André Giusti - foto: Luana Lleras
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www.camilapaier.com.br

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A moça me conta que quando passou no concurso para o banco foi trabalhar em agência, no atendimento.

Logo descobriu que era o que gostava de fazer.

Gostava de atender pessoas, de resolver o problema delas, de ajudá-las.

Gostava de gente, de conviver com gente.

Quando foi transferida de cidade, surgiu a oportunidade de crescer na empresa, de chegar à diretoria.

Mas ela não queria.

Queria continuar na agência, resolvendo problemas de pessoas.

O marido reclamou, disse que ela não poderia perder essa chance de crescer, de ser mais, de ganhar mais e ser ainda mais feliz.

Mas ela já era bem feliz na agência porque ajudava pessoas, porque gostava de gente.

O marido disse que ela não poderia continuar com menos, continuar sendo menos dentro do banco.

E ela aceitou crescer no banco, chegar à diretoria.

Mas nunca mais foi tão feliz quanto era na agência.

Resolvendo os problemas das pessoas.

Coitada dela, das pessoas que não tiveram mais a sua ajuda.

Mas, acima de tudo, coitado do marido e da sociedade, que acham que a gente nunca pode ser feliz ganhando menos e sendo menos.

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pordentrodamidia.com.br

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1 – Porque é carnaval, lembro-me de uma história sobre João Saldanha, contada por sua enteada Maria Flávia Penna. Ele achava que era muito fácil fazer rima em samba enredo, era só pegar o nome da avenida onde fica o Sambódromo do Rio, a Marquês de sapucaí, e meter lá pelo meio da letra um ti ti ti, um sapoti, um fi fi fi. “Queria ver se a avenida se chamasse Almirante Cochrane…”, dizia o velho João.

2 – Liberdade, teu nome (também) é bicicleta.

www.planetasustentavel.abril.com.br

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A exposição ComCiência está em cartaz no CCBB Brasília / inroutes.com

A exposição ComCiência está em cartaz no CCBB Brasília / inroutes.com

A exposição ComCiência, da artista plástica australiana Patrícia Piccinini, é impactante em vários aspectos.

Por motivos óbvios, o aspecto visual é o primeiro deles.

O segundo impacto, bem mais suave, é quando percebemos que aos poucos fomos envolvidos pelo amor e doçura expressos nos traços perfeitos dessas estranhas criaturas.

Onde deveríamos sentir repulsa, palpita a ternura – mesmo que ainda tomada de estranhamento -, porque, embora feitas de material sintético, as esculturas transmitem vida. Muita vida. Devido à exatidão dos traços, nem é preciso tanta imaginação assim para considerarmos que elas respiram e podem se virar para nós a qualquer momento, sorrindo e dizendo algo.

O outro impacto é quando sabemos que uma das intenções da artista foi denunciar práticas como racismo e xenofobia.

O choque ocorre porque, num primeiro momento, não cabe em nossa cabeça qualquer ligação entre aquelas formas perturbadoras e esses tipos de posturas abomináveis.
Mas isso é só num primeiro momento, pois logo logo a gente percebe a relação direta entre a expressão das figuras e o recado pretendido pela artista.

O último impacto, ao menos no meu caso, é sentido no final da exposição, e permanece por várias horas depois. E é ele o mais perturbador. É quando a gente fica sabendo que a exposição também se propõe a discutir pesquisas e mutações genéticas.

E depois que passa a vontade de rir porque lembramos da lenda da figura do cheester e da carne do hambúrguer do MaCdonald’s, sobrevêm receio, angústia.

É que a ficha cai e a gente para pra pensar se em algum dia, em alguma sala secreta de algum laboratório, tudo isso que inspirou Patrícia Piccinini já não aconteceu, acontece e vai acontecer muito mais.

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LEONARDO ARRUDA/ www.metropoles.com

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O que mais dói nem é a imagem do corpo do pai assassinado em um assalto na porta do colégio dos filhos, enquanto esperava para pegá-los na cidade do Guará, a uns 20 minutos de Brasília (sim, pra espanto da TV Globo, há coisas que não acontecem apenas no Rio de Janeiro).

Pelo que os jornais deram, o homem havia pego o carro novo na concessionária pela manhã, e depois foi buscar os filhos, uma menina do ensino fundamental e um rapaz do ensino médio.

Com essa informação, não é difícil imaginar o pai anunciando aos filhos, no café da manhã: “Vou pegar vocês de carro novo!”, e a ansiedade feliz dos dois, principalmente do rapaz, que está em uma idade em que automóvel representa muita coisa, inclusive masculinidade. É claro, no dolorido flash que nos passa pela cabeça, a mãe também sorri, satisfeita com sua família em paz.

A dor maior deixa de ser a imagem em si, fruto da estupidez, o corpo estendido sob o lençol branco. O que machuca muito – principalmente quem é pai, e se põe no lugar de modo automático – é justamente a quebra dessa ansiedade feliz e sua troca abrupta pelo choque da notícia da tragédia e seu imediato sucessor, o desespero.

