Voo

 


Para F.F.

*
Quando foi teu último copo d’água?

O que você deixou pro final no café da manhã?

Que roupa você usava antes do último banho?

Você chegou a almoçar pela última vez?

A última vez que você pegou em dinheiro

Teu último bom dia

Quem, derradeiramente, te deu passagem no elevador?

Se eu houvesse te encontrado e reparado em teus olhos desesperadamente silenciosos,
notado que teu rosto era quase um outro
como se praticamente já não fosse mais o teu…

Quem sabe, talvez.
*
André Giusti, 2010

Érica-Flávia, a moça na praça de alimentação


Sentei-me de frente a ela, levemente na diagonal, em um conjunto de mesas vizinho ao que que ela estava. Sentei-me ali porque a uma da tarde na praça de alimentação de um shopping center não há muito lugar para se escolher.

A moça está de vestido preto, justo e uma maquiagem preta em torno dos olhos também escuros. Está de crachá. Claro que não consigo enxergar o nome, mas um palpite inteiramente sem sentido vem me dizer que se chama Érica. Se tirasse o crachá, pendurado em uma fita colorida, eu pensaria com segurança que está vestida para a noite. Com o crachá, é uma funcionária em hora de almoço. Não uma alta funcionária. É daquela camada mediana das empresas, que sonha estar lá em cima, nos altos cargos, mas que se aproxima justamente dos que ocupam os degraus de baixo.

Érica toma uma long-neck enquanto almoça. Não é algo comum numa praça de alimentação na hora do almoço em uma sexta-feira, a julgar pelo que percebo em volta, entre as moças que ombreiam com Érica nos anos. É que embora seja sexta-feira, ainda há todo um turno de trabalho pela frente. Érica não olha para mim nem para ninguém, é como se ninguém existisse no shopping, é como se dissesse para mim e para quem repara em sua long-neck: “Eu tô cagando baldes se vocês acham estranho eu beber cerveja na hora do almoço de um dia que ainda é de trabalho”.  Imaginando que ela possa estar pensando isso, aprofundo meu olhar em seu rosto. Érica tem uma expressão que está a um metro da tristeza, mas não é exatamente tristeza, e é isso que me inquieta e me atrai. Minha curiosidade pela moça é indefinida, mas a essa altura forma essas frases que por ora ponho na tela do computador.

Algo também me diz que tem trinta anos, o mesmo algo que há pouco mudou de ideia e me sugere agora que ela pode se chamar Flávia, mas deve ter realmente trinta anos por causa dessa sombra de desilusão e desgosto que está além da maquiagem de seus olhos. Essa sombra é típica dos trinta anos, quando resistem as esperanças e sonhos teimosos da juventude, mas já há retratos bem revelados das dores adultas.

Começo a sentir por Érica ou Flávia, a moça dos olhos desiludidos, com restos de esperança, uma ternura de pai, até porque seus supostos trinta anos a fazem com idade para ser minha filha. É essa a minha curiosidade, meu interesse. Quero cuidar de Érica-Flávia, protegê-la para que não aumentem a decepção e o desgosto além dos olhos maquiados da minha menina.

Ela termina de comer e vai imediatamente teclar ao celular. Repentinamente e com o espírito de suposição que tomou conta de mim, me vem a certeza de que Érica-Flávia tem realmente trinta anos, é solteira e mora com a mãe viúva. É caso do diretor-executivo da empresa em que trabalha, a do crachá, claro. Ele é o segundo homem da corporação, tem um salário estratosférico e todo o poder do mundo corporativo. Também podia ser seu pai, afinal tem cinquenta e cinco anos. Diz que a ama e que um dia irão viver juntos, “deixa apenas as coisas se ajeitarem”, ele pede, mas não ajeita coisíssima nenhuma, porque nunca que termina o casamento de 25 anos, três filhos e mulher influente, nunca que deixa seu mundo confortável para trás e vai viver com Érica-Flávia. “Mas ele me prometeu que vai montar um apartamento pra gente, eu vou morar lá, ele vai depois, quando se separar, ele diz que nosso namoro é pra valer”, e Érica-Flávia assegura a promessa que não é sua, acossada pela sua porção de juventude que vai driblando enquanto consegue o avançar da idade da moça. Namoro, Érica-Flávia? Ele diz que você é namorada dele? Você é amante dele, querida, amante! E esse apartamento é só para adoçar tua boca pelo resto dos anos em que ele continuará sem dar um pé na bunda da mulher.

