André Giusti - foto: Luana Lleras
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Entro na livraria do Centro Cultural Banco do Brasil, lugar que, em tese, é frequentado pela inteligentzia das cidades onde há CCBB. Brasília é uma delas.

Pergunto se há algum exemplar de Robinson Crusoé, e a menina que me atende pede, teclando com agilidade no terminal de consulta, que eu repita o nome do autor. Fiquei sem entender, pois eu não havia dito o nome do autor.

Ela insiste: o nome do autor, senhor, é Robinson de quê mesmo?

Sinto um aperto no peito tão grande, uma imensa pena daquela menina que veste o uniforme bem transadinho da livraria moderninha e chiquezinha, pretensamente cult, onde, se a coisa funcionasse bem mesmo, a vendedora deveria olhar nos olhos do cliente e com o mínimo de segurança discorrer  sobre clássicos, lançamentos e autores.

Ao mesmo tempo, sou tomado mais uma vez por uma imensa vontade de mandar o Brasil ir se foder, com seus faustões, lucianos hucks e Brunos & Marrones e afins.

Mas engulo a seco, explicando à menina que Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, é um dos principais livros escritos em todos os tempos para o público infanto-juvenil.

É importante que nos últimos dez anos um Brasil historicamente alijado do ensino, do conhecimento e da formação profissional esteja tendo oportunidades de entrar numa universidade e vislumbrar um futuro melhor do que o que antes lhe era reservado apenas em casas de famílias ou canteiros de obra. Da mesma forma é inegável o valor de termos quase 100% das crianças de sete a 14 anos na escola. Mas é preciso ir além de números em salas de aula e alcançarmos, finalmente, a consciência de que tão importante quanto é o conteúdo passado a esses alunos,  pois mais do que estatísticas, o que realmente  melhora uma sociedade é a capacidade de pensar e agir com base no conhecimento.

Robinson Crusoé passou 28 anos numa ilha

Robinson Crusoé passou 28 anos numa ilha

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Para que a tarde chuvosa não encubra a lembrança do céu de Brasília.

Asa Norte

Asa Norte

Esplanada dos Ministérios

Esplanada dos Ministérios

 

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Minha filha do meio estuda balé em uma das academias mais conceituadas de Brasília.

A apresentação de fim de ano foi neste fim de semana e reuniu, no teatro de um conceituado hotel da cidade, algumas boas centenas de pais, mães e avós, ótima oportunidade para que as afetações exageradas de classe média virassem disputa de quem tirava mais fotos ou armazenava mais horas de vídeos nos smartphones.

Acho que pelo menos umas 50 meninas subiram ao palco, quem sabe até mais. Fiquei até quase o final e saí sem ver sequer uma menina negra se apresentar no meio de tanta criança branquinha, lourinha (como minha filha é) e de cabelo lisinho bem padrão encantado de um espetáculo de balé.

A única moça negra que vi estava no balcão do café do hotel. Servindo.

Tudo bem que se discuta e não se concorde com políticas de promoção da igualdade, mas não é possível que entre uma foto e outra no aparelho de última geração, ou entre um e outro gritinho exagerado por causa da pupila que está no palco, a classe média não arranje um tempinho para pensar que uma situação como essa – a de não haver uma menina negra dançando balé na boa academia de elite de Brasília – não é normal, não é justa e precisa ser mudada.

Não é possível que mesmo quem não concorde com quotas ou qualquer outro sistema não ache que algo precise ser feito o quanto antes.

Antes que chegue o tempo de eu assistir às minhas netas dançando balé.

Preciosa Adams - Bailarina da Academia Bolshoi - Moscou. Fonte: http://arquivo.geledes.org.br/

Preciosa Adams – Bailarina da Academia Bolshoi – Moscou. Fonte: http://arquivo.geledes.org.br/

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Beibi, essas nossas noites vazias doem feito luto.

Voltar pra casa às cinco da manhã quando se tem 20 anos

é sinal de vida, é aventura. É normal.

Na metade dos 40 é só disfarce pra solidão.

