André Giusti - foto: Luana Lleras
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Qiando

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A vingança do timão

Quando eu li A Vingança do Timão, eu tinha por volta de 13 anos e minha cabeça era ocupada por três coisas: futebol, futebol e futebol.

Mas o gosto pela leitura já ocupava parte de minhas horas vagas há alguns anos. Portanto, um livro que falava sobre futebol reunia paixão e prazer. Com esse binômio, o li parecendo a Alemanha jogando contra a Seleção Brasileira: rápido e voraz.

Carlos Moraes nos conta a história de um time de meninos no interior do Rio Grande do Sul. A história nos fala de amizade, superação e liderança. Mas, acima de tudo, na figura do pobre e mirrado Bejeja, ponta autêntico que entortava os adversários, é história sobre o futebol como forma de expressar a arte, a alegria e de fazer com a bola o improvável e o impensável para os adversários, e deste modo ser uma das mais fortes e genuínas expressões da identidade brasileira.

Tudo o que dentro das quatro linhas comprovamos nesta Copa estar perdendo nos últimos anos.

Se querem mesmo renovar o futebol brasileiro, sugiro começar lendo A Vingança do Timão.

PS: Pra encerrar o assunto: é doloridamente irônico que a melhor Copa de todos os tempos (pelos menos entre as que assisti) tenha sido aqui, para vermos ao vivo a pior Seleção Brasileira da história.

 

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Já ouvi algumas vezes que a adoração aos Beatles se deve, em parte, à banda ter acabado em seu auge.

Pelé parou aos 37 anos, quando poderia jogar – dizem os mais velhos – pelo menos mais duas temporadas, ainda mais no futebol norte americano de 40 anos atrás.

Ayrton Senna virou semideus pela forma como correu e morreu, mas a esta última se pode acrescentar a idade – 34 anos – e ao arrojo e perícia com que ainda pilotava.

O que quero dizer é até algo que não é novo, mas me parece sempre pertinente: parar (ou ser interrompido) no auge, ou em estágio semelhante, parece reforçar a tinta do carimbo de nosso nome no papel da posteridade.

Nem sempre todos entendem isso, e ainda vão além: retornam aos postos nos quais se consagraram com o desafio de repetir o êxito, sem perceber que os instrumentos poderão não ser os mesmos, mas que a cobrança poderá ser ainda maior.

O Schumacher da Ferrari sempre viverá na memória de quem ama F1, mas o Schumacher que insistiu na volta pela Mercedez arranha, certamente, a lembrança que se têm do primeiro, o imbatível.

Felipão nunca foi um Telê Santana, nem na educação e muito menos no conhecimento sobre futebol.

Mas havia sido campeão do mundo. Penta campeão.

Parreira foi tetra, depois de 24 anos sem que o Brasil levantasse o caneco mais famoso do mundo.

Insistiu em voltar e fazer o mesmo na Copa de 2006. Não satisfeito, ainda deu o braço ao outro para voltar pela terceira vez.

Deve ser bem difícil ter a consciência não apenas da hora de parar, mas de saber que em alguns casos já fizemos o nosso melhor, que não seremos melhores do que nós mesmos fomos algum dia. De que não faremos do mesmo jeito que fizemos.

É algo que passa, quem sabe, por um certo senso de sobrevivência, de preservação da nossa imagem, do nosso nome.

Acho que pensar num jogador de pôquer que ganha uma fortuna numa noite e que na noite seguinte perde tudo, quando poderia ficar em casa curtindo a riqueza, explica um pouco essa situação.

Poquer

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Faca entre os dentes

Das quatro seleções que sobraram na Copa, acho a brasileira a mais fraca. A que menos apresenta padrão de jogo, a mais confusa taticamente, a dona dos passes mais defeituosos. A que possui os jogadores, digamos, mais medianos.

Sem Neymar, é um quadro com agrave considerado.

Isso torna a disciplinada, fria e calculista Alemanha favorita amanhã.

Só que não.

