André Giusti - foto: Luana Lleras
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Regras para escrever ficção.

O texto abaixo foi ao ar no bate-papo literário, quadro que faço com o poeta Alexandre Pilati todas as 2ªs feiras às 16h51, com reprise às 3ªs às 11h31, na BandNews 90,5 FM – Brasília.   Por Alexandre Pilati.   A escrita tem regras? Escrever é um ofício? Redigir um romance depende de inspiração e [...]

O texto abaixo foi ao ar no bate-papo literário, quadro que faço com o poeta Alexandre Pilati todas as 2ªs feiras às 16h51, com reprise às 3ªs às 11h31, na BandNews 90,5 FM – Brasília.

 

Por Alexandre Pilati.

 

A escrita tem regras? Escrever é um ofício? Redigir um romance depende de inspiração e talento ou de dedicação, força de vontade e trabalho duro? Essas são questões que, de uma forma ou de outra, sempre estão presentes nos meios literários e não interessam apenas aos escritores, mas também a leitores sempre sedentos por descobrir como trabalham os seus autores favoritos.

Em 2007, por exemplo, o veterano escritor americano Elmore Leonard, de 84 anos, lançou um livro que teve grande repercussão entre seus inúmeros leitores e também entre escritores de todas as partes do mundo. O livro, intitulado As Dez regras para escrever ficção de Elmore Leonard, apresenta, em um texto enxuto, o que o famoso autor de livros policiais e de faroeste imagina ser o receituário básico daquele que se propôs o ofício de escritor. O livro ainda não está disponível em português, mas já é possível verificar a grande repercussão das recomendações de Leonard na Internet.

A tônica dos comentários que circulam na web é de apoio à visão “profissionalizante” do autor do famoso romance policial Jackie Brown, que virou filme nas lentes de Quentin Tarantino. Para Leonard, conhecido e venerado tanto pela extensa obra vigorosamente realista quanto pela grande qualidade dos textos, o escritor deve ser um sujeito direcionado ao trabalho duro com as palavras e à honestidade com seus personagens e suas histórias.

 

As dez regras: uma pesquisa do jornal The Guardian

Em fevereiro desse ano, o jornal The Guardian, do Reino Unido, pediu a 10 autores contemporâneos de língua inglesa que, inspirados nas regras de Elmore Leonard, indicassem as suas próprias regras, as quais deveriam ser seguidas fielmente por quem deseja escrever ficção. E o resultado, que pode ser conferido no site do periódico britânico, foi impressionante, pois há um consenso quase absoluto em torno da atitude profissional do escritor.

Quem não se leva a sério e não leva seu trabalho com seriedade e dedicação profissionais não tem futuro, segundo a totalidade dos autores entrevistados pelo The Guardian. Basicamente os autores se concentraram em regras que envolvem, de um lado, a rotina ideal do autor e, de outro, os cuidados básicos na hora de colocar as idéias no papel.  

No que se refere à rotina, todos os autores consultados parecem estar de acordo com uma regra mencionada pelo romancista Andrew Motion, que é simples e taxativa: “Trabalhe duro”, diz Motion, encerrando a sua lista de recomendações. Na mesma linha, e dando contornos empresariais ao ofício da escrita, segue Will Self, autor de Os grandes símios, publicado no Brasil pela Editora Alfaguara. Afirma Self: “Enxergue a si mesmo como uma pequena corporação de um só empregado.” Essa lógica corporativa é reforçada pela dica de Hilary Mantel, autora de A sombra da guilhotina, publicado pela Record: “Se você está certo disso [ser escritor], então arrume um contador.” Mas é Philip Pullman quem melhor resume o tino profissional que o aspirante a ficcionista deve ter. Sua regra é uma das mais originais entre todas as listadas pelos escritores consultados: “Minha principal regra é negar-me a responder pedidos como esse, os quais me afastam do meu próprio trabalho”.

 

O escritor: um ser paciente

No que se refere a métodos e técnicas da escrita de ficção, as regras elencadas são mais variadas, mas todas giram em torno da consciência que o escritor deve ter de que o seu ofício exige, sobretudo, paciência e cuidado. Annie Proulux, que é autora do best-seller Chegadas e partidas, publicado em português pela Bertrand Brasil, diz: “Escreva lentamente, à mão e apenas sobre assuntos que interessem a você.” Já Zadie Smith, autor de O caçador de autógrafos, reforça o cuidado com a concentração: “Trabalhe em um computador que esteja desconectado da internet”. Vários autores reforçaram também a importância do aprendizado e da leitura para quem deseja se tornar um bom escritor de ficção. A dica de Michael Moorcock, autor de Eis o homem, publicado no Brasil pela editora Saída de emergência, é bastante significativa: “Eleja um autor de quem você gosta e copie os seus personagens. Depois conte com eles a sua própria histórica. Assim como as pessoas aprendem a desenhar e a pintar copiando os mestres da pintura.

No fim das contas, a pesquisa feita pelo The Guardian serve para nos convencermos de que, neste século XXI, só sobreviverão os autores que não “romantizarem a sua vocação”, como disse Zadie Smith. Segundo ele, não existe um tipo de vida ideal de um escritor. O que existe é trabalho duro. É como bem sintetiza Jeanette Winterson, autora de Arte e mentiras, da editora Record: “Seja ambicioso com o trabalho e não com a recompensa por ele”. Parece ter ficado claro que autores consagrados só chegaram lá porque se concentraram em seu trabalho e não nos louros da vitória. Em literatura séria, estes louros podem demorar muito para aparecer. 

 

 

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