Érica-Flávia empurra a bandeja de lado e toma o último gole de cerveja. Meu carinho de pai quase me empurra até ela, para dizer “minha querida, acorda. Deixa de ser boba, não quero te ver sofrer”.

Érica-Flávia se levanta, estica o tecido para ajeitar o vestido preto que pelo quase nada que conheço de roupa de mulher, certamente é da Riachuelo, da Renner ou da C&A, comprado em seis ou sete vezes no cartão da própria loja.

Sem tomar conhecimento de mim e de ninguém mais a sua volta, Érica-Flávia dá as costas, carregando a bandeja com o prato sujo, que vai deixar no balcão da lixeira. Toma a reta da gelaria, sumindo no turbilhão do shopping, me deixando sozinho com meu absurdo amor de pai vivido numa história absurda em que um cafajeste não merece de modo algum seu amor puro e sincero.

Um homem de paz

Nem bem me acomodo no banco de trás, o motorista dá bom dia e pergunta se “está tudo bem, doutor?

Eu digo que se sou doutor, sou apenas das dúvidas e incertezas.

“Já serve” ele chancela, enquanto eu emendo que está tudo bem sim, eu tenho casa,  roupa, tomo café da manhã, almoço, janto e de vez em quando ainda faturo uns belisquetes, tudo o que quando estou com raiva da vida não levo bem em consideração.

O senhor é um homem de paz, o senhor transmite paz“, ele se sai com essa,  dobrado esquinas indicadas pelo aplicativo.

Eu, transmissor da paz? Logo eu, cheio de demônios, conflitos e guerras internos. Enumero na cabeça as pessoas que eu gostaria que ouvissem ele falar isso.

Não sei por qual motivo me diz que é cadeirante, e logo me atino que, pelo que me lembre, nunca andei de carro com alguém dirigindo que não tenha o movimento das pernas.  Não quero posar de bom moço: não vi qualquer problema nisso.

Ele estava andando perto de uma cachoeira no entorno de Brasília. Escorregou, bateu com a cabeça na pedra e desmaiou. Acordou no hospital sem sentir o movimento das pernas. É uma história razoavelmente comum entre quem, em algum momento da vida, passou a depender de uma cadeira de rodas.

Além de precisar de uma cadeira de rodas, ele tem outro problema. A cadeira que usava, de tão velha, abriu, vez um V, e ele não tem grana para comprar uma seminova, que custa mil reais. Ele tem apenas 770 e o carro que está dirigindo, para ver se consegue uma grana no Uber, é alugado e a locadora pediu hoje de volta, é o único adaptado para deficientes.

Quando vou perguntar como se vira sem a cadeira, ele adianta: “Eu vou largar o Uber, o senhor é meu último passageiro”, e emenda dizendo que vai voltar pro Ceará, de onde saiu uma única vez, justamente para vir para Brasília, onde, pelo visto, as coisas não deram tão certo. “Até tem um emprego aqui, mas para ocupar essa vaga o sujeito tem que ter cadeira de rodas. Eu fiz entrevista, eles gostaram muito de mim, mas…”,  resume o drama e muda de assunto. Conta que tem um filho de sete anos que quer ser médico. “Para curar você, papai, ele diz”, e conta sorrindo, emocionado. Eu também me emociono, enquanto penso que faltam 230 reais para o sujeito conseguir o emprego e continuar em Brasília.

Ele é falante, simpático, gentil, o típico cearense, o nordestino característico. Não me pede nada, absolutamente nada, não faz a mínima insinuação que seja.