A estupidez do lance que tirou nossa maior estrela da competição (notem que na visão da Fifa é menos grave quebrar uma vértebra do adversário do que mordê-lo)pode ter posto um gosto de sangue na boca do escrete canarinho. Sangue não no sentido do uso da violência, mas no sentido da superação de que cada um que estiver em campo pode querer provar que não está ali apenas à sombra de uma única peça do elenco.

Talvez os especialistas em liderança corporativa pudessem falar melhor sobre isso, mas acho que a saída de Neymar divide de forma mais equânime entre a equipe a responsabilidade pela conquista do título.

E em última e mais simplória análise, é possível que queiram provar que não existe a tão decantada – e real – dependência que a Seleção tem do Neymar.

Ou seja, no frigir dos ovos, a joelhada do colombiano pode se transformar em fator positivo para a seleção e abalar a Alemanha e quem mais ainda vier pela frente. É torcer pra isso.

PS: Essa Copa do Mundo deveria ter returno.

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1.

A mordida de Luis Suarez no italiano é surrealismo tropical numa Copa em que a surpresa calçou chuteira a foi pra campo eliminar três campeãs do mundo e classificar em primeiro lugar uma seleção – Costa Rica – que todos apostavam que seria a última colocada no tal grupo da morte, e no qual ela acabou sendo a própria morte.

A atitude do uruguaio chega a ser patética, mas não sei se é merecedora desse rigor todo com o qual a Fifa ameaça o atacante. Ao longo da história das Copas, e também nesta, jogadores deram entradas assassinas em seus companheiros de profissão, que não apenas poderiam tirá-los do jogo, mas também colocá-los pra sempre em cadeiras de rodas. E não se vê qualquer atitude de condenação, sequer uma reprimenda pública por parte do condado de Blatter. Às vezes, nem amarelo o predador leva.

A dentada de Suarez não passa de uma esquizofrenia que jamais vai aleijar algum adversário.

Suarez 2

2.

Por incrível que pareça, tá dando (quase) tudo certo na Copa. Embora eu não tenha torcido para isso, temi seriamente que o bolo desandasse, que o país desse um pau do tipo computador obsoleto. No geral, tudo vai bem no aeroporto, no metrô, no trânsito e os black blocs estão em seu devido lugar. E quem está dizendo isso – pois a imprensa nativa jamais vai admitir – são jornalões do top do NYT.

O problema disso tudo é o Brasil se convencer de vez de que o improviso e o “deixar tudo para última hora” são mesmo as maneiras mais acertadas de se fazer as coisas.

3.

Acompanho Copas do Mundo desde 1978 e não me lembro de outra com nível técnico tão elevado. Acho que, até aqui, o número de gols corrobora com essa minha análise preliminar. Mesmo nos jogos em que não se balançaram as redes, houve bastante emoção. Japão X Grécia (classificada, outra surpresa) foi um dos exemplos. Pensei que ia dormir durante o jogo, mas não preguei  os olhos.

4.

A Copa de 1990, vencida pela Alemanha, foi a mais chata que vi.

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Miséria

Os frequentadores do restaurante natural
vestem camisetas de Marley Gandhi Luther King e Mandela.
Usam cabelo rasta
ferrinhos no nariz no beiço acima do olho
acendem incensos
e outras coisas
que fazem fumaça também
pra libertar a essência cósmica
interior transcendente de não sei onde
(eles não explicam muito bem).
Praticam taishi
meditação
terapias do além
seguem o guru malabarashibalabadoooom
e gritam que matar boi é crueldade
animalidade bestialidade
inferioridade espiritual.
Os frequentadores do restaurante natural
vão às passeatas
pedir pelo aborto
o amor entre iguais
o fim da corrupção
e ao fórum social
pela igualdade entre os povos.
Mas se a mulher pobre nordestina negra
aparece com criança no colo
catarro descendo
eczema à vista
cabelo ensebado
vendendo pano de prato
(um é três dois é cinco
ou intera a minha passagem, moço?)
olham pra ela de soslaio,
discretamente nauseados
procuram em volta o gerente:
nesse mundo liberal escroto
nem se pode mais comer
sossegado um quiche
de alho poró e tomate seco.

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números

 

Nunca fui filiado ao PT, embora tenha sempre votado nos candidatos do partido, com uma ou outra variação para outros partidos de esquerda. Ou pretensa esquerda.

