André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

O risco de ver a lua cheia

Quando parou pela última vez para reabastecer, já passavam das quatro da tarde. E ainda faltavam umas cinco horas de viagem. Enquanto corriam os números no visor da bomba, ele decidia: ou encarava a estrada à noite para cumprir o plano inicial de chegar no mesmo dia, ou fazia o recuo estratégico, e na manhã [...]

Quando parou pela última vez para reabastecer, já passavam das quatro da tarde. E ainda faltavam umas cinco horas de viagem.

Enquanto corriam os números no visor da bomba, ele decidia: ou encarava a estrada à noite para cumprir o plano inicial de chegar no mesmo dia, ou fazia o recuo estratégico, e na manhã seguinte – corpo descansado, banho e café – seguia com mais segurança e disposição.

Ou a noite na estrada com seus mistérios, riscos e surpresas em aberto, tais como caminhoneiros à base de rebite, ou a mesma noite que seria outra se optasse por um hotel honesto, com a segurança da cama e o conforto do banho quente.

Escutou a si mesmo apesar do barulho dos caminhões que estacionavam no posto. Passando o cartão para pagar, ouviu-se dizendo que queria chegar e dormir em sua cama, sentir a água do chuveiro que conhecia, tomar do vinho que o esperava.

Acendeu os faróis, acelerou e aumentou os Stones, que embalavam a viagem desde a última parada: “I was born in a crossfire hurricane”.

Optou mesmo pelo risco que o levaria à satisfação. Deixou no acostamento a cautela acomodada.

Foi assim que já na primeira curva da noite percebeu, por trás de uma montanha, um clarão amarelando o céu azul escuro. Era a lua, em seu primeiro dia de cheia, plena, dona das estradas do céu e da terra. Ficou difícil dirigir, conciliar a tangência das curvas com o olhar querendo escapar pela janela e se perder nas alturas. Ela o acompanhou a viagem inteira. E aquela imagem, certamente, fará o mesmo até o fim da vida.

Mais tarde, já na madrugada alta da cidade, observava o efeito da luz do abajur transpassando a última taça cheia de vinho e pensava que mesmo o que se anuncia racional, ponderado, seguro poderá reservar riscos e desilusões. O hotel poderia ter pulgas, o chuveiro elétrico não aquecer a água, a cama dura esfarelar suas costas. A acomodação, assim como o risco, também pode trazer sua fatura algum dia.

E optando por ela, quantas vezes permaneceremos mal casados, infelizes no emprego e sem nunca termos visto a lua cheia nascer na estrada.

Lua cheia na estrada

 

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. Selma Mendonça -

    Linda lua! Coleciono fotos de lua, amei essa, obrigada!

    Amo vê-la desfilar no palco iluminada entre as estrelas brilhantes…

Deixe o seu comentário!