André Giusti - foto: Luana Lleras
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Pela primeira vez na vida eu quis ser um pitiboy

Os servidores federais permanecem de braços cruzados, no justo e constitucional direito de greve, de lutar por melhores salários e condições de trabalho. Mas se a greve faz parte da democracia – e realmente faz – as práticas da greve também devem observar o respeito ao semelhante. Da mesma forma, isso é democrático. Hoje pela [...]

Os servidores federais permanecem de braços cruzados, no justo e constitucional direito de greve, de lutar por melhores salários e condições de trabalho.

Mas se a greve faz parte da democracia – e realmente faz – as práticas da greve também devem observar o respeito ao semelhante. Da mesma forma, isso é democrático.

Hoje pela manhã, dois integrantes do comando de greve, em Brasília, tocavam, sem trégua, na porta de um dos ministérios, aquelas cornetas que ganharam o mundo na copa da África do Sul. Era como se dois caminhões estivessem estacionados na portaria e buzinando sem parar.

Meus tímpanos quase não suportaram as cornetadas nos breves quarenta segundo que precisei para atravessar a barulheira ensurdecedora.

Dessa forma, não há como se considerar a justiça do movimento. Com essas impiedosas buzinas, o que nos vem à cabeça é a falta de respeito, e mesmo misericórdia, dos líderes do movimento para com as pessoas que trabalham na portaria dos ministérios, e que são muitas. Observei que uma delas estava quase chorando de dor nos ouvidos, completamente atordoada, sem qualquer concentração no que acontecia a sua volta, principalmente no seu trabalho.

Desejei, sinceramente, no fundo de meus instintos mais humanamente enviesados, ser um daqueles grotescos pitiboys que arrebentam metade do mundo com uma das mãos. A outra metade desaparece com o golpe da outra mão. Pelo tempo em que fiquei exposto àquele desvario, quis, de todo o coração, fazer os “companheiros” engolirem aquelas buzinas. De preferência, com elas tocando.

A raiva já passou, embora persista o zumbido em meus ouvidos. Se desejo que a categoria consiga, ao menos em parte, o que está reivindicando, confesso que, do fundo de meus sentimentos inferiores, não há como não querer que os corneteiros estejam surdos depois que a greve acabar.

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Comentário (1)

  1. MARCOS DE OLIVEIRA -

    É a velha história, André: o meu direito termina onde começa o do próximo! Li também o post anterior – A recompensa. Parabéns, amigo. Deve ter sido uma sensação indescritível! Boa, ao contrário do buzinaço. Abraço.

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