André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Medidas na contramão

Um enorme engarrafamento se forma todas as noites no extenso corredor que liga o estacionamento dos fundos ao portão da frente de um curso preparatório para concursos públicos em Brasília. Há algo em comum nos carros que, no anda e para, pacientemente esperam a vez de chegar até a rua: cada um deles só transporta [...]

Um enorme engarrafamento se forma todas as noites no extenso corredor que liga o estacionamento dos fundos ao portão da frente de um curso preparatório para concursos públicos em Brasília. Há algo em comum nos carros que, no anda e para, pacientemente esperam a vez de chegar até a rua: cada um deles só transporta o motorista.

A cena expõe a falência do sistema de transportes de uma cidade que pretendeu-se planejada, pretensão essa que a cada ano esquece-se mais e mais perdida no tempo.

A situação não é particularidade de Brasília. O automóvel dominou as ruas das capitais brasileiras. A frota cresce ocupando o espaço do transporte coletivo. O limite do seu crescimento será, ao que parece, quando não conseguirmos chegar de manhã no trabalho ou à noite em casa.

E esse dia não está longe. Voltando a Brasília, estudo aponta que quase todas as vias do Distrito Federal estarão saturadas em oito anos. Falamos de uma unidade da Federação com cerca de 2,5 milhões de habitantes. As grandes metrópoles, então, já chegaram a esse lamentável estágio. Chegaram e nada continua sendo feito.

Ou melhor, é feito sim. Para piorar a situação.

Como se nada tivesse a ver com o assunto, o Governo Federal anuncia mais uma vez redução de impostos sobre vários itens, entre eles os automóveis de mil cilindradas, cujo acabamento, segurança e desempenho os fazem caros tenham o preço que tiverem, haja o desconto que houver.

É preciso estimular a economia aumentando o consumo, esse senhor que nos tornou modernos escravos de suas facilidades. Na ótica míope do mercado e das autoridades, país forte é aquele cujo povo compra – mesmo que não tenha necessidade – e se endivida – mesmo que não possa e deixe inadimplente o plano de saúde e a escola dos filhos.

Afinal, o que importa é o carro zero, mesmo que falte bem pouco para que qualquer trajeto a pé leve menos tempo do que em quatro rodas.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentários (3)

  1. Hugo Giusti -

    O Brasil esta ridiculo!!!!

  2. Denise Giusti -

    Ótimo texto. Observo isso no Rio, quando fico esperando ônibus na Praça da Bandeira onde o movimento é grande, a maioria dos carros somente com o motorista e as linhas de ônibus mal estruturadas, para alguns lugres tipo Zona Sul várias opções. Todo mundo querendo comprar um carro, mesmo se endividando, pois o transporte público de maneira geral vai de mal a pior!

  3. Denise Giusti -

    Ótimo texto. Observo isso no Rio, quando fico esperando ônibus na Praça da Bandeira onde o movimento é grande, a maioria dos carros somente com o motorista e as linhas de ônibus mal estruturadas, para alguns lugres tipo Zona Sul várias opções. Todo mundo querendo comprar um carro, mesmo se endividando, pois o transporte público de maneira geral vai de mal a pior!

Deixe o seu comentário!