O que dói mais é saber o quão foi tortuoso para esse menino e essa menina, em segundos, precisarem entender que não iriam mais voltar para a casa no carro novo do pai. Que não irão mais a lugar algum com o pai, nem no carro novo, nem de avião, trem, foguete, espaçonave, tapete mágico. Apenas, certamente, em pensamento e nos sonhos mais sentidos.

Como sempre, uma imagem possui muito mais significados além daquele que uma fotografia se limita a mostrar.

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Giustipress

Giustipress

Caro dono do pássaro amarelo chamado calopsita, que eu nem sabia que era uma espécie de pássaro.

É com imensa alegria que digo que ele foi para o lugar aonde ele está sendo o que deveria ser desde que nasceu: livre.

Torço muito, mas muito mesmo, que nem você nem qualquer outro criador ponha as mãos nele novamente.

É claro que vão dizer que pássaro de gaiola morre quando foge ou é solto.

Eu nunca vi prova dessa teoria, propalada geralmente por quem coleciona gaiolas ocupadas.

Além do mais, em cativeiro ele também morreria mais dia menos dia, mas preso e triste, com a casa toda achando que o canto dele é de alegria e não de desespero.

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Giustipress

Giustipress

Assumo minha paixão por automóveis.

Especialmente os esportivos.

Se italianos ou alemães, ainda mais.

Em caso hipotético e distante de riqueza, admito que não me furtaria a ter um BMW Z4. Me contento com muita felicidade em meus rolezinhos no meu Puma GTS 1978.

Adoro vinhos, especialmente os europeus, e devido à paixão pela minha ascendência, nutro devoção especial pelos italianos. Acho que os vinhos alimentam principalmente a alma.

Adoro comida, restaurantes bem servidos, camisetas descoladas e meus estilosos tênis all star.

Mas tenho uma quase certeza de que nada me acrescenta mais do que música e literatura.

Quando termino de ouvir bons discos ou ler grandes livros, sempre brota em mim a convicção de que depois deles sou uma pessoa melhor e que tenho algo de melhor a dividir com o mundo.

Penso que os dois – discos e livros – justificam algum apego ao materialismo.

Crente na vida após a morte, se no último minuto de minha existência me fosse dada a possibilidade de levar para o plano invisível algo de palpável que possuí neste planeta confuso, eu diria sem titubear, roubando o pequeno trecho da letra da canção de Zé Rodrix e Tavito: meus discos e livros.

E nada mais.

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Foto Ana Maria de Souza

Foto Ana Maria de Souza

O resto do país talvez não imagine, mas uma lei do silêncio mal formulada está encurralando os bares que tocam música ao vivo em Brasília.

Imposta por uma Câmara Legislativa anacrônica e sem idoneidade e aplaudida por uma classe média que só deveria existir de segunda a sexta, de 8h a 17h, dentro do pobre mundinho de sua repartição pública, a tal lei do silêncio opera a favor de quem alega defender o sossego, mas atenta contra quem deseja morar em uma cidade viva e alegre.

É uma incalculável ajuda à fama que Brasília possui em todo o Brasil de ser uma terra chata e sem nada para fazer, onde o tédio reina ao lado de sua esposa, a monotonia.

Mas há quem seja carne de pescoço e reaja a isso. É o caso da Conceição Freitas, lenda do jornalismo na cidade em forma de avião. Ou borboleta, como pregava o criador de seus traços.

Vítima de um desses irracionais cortes de pessoal que a imprensa vem promovendo nos últimos anos, Conceição está tomando conta da banca de jornal da emblemática 308 sul, a quadra modelo de Brasília, onde Lúcio Costa desenhou tudo o que queria que existisse na cidade.

De jornalista a “jornaleira”, minha colega de profissão está vendendo livros na banca, além de revistas e outros presentinhos que lembrem a cidade. Eu mesmo consegui um espaço honroso em uma das prateleiras – ao lado de Lúcio Costa e Maria Clara Arreguy – e “estacionei” um de meus livros de contos (A Liberdade é Amarela e Conversível) e uma coletânea sobre Brasília (50 anos em seis), em que tenho o prazer de dividir as páginas com Nicolas Behr, José Rezende Jr., Liziane Guazina, Nanda Barreto e Pedro Biondi.

No último sábado, 16, Conceição juntou um bando de jornalistas e escritores, ou só jornalistas ou só escritores (muito cuidado quando esse tipo de gente se junta), para um bate papo pra lá de agradável na calçada da banca, ao som de sax e violoncelo. É claro que rolou um selfie coletivo de classe, tirado pelo Tino Freitas.

Se cada jornalista que for demitido em Brasília tiver uma ideia parecida com a da Conceição, a cidade estará, para sempre, livre da caretice que a assola.

Foto Giustipress

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www.deliciasdereceitas.com.br

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- Eu não sei escrever versos, então…

Ela disse, se desculpando mesmo sem motivo, enquanto colocava sobre a mesa a travessa oval de espaguete ao sugo, a fumaça subindo ao teto, o aroma parecendo que ganharia a janela para alcançar os quatro cantos do mundo.

- Tudo bem, querida. Existem várias formas de se fazer poesia. A sua é cozinhar.