Quando chegamos a meu destino, pago o Uber e na hora em que ele vai se despedir, eu peço “Me dá teu pix aí, mer’mão”, e acentuo meu sotaque carioca, para, de brincadeira, contrapor o seu, tão agudo. “Vai cemzinho aí pra tu. Até o fim do dia, tu descola o resto”, e fecho o aplicativo do banco.

Ele chega a chorar, levanta as mãos pro céus, diz que eu sou um enviado de sei lá onde.
Quando o carro se afasta, não deixa de me passar pela cabeça, rapidamente, que toda aquela história poderia ser um fantástico teatro.

Se for, eu penso, a consciência a pesar, em algum momento, não será a minha.

E sigo meu rumo me sentido, agora sim, um verdadeiro homem de paz.

 

Eu amo Brasília (a verde)

Não sei dizer se amo Brasília.

Acho que não.

Em mais de 27 anos morando aqui, o máximo a que me arrisco é: gosto muito de Brasília.
Nisso, há uma certa distância para se dizer te amo.

Mas há um aspecto na cidade que para mim é absolutamente apaixonante, encantador: suas áreas verdes.

Entre as cidades grandes e médias que conheço e das que ouço falar, não há no país uma tão verde, com tanto gramado e árvores que, sendo abrigos de pássaros, garantem o ano inteiro frutas, flores, cores, aromas e, nesses tempos de aquecimento global, o mais importante: sombra (vale lembrar que, infelizmente, isso não se aplica a boa parte das satélites do Distrito Federal).

UnB/ Asa Norte

Conheço gente mais velha que esteve por aqui na década de setenta, quando Brasília era um purgatório de barro, poeira e concreto. Certamente não imaginam que atualmente, dependendo da quadra, especialmente as quatrocentos da Asa Norte, vive-se com a impressão de que se mora num parque ou num bosque. Isso é impagável, nenhuma cidade no Brasil oferece isso, é o maior patrimônio do lugar que abriga o poder central, patrimônio mais valioso que boa parte, ou mesmo a maioria, das pessoas que vivem aqui.

Essa é a capital do país em que as pessoas moram, uma cidade de coração verde, cheiro de manga e canto de bem-te-vi.

Naquela de palácios arrojados, escândalos sucessivos e coração de concreto ninguém mora.

Felizmente.

SQN 309

No Dia do Escritor, me dê os parabéns comprando meus livros

Guardadas as devidas proporções entre a importância das duas datas, acho que acontece no Dia do Escritor algo semelhante ao que acontece no Dia Internacional da Mulher.

Em oito de março, chovem declarações pretensamente emotivas e sensibilizadas, bem como flores e bombons, em boa parte disparadas por homens que não aceitam ser chefiados por uma mulher  e que, em casa, se recusam a tirar o prato da mesa depois que acabam de comer.

No Dia do Escritor (25 de julho), tenho a forte impressão de que quem me manda os parabéns nunca abriu um livro meu, meu e de outros colegas, mas faz da data apenas um pequeno regador para molhar as flores da simpatia plástica das redes sociais.

É aquele tipo de suposto leitor que no dia do lançamento do seu livro avisa logo que “eu não vou poder ir, mas depois vou querer um, e autografado, hein?”, e dá uma leve e pequena risada, de tamanho inverso ao que carrega de falsidade. Nunca te procura para comprar teu livro.

Vou ser sincero: eu não quero parabéns pelo Dia do Escritor nem por qualquer outro que celebre de alguma forma os livros, a literatura e nós, autores.

Eu quero vender livros, eu quero ser lido.

Então, se você comprou ao menos um dos meus livros, se leu ao menos alguma coisa que já escrevi, não precisa nem lembrar que hoje é Dia do Escritor.

Ei, Uber, aumenta que isso aí é Rock’n Roll!

Entro no carro e de cara percebo que “o ritmo do som era pesado“, como diria Celso Blues Boy.
Uma guitarra rola solta no rádio.

