André Giusti - foto: Luana Lleras
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Pipa

Encontrei-os na porta do restaurante esperando alguém ou algo feito um táxi. Eu vinha do mercado, carregava pequenos pacotes no início de noite. Reconheci-os de pronto, e eles se espantaram por isso. É que as lembranças mais antigas são as mais bem guardadas, eu brinquei, se nos conhecêssemos ontem perigava eu me confundir. E continuei [...]

Encontrei-os na porta do restaurante esperando alguém ou algo feito um táxi. Eu vinha do mercado, carregava pequenos pacotes no início de noite.

Reconheci-os de pronto, e eles se espantaram por isso. É que as lembranças mais antigas são as mais bem guardadas, eu brinquei, se nos conhecêssemos ontem perigava eu me confundir. E continuei simpático.

Por falar nisso, faz uns vinte anos a última vez? Arrisquei moderado, querendo ser gentil, pois eu mesmo sabia que fazia mais, muito mais.

Trinta daqui a quatro meses, eles corrigiram, foi no nosso casamento, logo depois nos mudamos para Brasília. E contaram ainda das idas e vindas até a vida chegar na normalidade da estabilização.

Falaram dos netos. Meus Deus! Como podem aqueles dois jovens naquela festa de casamento numa noite de verão serem avós?

E eu, que na mesma festa era só um adolescente de cabeça virada por uma garota um tanto mais velha que conheci num feriado de janeiro na praia e que jamais se deu conta de minha passagem pela terra?

Como pode aquele frangote insignificante que segurava o copo de coca-cola tentando imitar homem feito ter se transformado nesse sujeito subindo a rua carregado de pacotes, dúvidas e ansiedades?

E quando nos despedimos, pensei que o tempo é mesmo pipa que a linha ‘rebentou’ da mão da gente e que vai cair sabe-se lá em que terreno baldio, telhado de casa velha ou até mesmo mar desconhecido.

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Comentário (1)

  1. Denise Giusti -

    Belo texto, André! Poético!

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