de sua existência e do próprio mundo.

Mas isso não acontece por causa da pretensa genialidade de artistas que a gente não entende porque e como se consagram, que produzem para uma camada de dez ou doze tão egocêntricos e desconectados feito eles.

Mas The Square fala também sobre liberdade de expressão, sobre quem defende liberdade de expressão a qualquer preço. Até que se vê agredido, ofendido e até ameaçado por essa liberdade de expressão.

Fala sobre racismo e xenofobia, praticados também por quem é vítima dessas duas abomináveis condutas.

Fala sobre a superficialidade das relações, sobre nossa desatenção cada vez maior com o outro, seja no trabalho, na rua, seja na cama.

Fala sobre as oportunidades que perdemos diariamente de pedirmos perdão pelos seres egoístas que somos. Oportunidades que nem sempre voltam.

Fala até (sobrou pra imprensa, claro) da falta de consistência com que são produzidos conteúdos que recebemos diariamente e que deveriam nos orientar na hora de pensar, escolher, decidir.

The Square é um filme necessário de ser visto, no mínimo para nos chamar a atenção sobre como estamos conduzindo nossas vidas e pilotando esse planeta.

Não assisti aos outros candidatos ao Oscar de filme estrangeiro, mas pela mensagem que traz, The Square já é meu favorito.

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Não sou crítico literário, não tenho obrigação de me estender sobre um livro que acabei de ler.

É porque não preciso de mais do que uma palavra para definir o livro de Aline Bei. Aliás, duas palavras: lindo demais, e peço logo perdão pela redundância, pois se é lindo, já é demais, mas neste caso cabem as duas, sem exagero.

Ah, e se você, ao começar a ler, ficar em dúvida se é um romance ou um livro de poesia, fique tranquilo. Uma hora é um; outra hora, é outro, mesmo que pareça difícil existir um livro assim.

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Dicas Gerais

Dicas Gerais

A pessoa é sua amiga na rede social, e com alguma frequência na vida real também.

Claro que sabe que você é escritor, tem até ao menos um de seus livros.

Mas não dá um sinal de vida quando você posta um poema, um trecho de conto, uma crônica.

Aí, num belo domingo madorrento, você tasca lá na tua página a foto do rango feito com carinho pela namorada ou semelhante. De quebra ainda vai o vinho que você guardou para uma ocasião que fizesse jus ao rótulo.

Em cinco minutos, a pessoa aparece cheia de coraçãozinho ou carinha de uau! e ainda comenta “maravilhoso”, “que delícia” ou elogios do gênero.

Ela até pode estar elogiando teu cardápio, tua carta de vinhos, mas, sei lá, acho que na verdade está dizendo, de outro modo, “cara, você é bacana, mas não gosto de você como escritor”.

Capaz de ser paranoia minha. Capaz que não.

Coisas de autor em tempos de rede.

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Em todo fim de ano despencam sobre nós avalanches de listas dos dez melhores do ano.

Pelo jeito deve haver lista até dos dez melhores vasos de planta.

Natural que haja de livros também.

Alguns autores conhecidos meus emplacaram seus livros em listas de sites, blogs e jornais literários considerados de peso no meio das letras. Não li todos os livros desses meus conhecidos. Dois ou três que li merecem as citações nas listas.

Meu livro mais recente – A Maturidade Angustiada (Contos, Penalux, 2017) – figura numa lista, que nem é de dez, mas de sete (ou seja, uma peneira ainda mais rigorosa).

É a lista dos sete melhores livros nacionais publicados em 2017 de acordo com o também escritor Matheus Peleteiro.

Peleteiro está de trabalho novo: Pro Inferno Com Isso (Contos, edição do autor).

Meu A Maturidade Angustiada foi bem elogiado desde o lançamento em maio, mas não entrou em nenhuma lista desses veículos literários tidos como de relevância opinativa para o mercado editorial.

Mas se paramos para pensar que essas listas são feitas a partir de avaliações subjetivas construídas em cima do gosto pessoal de quem lê (pois o crítico, se imparcial e sem interesse comercial, é também um leitor) a lista do Matheus, na minha opinião, tem o mesmo peso de uma lista da Folha de São Paulo, da Cult ou do Rascunho.

Por isso tô bem feliz de estar nela.

http://www.andregiusti.com.br/site/livros/a-maturidade-angustiada/

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Penso que no fundo, no fundo a data é mais um pretexto para bebermos e comermos desmesuradamente.