Parece Judas Priest, mas não tenho certeza, e não pergunto quem é.

Quero saber sim que emissora é aquela.

Nenhuma, é uma playlist do spotify, o motorista explica e, imediatamente, pergunta solícito e profissional se eu quero que troque a música ou  mude para outra coisa.

De modo algum. Muito pelo contrário. Pode aumentar, e explico que não tem um mês fiz no Uber um misto de viagem e tortura, quando o motorista escutava aquela nojeira de sertanejo, em que uma música é igual às outras em tudo: letra, melodia (?) e arranjo, além de parecer sempre que apenas uma pessoa canta todas.

Na melhor viagem de Uber que, tenho certeza, farei nos próximos dez anos, o motorista, um rapaz de cabelo moicano e com idade para ser meu filho, conta como montou a playlist e discorre sobre Led  Zeppelin como se houvesse tido, nos anos setenta, a idade que tem agora.

Entusiasmado, refuta a ideia de que o Greta Van Fleet é uma mera cópia do que fizeram Plant, Page, Bohan e JPJ, o que ganha minha imediata concordância, admirador de primeira hora do Greta.

O papo envereda pelo Spotify em si, sobre como o aplicativo (com mais prós do que contras, a meu ver) revolucionou nosso modo de escutar música e que, para quem estiver de coração e ouvidos abertos, pode mostrar quanta coisa boa se faz no Rock nesse século 21, contrariando a má vontade dos dinossauros e aquele discurso sonolento de que “Rock bom é só até o anos 80”.

Para provar que estou mesmo atento ao que rola no planeta guitarra/baixo/bateria, recomendo ao rapaz duas  bandas que podem ser consideradas novas, que são da virada do 20 para o 21: Colective Soul e Powderfinger.
Então, para que eu me sinta de vez o tiozão antenado na new generation, ele confessa que não conhece, mas que vai lá na busca do aplicativo, o quanto antes.

 

Pago a corrida no QR Code e me despeço do motorista desejando “Rock’n Roll na veia!”.

Na calçada, me lembro de Neil Young cantado “Rock’n Roll can never die”.

“Não vai morrer, Neil, não vai”,  digo para mim mesmo em um diálogo imaginário, sentindo, mesmo que por um tempo menor que a duração de uma música, um pouco mais de esperança na humanidade.

Filhos criados

Chega uma hora em que nós não decidimos mais a vida de nossos filhos.

Geralmente é entre os dezoito e os vinte anos, quando eles entram para a universidade, que se seguiu à primeira grande decisão que tomaram: o que vão estudar para ter uma profissão, trabalhar e colocar dinheiro em casa.

É um pouco difícil se ver de mãos atadas, sem poder direcionar, como sempre foi, a moça ou o rapaz para esse ou aquele caminho.

Mas, afinal, não foi exatamente para isso que você os criou? Para que crescessem e comandassem a própria vida?
Sim, foi , exatamente para isso, mas é que finalmente você se dá conta de que está cumprida a maior, mais importante e prazerosa tarefa de sua vida: criá-los.

Você até está orgulhoso, e  esse momento da constatação do voar dos filhos seria perfeito não fosse um certo vazio tomando conta do peito e um crescente sentimento de inutilidade a partir de agora.

Encantamento Luiz Eduardo de Carvalho* fala sobre meu primeiro romance


Ler, selecionar, editar e recomendar um livro aos leitores, com o perdão da apropriação, só vale a pena se houver encanto! E foi o que se deu diante da facilidade para contar uma história verificada neste primeiro romance de André Giusti, autor tarimbado que já publicou dez títulos de poesia, crônicas e contos, o primeiro deles finalista do Prêmio Jabuti em 1997. Agora, em Só vale a pena se houver encanto, ratifica-se a fama de bom prosador que o precede.