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http://www.adorocinema.com/

http://www.adorocinema.com/

Ao público em geral, um aviso: “Spotlight, segredos revelados” não é um filme sobre abuso sexual cometido por padres contra crianças.

Definitivamente, o mote do filme é apenas isso, um mote, e fica em segundo plano, embora em um e outro momento nos cause indignação e revolta.

Aos jornalistas, um outro aviso: é um filme sobre nossa profissão, que nele é retratada com suas mazelas e emoções, mas acima de tudo mostrada com sua verdadeira função e da forma como realmente deve e precisa ser exercida, ou seja, como instrumento de defesa dos interesses da sociedade. E apenas e simplesmente isso: defesa dos interesses da sociedade, de ninguém mais além da sociedade.

É filme obrigatório para os alunos de jornalismo, porque mostra como nosso ofício é maravilhoso, inigualável quando feito com gana, como amor, com paixão, mas acima de tudo com responsabilidade, comprometimento com a verdade dos fatos e com ética, inclusive da empresa jornalística.

Assistam e comparem com as aulas da faculdade e com o estágio que vocês fazem durante seis horas de segunda a sexta. Vejam em que ponto as coisas estão erradas em sua formação profissional e tentem mudá-las, mesmo que aos poucos, e começando pela própria conduta de vocês.

Mas é filme obrigatório também para os profissionais, inclusive os que já têm anos de formados.

Se para estudantes e focas apresenta uma forma acertada de se exercer o jornalismo, para nós, cascudos e rodados em redações e plantões de fim de semana e feriados, sejam de rádios, TV’s, impressos ou eletrônicos, Spotlight nos refresca a memória.

Ele nos lembra que nossa tarefa diária vai muito, mas muito mais além do encargo burocrático de se limitar a ouvir apenas dois lados de uma história, ou ainda dar-nos por satisfeito porque conseguimos passar a informação em tempo real antes do colega que está sentado ao nosso lado na coletiva.

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fa peigi

Já disse que as redes sociais representaram de alguma maneira a libertação de escritores.

Vinte, trinta anos atrás se o autor quisesse que seus escritos fossem lidos e não se perdessem no anonimato das gavetas, tinha dois caminhos: a paciência e boa vontade dos amigos (como importunei os meus!) ou a árdua batalha da publicação, dividida em duas frentes.

A primeira, a dos suplementos literários, nos quais a concorrência era grande – como ainda é – e em tantos casos requeriam conhecimento estreito e proximidade pessoal com quem os editava; e fanzines, que por aquele tempo começavam a surgir, principalmente nos meios universitários, como alternativa aos canais de publicação considerados mais formais.

A segunda frente para a publicação era a mais ortodoxa: o livro. Reuniam-se os textos, eivava-se de coragem e danava-se a bater à porta das editoras, donde vinha sempre a indiferença, ou no máximo um polido não: “apesar da qualidade, não é possível aproveitar seu trabalho no momento”.

Recorria-se, então, ao patrocínio do pai ou da mãe e ao empréstimo de amigos para que o livro viesse ao mundo em forma de edição independente a ser vendida, depois de publicada, em bares ou qualquer evento que tivesse cara de alternativo ou marginal. Poucos recuperavam o investimento e quitavam suas dívidas, e este certamente nunca foi o meu caso.

O que ganhei com essas edições? Muito divertimento, chope de graça em algumas situações e muitos tapinhas nas costas e palavras de incentivo.

Hoje, a exemplo das notícias, a literatura tem meio que uma pegada real time. Escreve-se agora, publica-se em cinco minutos na rede social, no blog.

Entre todas as desvantagens que isso possa vir a ter – e as que vejo são pequenas – há uma vantagem enorme em relação a quando comecei a escrever. Hoje em dia são bem maiores as possibilidades de sermos lidos. A literatura, principalmente no gênero da poesia, é material corriqueiro em nossas telas e smarts.

Embora eu seja péssimo com eles, acho que posso usar os números para tentar provar o que estou dizendo.

Nas últimas duas semanas, paguei R$ 50 ao feici búqui e publiquei dois poemas que, juntos, alcançaram 1.235 curtidas e 80 compartilhamentos, que na verdade são republicações gratuitas. Pelos números que recebi, mais de 30 mil pessoas viram as duas postagens.

Descontada a desconfiança que se deve ter em relação a esse montante de visualizações, é certo que ele não foi de meia dúzia de pessoas.

Com esse scout poético, reafirmei a pergunta que faço a mim mesmo há tempos: quando que, publicando meus poemas, contos e crônicas apenas em livros ou outro veículo impresso, eu teria mais de 1.200 leitores em poucos dias?

Espectro impensável, ainda mais para a poesia, gênero dos dois textos, limitado a um universo bem restrito de leitores.

O livro é sagrado e sempre será objeto de desejo meu como autor, mas como em outros campos da vida moderna, não se pode menosprezar, ou ficar cego para o potencial das redes sociais na literatura.

É claro que entre o que se publica há muita coisa de valor discutível.

Como sempre houve, há e haverá nos livros.

No cinema, no teatro, na música.

E na vida.
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