É tão somente um dia no calendário, muito pouco para ser marco inicial de alguma mudança.

Esta, se quisermos, poderá acontecer em alguma quarta-feira de maio ou agosto, antes ou pouco depois do almoço. Prefere outubro? Março? Fique à vontade.

O que se encerra hoje é apenas mais um ciclo da Terra em volta do Sol. As datas dos nossos ciclos dependem da nossa percepção em relação ao início, final e continuidade deles, e isso não se atrela a calendários.

Hoje, à meia-noite, ninguém lá em cima, ou sei lá onde, vai virar uma chave pra mudar tua vida. Nessa chave é você quem mexe. Ou sua própria vida, a hora em que ela achar que algo já te basta. Em qualquer dos doze meses do ano.

Mas eu sou mais otimista do que realmente pareço.

Se toda essa onda de felicitações (quando até quem passou o ano inteiro sem te dar um alô manda aquela mensagem standart com aquele vídeo fofo de 12 minutos) te motiva a ser melhor, ótimo! Aproveite, feito o surfista que se lança na onda subindo no mar bravo.

Que teu desejo de ser melhor sobreviva, amanhã, à cabeça pesada e ao estômago virado.

Ressaca
*
Neste ano da graça de 2018, devo chegar aos 50 mil km rodados.

Em meu caso, a meia idade me trouxe paciência. Mas também intolerância.

Hoje sou compreensivo, benevolente, tolerante com coisas que me tiravam do juízo 20, 30 anos atrás.

Por outro lado, não aceito nas pessoas procedimentos que relevava no passado.

Na verdade, sou ainda o mesmo, ainda alternando tolerância e irritação, apenas mudei móveis de lugar.

O que me atingia não me move mais. O que eu fingia não ver pra não esquentar a cabeça, hoje me agride.

Como estará essa mobília daqui a dez anos, se eu ainda vestir este corpo de carne e ossos?
*
Ah! Feliz ano novo!

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Amigo de rede social tem postando músicas bem legais que falam sobre o verão. Parece que a estação dá mesmo vontade de a gente ouvir mais música e falar/escrever sobre elas.

Hoje lembrei que lá pelos meus 15 anos, todos os dias eu pegava o 454 (Grajaú-Leblon), no Andaraí, bairro no Rio em que morei dos dez aos 24 anos. Era o modo de um moleque suburbano ir à praia. Na época, o metrô do Rio não chegava a tantas estações.

Duas horas depois eu saltava no Posto 9, em Ipanema, do outro lado da cidade, e ficava o dia inteiro na praia, com colegas de rua e colégio, fiscalizando ondas e biquínis.

No busum, um azulão da finada CTC, eu ia cantando essa música aí debaixo, me achando o surfista só porque pegava uns jacarés muito caidinhos.

Ah, detalhe! Eu gosto dessa gravação, com o Ricardo Graça Mello, que era trilha sonora do filme Menino do Rio, muito mais legal do que com o mala do Lulu Santos.

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Acho que ouço Rock desde a outra encarnação, mas houve um tempo em que comecei a comprar os discos, a ler sobre as bandas, conversar com quem gostava também. E sempre tinha uns nojentinhos que torciam o nariz se a banda tocava no rádio. De repente, o sujeito até gostava, mas se estourava nas paradas, ele batia o pezinho: ah, é muito comercial. E ficava lá, cagando a goma de gostar de umas bandas que só ele e metade da torcida do Botafogo conheciam.

Muita gente carregou a pecha de ser ruim só porque fazia música que tocava no rádio. Phill Collins é um dos exemplos que me ocorre. Isso respingou até em entidades superiores como a trup de Fred Mercury. Confesso que, nas inseguranças da adolescência, eu ficava assim assim de gostar (demais) de muita coisa que tocava no rádio. Mas poucos anos depois, um pouco mais velho, eu já sacava que fazer som comercial nada tinha a ver com qualidade, as duas coisas poderiam caminhar juntamente, sem nenhum problema.

E exemplos, ao longo da história, não faltaram.

queen4

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“Menina veneno você tem um jeito sereno de ser” é um dos versos mais cretinos e imbecis que se escreveu na música brasileira. Mas como a gente cantava, ah! como a gente cantava…todos querendo pegar cada um sua menina veneno. Lembrei disso porque um vizinho desceu assoviando hoje de manhã.

ritchie

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