Na vanguarda dos relatos auto ficcionais que despontam como tendência na literatura contemporânea, André Giusti vale-se de sua extensa experiência como diretor de redação, âncora e repórter em grandes empresas de radiodifusão, para criar o personagem Alessandro Romani, um jornalista e escritor que, dos trinta e cinco anos de idade em diante, atravessa um momento em que a vida opõe-lhe algumas primeiras contrariedades que, em sua própria concepção, configuram-se um conjunto de indicadores de um rito de passagem dos derradeiros adeuses da juventude à concretização dos acenos da maturidade. Sem embarcar em digressões existencialistas acerca das transformações experimentadas, nem buscar apoios nos jargões esclarecedores da crise da meia-idade, o autor deixa que os fatos percebidos pelo protagonista, que os narra em primeira pessoa, falem da circunstância por si sós, tão somente acompanhados de pertinentes e reativas reflexões que dão conta da expressão do campo emocional do personagem central.

Com o decorrer dos acontecimentos, decerto se avolumará a empatia do leitor conforme são expostos os percalços vividos por Alessandro, relacionados a temas de grande identificação: as dificuldades de recolocação no mercado de trabalho quando a experiente maturidade substitui o viço da juventude, a resistências às mudanças, o crescimento da família e das decorrentes obrigações financeiras, a intromissão de parentes na gestão familiar, o desgaste do casamento, o adiamento de projetos que já deveriam estar em curso, a submissão das convicções ao pragmatismo das contas a pagar, a oscilação entre soluções que reduzem a realização e as realizações que reduzem as soluções, o sonho com a estabilidade, desvios de rotas, divisões internas, o abalo da autoconfiança, a constante reconstrução dos parâmetros de normalidade que a vida não consegue fixar. Em determinada passagem desta sua incursão autoficcional, André delata: “minha arma para isso era minha literatura confessional, abarrotada de conflitos pessoais”… Espelhos nos quais todos nos enxergamos em algum, ou em vários momentos da vida.

O drama cotidiano, assim, serve de cenário à trama que se segue e logo transcende as preocupações autorreferenciadas do protagonista para imergir na narrativa dos acontecimentos políticos que, objetos de sua cobertura jornalística cotidiana, passam a deflagrar um muito bem arquitetado painel das sempre supostas relações e das relativas contingências factuais que habitam os bastidores do poder, seja o público ou o privado. Tudo com requintes de verossimilhança calcada em ecos de realidade histórica e em arguta observação dos comportamentos das instituições privadas. Dessas profundezas, emergem reflexos de tais acontecimentos a condicionarem a manipulação de marionetes a serviço de empresas jornalísticas visceralmente envolvidas com o conjunto dos interesses em disputa no palco das cenas tão roteirizadas da política, sob pena de verem-se cortados os cordões do sustento se negada a adesão aos pactos que perpetuam os conluios.

O título, Só vale a pena se houver encanto, antecipa a intenção de André Giusti, plenamente traduzida em êxito, de desmascarar a hipocrisia, delatar conspirações, apontar a triste e, por vezes, desfigurada realidade que transita pelas mazelas da humanidade, porém sem abrir mão do lirismo que, encantado, vê possibilidades de superação, ainda mais se embasadas em preceitos como a coerência defendida a qualquer custo e elevada à condição da maior realização que se possa alcançar, mesmo que, por ela, abra-se mão de muitas outras conquistas! A opção do essencial em detrimento do supérfluo: perder a ternura, jamais! E não que tal busca faça de Alessandro Romani um baluarte da coerência, pois buscá-la não implica em alcançá-la com plenitude; assim, não raro, atuando no campo oposto do defendido em sua prédica, humaniza-se, ainda mais ao passo que fragiliza suas crenças quando traduzidas em ações desproporcionais.

Os subtítulos das duas partes em que a obra divide-se, feitos das datas que abrangem o período narrado, reforçam o caráter de uma espécie de diário em que o protagonista registra as ocorrências mais importantes do suceder de seus dias em constante ebulição, em inestancável transformação, o que o arremessa do centro dos acontecimentos às emoções por eles suscitadas e, delas, de volta para a marcha inestancável dos fatos de sua própria existência mergulhada em incessantes mudanças.

