André Giusti - foto: Luana Lleras
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Eu sempre vou morar na 405 norte.

Dona vizinha me para e conta De quando chegou aqui em 1980, Dos filhos formados, que cresceram Brincando na portaria. As sombras verticais da tarde Também seguirão minhas filhas até o infinito, eu comento, E dona vizinha ainda me conta que os dela Nunca deixaram de correr na portaria da memória, Que até hoje brincam [...]

Dona vizinha me para e conta

De quando chegou aqui em 1980,

Dos filhos formados, que cresceram

Brincando na portaria.

As sombras verticais da tarde

Também seguirão minhas filhas até o infinito, eu comento,

E dona vizinha ainda me conta que os dela

Nunca deixaram de correr na portaria da memória,

Que até hoje brincam na portaria da lembrança.

(Dona vizinha tem nos olhos uma saudade

Que vai do primeiro  ao último dos pilotis do bloco.)

Eu gosto da dona-de-casa

Que passa com hora marcada

Para fazer a unha,

Da estudante que some no arvoredo

A caminho da universidade,

De quem veio do Maranhão

Do Piauí

E nunca mais voltou.

Há sempre lua alta que a madrugada derrama

Nos azulejos da cozinha

Quando bebo água no meio da noite.

Há sempre uns pingos da última chuva

pesando nas folhas,

virando breves cristais de sol

nas manhãs afobadas da minha pressa.

Há sempre o vento dando no alto das árvores

E o barulho das árvores conta de um tempo que não volta

Mas que também não vai embora.

(Por falar em tempo, dona vizinha,

Vamos conversando no caminho

Senão perderemos

o baile de inauguração da cidade)

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Comentários (10)

  1. Stella Maris Rezende -

    Querido amigo André, a nossa Brasília, a Brasília das pessoas trabalhadeiras e honestas, merece
    esse belo poema! Me encantou. Um abraço, Stella Maris

  2. Raquel Madeira -

    lindo, lindo, lindo, lindo.

  3. Ana Guimarães -

    Legal, André. Meu único irmão mora aí há décadas e gosta muito de Brasília, não quer mais voltar para o Rio, mesmo aposentado e com toda a família aqui.
    Abraços
    PS Apareça no meu eclético blog: O Gozo da Letra.

  4. Maria -

    Que bela homenagem!

  5. André Giusti Autor do post -

    Carioca sempre, nunca deixarei de ser. Brasiliense também porque aprendi a ter amor por essa cidade.

  6. Denise Giusti -

    Lindo, André. Parabéns para Brasília, que ao vê-la estampada nos jornais ontem, não pela corrupção, mas pela sua beleza e também de seu povo, cada um dando seu depoimento. Senti saudades daí, o coração bateu forte, vontade doida de fazer parte das comemorações, cidade que aprendi a amar, pois afinal moram meus 5 amores!!!

  7. Heloisa -

    Parabéns Brasília, que está sempre aberta para a chegada de novos vizinhos, que tenham os olhos também voltados para o azul de seu céu!

  8. Walkíria Matheus -

    É desta saudade ausência-presença que me alimento de muitos amores… e destas histórias viventes que mando afeto puro, para todos os lados!
    Sei que você me entende, caro poeta-escritor-André-gente- que sente…. Bjs, cunhado querido!

  9. paulo siqueira -

    GOSTEI DO POEMA, PARECE PROSA, PARECE UNS CONTOS EM PROSA QUE O DALTON TREVISAN ESCREVEU; SÓ QUE O SEU TEM MAIS POESIA..
    O DALTON É MUNITO SECO, NÉ? ABRAÇO.

  10. MARCOS OLIVEIRA -

    Lindo, André. Salve Brasília, apesar da corrupção e dos políticos. O Planalto Central tem gente muito boa, trabalhadora e que dignifica essa terra. Pessoas como você! Parabéns pra você também candango, por opção ou de coração? Abração, amigo!

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