So lonely

 

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Qualquer senso crítico mais aguçado perceberá que algumas práticas corriqueiras e históricas no serviço público são absurdas.

Isoladamente podem até não ser, mas repetidas automaticamente, dia a dia, ao longo de décadas, tornam-se absurdas devido justamente ao montante considerável de tempo.

Na inciativa privada, quem quiser tomar o cafezinho que move melhor a roda do expediente tem que pegar na copa. Em alguns casos, a própria pessoa precisa fazer.

No serviço público, uma copeira uniformizada prepara o café para que um garçom vestido de pinguim percorra todas as salas de uma repartição servindo cada um, de mesa em mesa.

Ao longo dos anos, o salário de cada copeira e cada garçom nas repartições públicas saiu do bolso contributivo do trabalhador.

O Brasil tem uma vocação nata de servir – com tons de bajulação – a quem na verdade é pago para servi-lo.

No Congresso Nacional há elevadores privativos destinados aos deputados e senadores, como se eles fossem pessoas de casta superior que não pudessem se misturar a quem, de forma direta, os colocou lá e trabalhando paga os impostos que lá os mantém.

Mas, claro, privilégio não é privilégio do Legislativo. Dia desses, no Ministério da Saúde, um dos elevadores esperava há quase meia hora com a porta aberta e ascensorista lá dentro, com cara de paisagem. É que a qualquer momento o ministro sairia do gabinete com destino a algum compromisso.

O servilismo tupiniquim a deputados e senadores é o mesmo que parece achar que a saúde no país para ficar melhor ou pior depende de o ministro esperar ou não o elevador chegar.

paulo-portas-ascensorista

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É relativamente fácil explicar porque determinados programas de TV estão no ar há tantos anos. Aliados, formato e produção fizeram – e fazem – com que atravessassem décadas no vídeo dos brasileiros, marcando religiosamente a hora do dia, o dia da semana. Mesmo que eu passe longe da TV na hora em que estão sendo exibidos, tenho que admitir que é o caso do Fantástico, do Domingão do Faustão, do Gugu, do Vídeo Show (Meu Deus! Será que não há um exemplo de bom gosto?).

Mas como explicar a permanência – e o sucesso – do Chaves? Se não me engano, ele, Chapolin, Kiko, seu Madruga e os demais já estão arrancando risadas da segunda geração de brasileiros. Agora mesmo, enquanto escrevo, minhas filhas perdem o fôlego de tanto rir na sala. Pela frieza lógica da produção televisiva de hoje, calcada na tecnologia, nos efeitos, no apelo visual, seria inxistente um lugar para Chaves e seu tosco aparato mexicano de cenários, de mixagem e edição de fundo de quintal. Se fosse automobilismo, diria que um Fiat 147 se mantém na pista ao lado de Ferrarris, Masseratis, Porsches.

Precisei lançar meu olhar de pai para entender a durabilidade de Chaves na TV. Ele se porta como criança, foi a conclusão a que cheguei. Faz as mesmas trapalhadas que seus telespectadores fazem ou gostariam de fazer, e da mesma forma inocente, pura, relaciona-se com o Kiko, com a Chiquinha, figuras facilmente identificáveis por nossos pequenos com o amiguinho da escola, a coleguinha do prédio. Daí cheguei à conclusão do óbvio, mas que parece ignorado pela mídia talvez nas duas últimas décadas: a criança, por ela mesma e sem interferência, quer ser tratada como criança, e não como projeção de adulto – mini gente grande  – usando sapatos de salto, maquiagem, roupas que antecipam a sexualidade e vivendo experiências que ela, pela própria característica biológica, não consegue processar.

Provavelmente os produtores de Chaves nunca pensaram em chegar ao sucesso evitando essa “antecipação” de uma maturidade restrita ao invólucro, mas acabaram acertando em cheio.

*Publicado em agosto de 2011

Chaves

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Ah, aquele biscoito que quem sentou na mesa do café do shopping antes de você deixou intacto na bandeja que a garçonete esqueceu de recolher!

Biscoito

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Otário

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Bikes

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