O personagem central, a exemplo de grande parte dos coadjuvantes, desfila sua complexa extensão com passos curtos de simples constatações: a personalidade bem definida revela-se no trajeto e, dela, decorrem seus atos e seus juízos a respeito de si mesmo. Repartido entre os principais binômios da modernidade, alterna os opostos com a singela sinceridade dos contemporâneos quando, por exemplo, vai em busca da espiritualidade em templos de medição, enquanto se confessa materialista extremo em passagens como “como a minha falta de grana, meu carro usado e meu apartamento pequeno são para mim: uma escada para o fundo do fosso da baixa autoestima.” E assim, par e passo com as sínteses que encontra na vivência dessas dicotomias, trilha seu longo e tortuoso caminho de autoconhecimento que finda reconhecido como o trajeto de todos os humanos.

No decorrer do livro, nos momentos de tensão, em que as emoções derivadas da reatividade frente aos acontecimentos sobrepujam os próprios fatos, aproximam-se as vozes do personagem narrador e do personagem protagonista, por meio de uma equalizada contaminação de coloquialismo que, por pouco, não as funde num quase discurso indireto livre. Em outros momentos, nos quais prevalece a relevância dos fatos, e não a de seus efeitos incidentes sobre os ânimos do protagonista, as duas vozes do mesmo Alessandro – a que narra e a que testemunha os próprios pensamentos e desejos – distanciam-se e voltam a soar em timbres diferentes. Modulação que, operada no nível da linguagem, é muito difícil de fazer, artifício de autores que dominam os diversos usos da palavra, principalmente para contar uma história com as sutilezas que conduzem o leitor, mesmo o mais experiente, a conclusões que não percebe de onde vêm, pois não se originam no discurso ou no enredo, mas na forma como são empregadas as palavras. Na boa literatura, é assim que se faz: a linguagem cria a história!

Emerge dessa densa voz repartida entre narrador e protagonista, um personagem que, em sua simplicidade, revela-se complexo ao passo que desfila seus contornos psicológicos sem a prédica de digressões, mas pelo comportamento cotidiano que revela seu perfil. Postulante a neuroses, despontam algumas obsessões com quesitos aparentemente fúteis, como marcas e procedências de vinhos e carros; com uns de senso estético, como o repertório cinematográfico e musical – que, aliás, propõem uma trilha sonora repleta de citações para o enredo –; com alguns existenciais, como idade e virilidade e com outros ligados ao caráter, como coerência e integridade profissional, que flagram um homem de meia idade em crescente crise que abarca e afeta todos os setores de sua vida em transformação: o conjugal e o familiar, o vocacional e o profissional, o econômico e o social… O fato de Alessandro frequentar um divã de terapia, torna-se um potente elemento narrativo de reflexão objetiva, sem desvios em questionamentos verborrágicos.

Alguns críticos, com preconceito às avessas, poderiam acusar o romance de ser mais um relato confessional de um homem branco, cis, hetero, classe média, com nível superior completo e repleto de crises pequeno-burguesas – esqueci algo? –, o que, nos últimos tempos, tem causado, mesmo aos membros mais aderentes à causa da defesa da diversidade, um divergente e desencontrado desconforto por serem o que são e por realizarem reflexões acerca da realidade que disso deriva. Por outro lado, se falam de outras condições, incidem-lhes acusações de estarem apropriando-se do lugar de fala alheio. Um impasse que André Giusti transcende sem escusas, por meio de uma narrativa vigorosa, repleta de questionamentos sociais, políticos, econômicos e psicológicos de alguém que valoriza a própria identidade como veículo suficiente para uma boa história autoficcional que, em determinada passagem, aponta até mesmo esse fato citado: “a tua literatura não é engajada em causas identitárias, não fala dos negros, dos gays, das mulheres, dos índios, da galera da periferia, do sertanejo nordestino”, afirma um coadjuvante acerca dos livros do protagonista, como uma intencional referência ao próprio livro em que se insere tal fala.

