André Giusti - foto: Luana Lleras
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Preconceito às avessas.

Desde que a televisão mostrou o governador pegando dinheiro de propina e o deputado enfiando grana na meia, que Zedias anda com umas idéias estranhas.

Passou a achar esquisito tanto rico na cidade.

Acha estranho que não haja um fim-de-semana em que não veja uma Ferrari desfilando pelo parque que fica na beira do lago, onde leva as três filhas no Fiat que ainda está pagando.

Não é raro cruzar com um Porsche estalando de novo, cortando a cidade com aquele barulho fantástico de motor. Fantástico e caro.

Zedias olha espantado as casas. “As pessoas devem se perder aí por dentro com tantos quartos e tantas salas”, ele pensa e sobe as escadas do prédio em que mora.

“Aqui não tem indústria, nada se produz que justifique tanto luxo”, e Zedias anda mesmo encafifado.

Tem dito aos mais chegados que desenvolveu uma espécie de preconceito ao contrário, contra rico.

“Pois é, vejo um bacana com carro de luxo importado, entrando numa mansão, já acho logo que roubou dinheiro público, que meteu a mão na grana da escola, do hospital.”

As pessoas olham Zedias de viés, uns sorrindo, outros franzindo a testa. Os amigos são condescendentes. Ora, os ricos parecem pessoas ilibadas, dignas, íntegras. É difícil acreditar que aquele gordo senhor entalado em colarinhos, sempre tão simpático nos jornais, que aquela senhora sempre promovendo chás de caridade metam a mão no erário, participem de esquemas.

“Ô Zé, tem gente que ganhou dinheiro honestamente, que compra carrão por que fatura alto, que construiu mansão por que soube guardar”.

“Pode ser, pode ser”, Zedias anda mesmo cético, descrente, não entende porque a sociedade não defende do mesmo jeito o negro pobre e de bermuda que cruza a rua de belas casas e desperta olhares de suspeita, de desconfiança.

“Ando sentindo umas vontades de gritar toda vez que um carrão para do meu lado no sinal. Dá vontade de berrar polícia, pega ladrão, roubou o meu dinheiro, o da criança pobre, o do velhinho doente!” e Zedias confessa meio a sério, meio brincando.

Até agora tem se controlado.

Até agora.

Desde que a televisão mostrou o governador pegando dinheiro de propina e o deputado enfiando grana na meia, que Zedias anda com umas idéias estranhas.

Passou a achar esquisito tanto rico na cidade.

Acha estranho que não haja um fim-de-semana em que não veja uma Ferrari desfilando pelo parque que fica na beira do lago, onde leva as três filhas no Fiat que ainda está pagando.

Não é raro cruzar com um Porsche estalando de novo, cortando a cidade com aquele barulho fantástico de motor. Fantástico e caro.

Zedias olha espantado as casas. “As pessoas devem se perder aí por dentro com tantos quartos e tantas salas”, ele pensa e sobe as escadas do prédio em que mora.

“Aqui não tem indústria, nada se produz que justifique tanto luxo”, e Zedias anda mesmo encafifado.

Tem dito aos mais chegados que desenvolveu uma espécie de preconceito ao contrário, contra rico.

“Pois é, vejo um bacana com carro de luxo importado, entrando numa mansão, já acho logo que roubou dinheiro público, que meteu a mão na grana da escola, do hospital.”

As pessoas olham Zedias de viés, uns sorrindo, outros franzindo a testa. Os amigos são condescendentes. Ora, os ricos parecem pessoas ilibadas, dignas, íntegras. É difícil acreditar que aquele gordo senhor entalado em colarinhos, sempre tão simpático nos jornais, que aquela senhora sempre promovendo chás de caridade metam a mão no erário, participem de esquemas.

“Ô Zé, tem gente que ganhou dinheiro honestamente, que compra carrão por que fatura alto, que construiu mansão por que soube guardar”.

“Pode ser, pode ser”, Zedias anda mesmo cético, descrente, não entende porque a sociedade não defende do mesmo jeito o negro pobre e de bermuda que cruza a rua de belas casas e desperta olhares de suspeita, de desconfiança.

“Ando sentindo umas vontades de gritar toda vez que um carrão para do meu lado no sinal. Dá vontade de berrar polícia, pega ladrão, roubou o meu dinheiro, o da criança pobre, o do velhinho doente!” e Zedias confessa meio a sério, meio brincando.

Até agora tem se controlado.

Até agora.

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Comentários (5)

  1. Eduardo -

    Acho que se eu morasse em Brasília, ia sentir o mesmo que Zedias: desconfiança dos ricos, asco, medo até. Tem disso em tudo o que é lugar, mas não é tão evidente em tudo o que é lugar. A sujeira endinheirada não nos esbofeteia a cara em outras cidades como em Brasília.

  2. André Giusti Autor do post -

    É mesmo, Hudson. O Zedias tem que deixar de ficar só na vontade. Quanto à PM…bem, quem é o chefe da PM, né?
    Obrigado pelo comentário.
    abs.

  3. Hudson -

    Eu acho que esse tal de Zedias tá demorando muito pra gritar. Esse Zedias é muito passivo. Só olha, olha, olha, reclama, fala baixo pelos cantos, fica impressionado. Porra Zé! Acorda rapá. ATITUDE. Tem que ir pra rua protestar. Ficar parado olhando é que não pode.
    E a PM dando porrada em manifestantes André? Será que estamos voltando aos tempos da ditadura? Ninguém pode mais protestar? Se protestar corre o risco de levar porrada da PM?
    VAMOS CHACOALHAR.

  4. Denise -

    Concordo com Raquel acho que Zedias qualquer hora dessas vai gritar, sim! Ele está doido de vontade …..

  5. Raquel Madeira -

    Eu acho, tenho quase certeza de que Zedias vai acabar gritando mesmo. muito bom, é até engraçado!

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