André Giusti - foto: Luana Lleras
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www.correiobraziliense.com.br

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Acho que hoje galguei uns três degraus na escada da minha evolução espiritual.

Passei três horas dentro do Detran do Distrito Federal. Sem me irritar, sem reclamar. Quem mora aqui sabe que isso é para os fortes.

Às oito da manhã, me deparei com uma fila de umas 200 pessoas. Para pegar a senha. Lá dentro, umas 300 já aguardavam o atendimento. Gastei metade de meu dia esperando que o documento do meu carro fosse liberado.

Deixei para a última hora resolver pendências. Aliás, para depois da última hora, pois o prazo para isso venceu na semana passada. Então, além do Estado, havia outro culpado por eu ter passado três horas da minha vida em uma repartição pública cuidando de burocracia: eu mesmo.

Respirei fundo e pus na cabeça algo que já deveria ter posto há anos: os maiores prejudicados somos nós mesmos quando perdemos as estribeiras, quando perdemos o controle diante de situações adversas, muitas das quais nós mesmos procuramos com nosso desleixo em resolver as coisas na hora em que deveriam ser resolvidas.

Saí de lá com a documentação do carro legalizada, livre de mais dor de cabeça caso fosse parado numa blitz. E saí leve, sem ter jogado adrenalina desnecessária no sangue e um monte de ácido nas paredes do estômago.

Na rua me perguntei por que não ajo sempre assim, e me prometi me fazer acompanhar em situações futuras e semelhantes desse sujeito que hoje esteve no Detran.

O que não isenta o Estado da obrigação de prestar bom atendimento ao contribuinte. Seja ele zen budista ou um fio desencapado em forma de gente.

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cantinhodisney.blogspot.com

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Acho que quase sempre ganhamos quando não optamos pelo óbvio, quando caminhamos na contramão do que o senso comum, plantado tantas vezes pela mídia, nos impõe.

Há uma semana assisti a um belíssimo espetáculo: Cora dentro de mim, com a atriz Lília Diniz e direção de Adeilton Lima. O texto é uma costura maravilhosa com os poemas de Cora Coralina, e deixa claro que a autora goiana viveu muito à frente do seu tempo e da gente que morava na sua amada Cidade de Goyaz, capital antes de Goiânia.

O preço? R$ 20. A inteira.

No mesmo dia, vi numa dessas faixas verde limão, penduradas em um viaduto, o anúncio de uma peça que, pelo nome, deveria ser um arremedo de piadas banais sobre sexo e relacionamento. Algo que, mesmo que eu não tenha visto, me pareceu ser bem próximo de lugares comuns que já estiveram nos palcos e telas do país, tais como Qualquer gato vira lata tem uma vida sexual mais sadia que a nossa e Se eu fosse você.

Não cheguei a saber o valor do ingresso, mas pelo teatro em que estava sendo exibida a peça, não deve ter ficado por menos de R$ 60.

Há duas semanas, com minhas três filhas, assisti de graça a duas apresentações integrantes do festival Espetaculim, que reúne espetáculos com motivos circenses. Com graciosidade, leveza, humor verdadeiramente engraçado e originalidade, os artistas, com aquela emoção que só os mambembes conseguem ter, levaram às minhas filhas, às outras crianças e aos adultos presentes o encanto e a pureza que o circo carrega através dos tempos.

Já neste fim de semana, atendendo à vontade das pequenas, fui ver Hotel Transilvânia 2, e me convenci de que, cada vez mais, o cinema americano infantil é uma linha de montagem, um pacote de forminhas em que se coloca o recheio da ocasião. O filme não é mau – e é difícil ser com tanto dinheiro e tecnologia -, mas exibe o mesmo e surrado repertório banal de piadas, situações, conflitos e desfecho, permeado pela costumeira lição de moral barata, e sempre superficial, do cinema americano.

E para tornar esse caramelo mais enjoativo, morri em 80 pratas, pois só havia sessão em 3D (algo que na minha irrelevante opinião nem faz taaaaaaaannnnta diferença assim).