Por essas e outras, aproprio-me do título desta obra mais uma vez, com o fito de asseverar que sua leitura vale a pena, pois dela emana o encanto traduzido pela “dor e delícia de ser quem se é”, e de, em mais palavras emprestada do próprio livro, ser um personagem que “precisa ser apaixonado. Em casa, no trabalho, na cama, nos livros, na mesa. Se não estiver, leva a vida por levar, sem tesão, e morre um pouco a cada dia sem admitir que está morrendo!” Fica o convite para a leitura de Só vale a pena se houver encanto, este relato vivo, vivíssimo, em pleno curso do descobrimento do valor que evoca justamente a soberania da vida em plenitude, da paixão em primazia e do encanto em decorrência!

*Editor e escritor. Autor de Mãos de Deus, biografia autorizada do Padre Júlio Lancelloti

Paulo Bono segue esmurrando a direita (e a esquerda)

Há uma cena em Pepperoni, novo livro do escritor baiano Paulo Bono, em que o narrador vai parar em uma dessas feiras tidas como alternativas, em que a única coisa que não é alternativa é o preço: tudo caro pra cacete.

É um daqueles redutos do “afeto” e da esquerdinha gourmet, aquela que toma drinks coloridos dos quais parece sair fumaça de sinalizador da Marinha. Tudo é com afeto: comida, artesanato, roupas… com afeto e com um olho grande, bem aberto pro vil metal.

Em uma das cenas, é oferecida ao personagem uma camiseta de apoio a uma causa social, de que agora não me recordo, por módicos R$ 200, e ele fica calculando quantas camisetas decentes poderiam ser compradas por aquele valor para gente que não têm o que vestir.

Não tenho o prazer de conhecer pessoalmente o Bono, mas tenho a impressão de que ele se considera membro das chamadas minorias.

Se realmente ele se enquadra nelas, cresce minha admiração, porque ele não passa pano nem alivia pra esquerda, cuja dose de hipocrisia me parece ter crescido nos últimos anos, com cada segmento dessas mesmas minorias olhando emocionada para o próprio umbigo, e fazendo vista grossa, por exemplo, para a fome no país, segmento em que a direita não sabe manejar e nem tem interesse.

Ao longo de Pepperoni, o pau quebra pra esquerda, pra direita, pro centro, pro alto e pra baixo.

Paulo Bono não tem medo de escrever, de criar “raivinhas”, de ser cancelado , e eu não tenho medo de dizer que ele é um dos melhores autores da atualidade.

As caixinhas inimigas do sossego

O mundo anda barulhento demais.

Automóveis não fazem mais barulho apenas com motor e buzina.

Dentro é um exagero de alarmes.

Outro dia dirigi um elétrico. Um silêncio maravilhoso. Por fora. Dentro era piiiiiii a cada vez que eu piscava os olhos.

Fora os aplicativos de navegação com suas vozes metálicas mandando “virar aqui, virar ali”.

Mas nada pior do que as caixinhas de som portáteis, conectáveis pelo Bluetooth.

Elas são a desgraça da humanidade nos dias de hoje.

Uns meses atrás, em uma bela trilha aqui em Brasília, um grupo de rapazes transformou a cachoeira do lugar em baile funk.

No último fim de semana, um sujeito cruzava o cerrado por uma trilha estreita ouvindo música sertaNOJO, sufocando por onde passava o canto dos pássaros, o barulho do rio, o som do vento nas folhas. E a nossa paciência.

Certamente não lhes passa pela cabeça que todos esses ruídos são música. Música da natureza. Mas é esperar demais de quem escuta a trilha sonora do grotesco e que imbeciliza esse país há trinta anos, desde que o É o Tchan ganhou as paradas de sucesso.

Sou a favor de se explodir com uma bomba cada caixinha dessas que esteja aniquilando a paz e o sossego em local público.

Se estiver tocando pagode, funk bunda, sertaNOJO ou música baiana, que se use duas: uma pelo barulho e outra pelo mau gosto musical.

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