No entanto, a postura dos governos Lula e Dilma diante de pontos como educação básica e sistema financeiro, por exemplo, me fazem chegar a mais uma eleição disposto a votar na candidata do partido muito mais por falta de opção do que por convicção, embora a figura humana da Presidenta me desperte respeito e admiração.

É que é difícil confiar o país a alguém que até semana passada era governo – e que agora cospe no prato fazendo discurso indignado – ou a alguém cuja vida pessoal, e mesmo política, é envolta em sombras (muito) mal explicadas.

Certo também é que nos quadros do PT, outrora paladino da ética, havia vários agentes ativos da corrupção. E em relação à própria legenda, houve complacência ou coligação com quem sempre fez da roubalheira e da politicalha rastaquera objetivo de poder e maneira de nele permanecer.

Mas me enfastia o discurso que amplifica a participação do PT em tudo isso, como se o partido fosse o desbravador da selva da patifaria, como se quem o antecedeu – e que deseja voltar com roupa de vestal grávida – jamais houvesse sujado as mãos de lama.

A alternância do poder, como reivindicam muitos, é saudável e necessária, desde que essa alternância não seja trocar seis por meia dúzia.

Ou, dependendo de quem seja a alternativa, até por menos.

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Eu não vi a partida de estreia da Seleção com as minhas filhas, mas soube que a do meio, ao ouvir a Dilma ser xingada pro mundo inteiro ouvir, perguntou à mãe: do que essas pessoas estão reclamando? Elas não têm casa, comida, roupa, escola boa, carro novo?

Ontem, arrumei um jeito de explicar pra ela como se comporta nossa elite, há mais de 500 anos. “É que gente mimada, filha, se você dá batata frita, quer sorvete; se você dá sorvete, quer chocolate; se dá chocolate, quer biscoito; e nunca olha pro lado pra ver que tem gente que nunca provou o gosto da batata frita, do sorvete, do chocolate e do biscoito”.

mimada

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1.Nelson Rodrigues dizia que, no estádio, brasileiro vaia até minuto de silêncio.

Muito bem. Mas pense se, quando há visitas em casa, você se comporta do mesmo jeito que quando está sozinho ou apenas com seu irmão, sua mulher, seu marido. Você usa na frente das visitas aquela bermuda furada na bunda? Arrota na frente delas igual a quando está apenas na frente de pai e mãe?

As vaias quando a seleção da Croácia entrou em campo para o aquecimento foram apenas o aperitivo da falta de educação da torcida de um país que, como sede do evento esportivo do ano, é simplesmente o anfitrião, e que deve ser, no mínimo, educado com seus convidados. Vaiar a Croácia foi como a pessoa que recebe em casa de cara amarrada, não convida pra sentar, não oferece um café nem um copo d’água.

Deixemos as vaias para os embates domésticos e que ela tempere, com todo o gosto que tem, apenas nossas diferenças clubísticas, pois o universo de uma Copa do Mundo é um pouquinho maior do que o do campeonato paulista, carioca, mineiro, gaúcho. Ou vamos mesmo receber as visitas de bermuda furada na bunda?

2. A abertura insossa e apática da Copa não mostrou o que é o país, e aquela estética industrializada de Cláudia Leite não passou nem perto da variedade sonora e rítmica de nossa música.

Acho que quem abriu verdadeiramente a Copa foi a torcida cantando o Hino Nacional. Foi de arrepiar.

Assim como foi de envergonhar o xingamento à Presidenta da República. É como se, além de usarmos a bermuda furada na bunda quando há visitas em casa, xingássemos também pai, mãe e irmão na frente delas.

Quer mandar a Dilma tomar lá onde a pata toma? Ou o Aécio? Ou o Eduardo Campos e a Marina? Faça isso no voto, em outubro, e depois cobre ética e respeito das autoridades.

3. Gostaria de entender como alguém compra um ingresso caro, vai ao jogo de abertura e manda a Fifa tomar no mesmo lugar que mandou a Dilma. Ora, por causa de quem as pessoas que xingaram estavam lá? Acho que não foi por causa da Cruz Vermelha.

maleducado

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