André Giusti - foto: Luana Lleras
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Os 7 X 1 dos 200 anos de desigualdade

Hoje faz um ano do maior vexame da história do esporte mundial. Acertou quem bem lembrou que nunca antes na história dessa galáxia, uma equipe, cujo país era a referência máxima de uma modalidade, foi tão humilhada em uma competição, até porque esta mesma competição acontecia no tal país referência. Um ano do 7 x [...]

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Hoje faz um ano do maior vexame da história do esporte mundial.

Acertou quem bem lembrou que nunca antes na história dessa galáxia, uma equipe, cujo país era a referência máxima de uma modalidade, foi tão humilhada em uma competição, até porque esta mesma competição acontecia no tal país referência.

Um ano do 7 x 1, e parece que nada mudou.

Ou melhor, talvez tenha mudado, se pensarmos na confirmação de que o futebol brasileiro era mesmo aquela fruta podre, aquele pedaço de carne estragado que já há alguns anos os mais lúcidos desconfiavam. Podre dentro das quatro linhas, mas principalmente fora delas.

Mas realmente, tirante isso, o mundo brasilis não está muito diferente daquela tarde de vergonha, em que finalmente caiu a ficha de que há algum tempo não éramos mais o país da pelota.

Foto: Biné Morais

Foto: Biné Morais

Juntamente com as fotos da tragédia (?) do Mineirão, nas redes sociais estão postadas as fotos do ladrão que foi amarrado a um poste e linchado no Maranhão após assaltar um bar. Claro, era negro e pobre, pouca chance na vida, menos ainda se caísse no nosso sistema prisional, ainda mais podre que nosso futebol. Diante disso, 71% de leitores do Jornal Extra, do Rio, que comentaram o assunto nas redes sociais aplaudiram e apoiaram o linchamento, porque no país da falta de planejamento é mais prático desprezar a vida humana do que tentar salvá-la lá na raiz, quando ela dá seus primeiros passos.

Jean Baptiste Debret

Jean Baptiste Debret

Na capa do mesmo jornal, acima da foto do linchamento, está uma das clássicas gravuras de Jean Baptiste Debret, na qual um escravo é chicoteado em praça pública.

A gravura é de 1815, portanto, tem 200 anos.

Tudo bem que hoje os negros já consigam, inclusive, cursar medicina, embora muitos virem a cara para isso (provavelmente, boa parte dos 71% aí de cima). Mas em dois séculos, essa situação de desigualdade deveria estar bem diferente. E pra melhor.

Mas não está, e isso é bem mais preocupante do que as coisas que não mudaram em um ano no futebol.

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Comentários (2)

  1. Sergio -

    Tristes histórias do cotidiano brasileiro. É como se levássemos uma goleada todos os dias.

  2. Ana Maria -

    André, sua percepção é lúcida e o seu texto impecável!

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