André Giusti - foto: Luana Lleras
voltar para o início do blog

Voando pela Noite (até de manhã) e Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília estão no meu site 2

Quando vim morar em Brasília, quase 12 anos atrás, o computador foi a solução para segurar a barra de ter me visto, de uma hora para outra, pego pelo colarinho e jogado no meio do Planalto Central sem conhecer nada nem ninguém. A cidade me foi uma imensa dor no início, feita de céu azul, [...]

Quando vim morar em Brasília, quase 12 anos atrás, o computador foi a solução para segurar a barra de ter me visto, de uma hora para outra, pego pelo colarinho e jogado no meio do Planalto Central sem conhecer nada nem ninguém. A cidade me foi uma imensa dor no início, feita de céu azul, avenidas imensas e quarto de hotel. Uma dor solitária, que hora mastigava, hora era mastigada pelas saudades do meu mundo.

Nos primeiros dias, pressenti que a situação não oferecia outra alternativa para aplacar a dor de minhas tantas ausências, o vazio de tantas distâncias. Sem escapatória, decidi transformar aquele quase exílio em experiência literária. Aluguei em micro, me enfiei no hotel e disso nasceu um dos mais intensos processos que vivi como escritor.

Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília não tinha esse título. Chamava-se Essa solidão, Brasília. Mas como aconteceu comigo em outros contos ( e até em livros), uma frase pinçada do meio do texto acaba batizando a obra, porque, em um estalo, a cabeça nos convence que aquela frase resume o carretel inteiro da história.

O conto, que é chamado de novela por alguns, é uma história de forasteiro, sobre como se sentem os forasteiros em Brasília, escrita para forasteiros, mas também para os brasilenses, para que saibam do impacto que a cidade, diferente de tudo que já vimos, causa em quem no estalar dos dedos se vê tendo que decorar ( e entender ) endereços sem nomes, precisando chegar no local indicado por um código com letras e números.

O título é um rápido tratado sobre a intimidade, partindo do princípio de que o ato preguiçoso e corriqueiro de bater a porta da geladeira com o pé decorre do grau de estreiteza que possuímos com pessoas e lugares.

É dos meus livros o mais autobiográfico, mesmo não sendo inteiramente isso. Relatei parte da experiência própria, mas a ela anexei histórias que ouvi, irmanadas à minha pela solidão e pela saudade.

Para que a narrativa não virasse um diário enfadonho, fugi da estrutura clássica, calcada na cronologia, entre outros elementos. As situações não dão continuidade umas às outras necessariamente, mas estão amarradas em um fio condutor que traz a reboque também saltos no tempo e nos próprios lugares, e passagens rápidas de bastão de um personagem para outro. Em tudo, procurei dar agilidade ao texto, para que a monotonia de uma vida de hotel-trabalho-rua oferecesse algum interesse ao leitor.

Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília foi publicado em 2004 pela editora LGE. O livro traz ainda outro conto, Dóceis Beatniks, que mantém a mesma estrutura narrativa.

Tags:

Gostou, compartilhe:

Comentário (1)

  1. Sócio -

    Saiba você que não tenho este livro. Tem algum sobrando aí?
    Quando estamos acuados lemos, escrevemos, escutamos, olhamos mais e falamos menos. Amamos mais. Esquecemos menos. Telefonamos mais e assitimos televisão de menos. Seria perfeito se não fosse demais.

Deixe o seu comentário!