Conclusão, fugir do óbvio não me parece melhor apenas para a cabeça, mas também para o bolso.

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www.midiagospel.com.br

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O bom senso é uma espécie de parente próximo – um primo íntimo, talvez – da boa educação e do respeito ao próximo.

Penso que certos adeptos de religiões deveriam tê-lo em conta na forma como procedem socialmente, por exemplo.

Outro dia soube de um aniversário de criança, no qual pouco antes do “parabéns pra você” foi celebrado um culto evangélico, seguindo a crença da família. Parece que não demorou muito, mas quem recebeu o convitinho não sabia que em determinado momento da festinha teria que presenciar um culto de uma fé que não professa, e que por isso não costuma ir às igrejas. Prefere a festinha de aniversário dos filhos dos colegas de trabalho. Foi o caso de muitos ali.

Recentemente fui testemunha de situação bem semelhante. Em pleno recital literário, o sujeito que se dizia poeta pegou o microfone e mandou seus textos bíblicos, com explicações enfadonhas sobre personagens e passagens do livro escrito por homens, é bom que se diga, e, como tal, sujeito a interpretações particulares e não necessariamente iguais as de quem está lá, professando sua fé em local claramente inadequado, para um público desavisado e na sua maioria descrente. Como foi ocaso a que me refiro.

Religiões merecem respeito, bem como quem as segue, mas o mesmo vale para ateus, agnósticos e afins.

Jesus disse “ide e pregai”, mas não me consta, mesmo que pouco eu conheça dos evangelhos, que tenha dito “ ide, pregai e enchei o saco”.

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ioeste.com.br

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Cada um vive um relacionamento amoroso da forma que achar melhor. Se este melhor é ter dois ou três namorados e namoradas, e as outras partes envolvidas aceitam isso com tranquilidade, muito que bem. Cada um viva a sua vida.

Mas há algo no poliamor que me incomoda, e não é o princípio de você e o outro ou outra poderem ter mais um ou dois relacionamentos simultâneos, com o conhecimento e aceitação de todos.

O que me incomoda é o tom um tanto politicamente correto de alguns adeptos. Namora-se e se transa com dois ou três por amor, e não apenas por desejo sexual, aventura, flerte, variação. Todos amam todos, e segue a dança. Então, não há infidelidade, e se não há esta, não há desrespeito, consequentemente.

Acho que em parte dos casos as pessoas até podem agir assim porque realmente sentem algo maior por duas, três pessoas. Ou acreditam que sentem. Mas há de se considerar a hipótese de quem adote o discurso só para posar de íntegro, correto e, claro, moderno, porque a intenção real mesmo é flanar com dois, duas ou mais, mas não deixar de parecer bacana.

Em outras palavras, há quem acredite mesmo no poliamor como melhor maneira de viver um relacionamento, mas há, por certo, quem tenha tucanado a galinhagem.

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www.bolsademulher.com.br

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Você gosta de cachorros, certo? Eles são bacanas, pelo menos a maioria costuma ser. Eu também gosto. Minha namorada tem dois, e de vez em quando eu até faço uma festinha neles.

Mas tem gente que não gosta, ou não gosta tanto, e tem o direito de andar pela rua sem se sentir ameaçada pelos cãezinhos que vão livres, leves e soltos, sem coleira e guia, mesmo que vigiados pelo olhar carinhoso do dono.

Há dois dias um filhote de pastor alemão parte pra cima de mim quando estou correndo perto da minha casa. O dono diz que ele só quer brincar. Eu não sei disso, pois não conheço o cachorro e não tenho obrigação de saber nem de conhecer. Mas o dono tem a obrigação de trazê-lo à mão.

Uma vez, num parque, um labrador enorme correu pra cima de uma das minhas filhas, à época com cinco anos. Ela estava pedalando e quando viu o bichão vindo pra cima, ainda que só pra brincar, se apavorou, perdeu o equilíbrio e bateu com queixo no chão.No caso desse filhote de pastor, era eu, um adulto, mas poderia ser uma criança que, assustada, corresse pro meio da rua e fosse atropelada. Para uma tragédia, não faltaria muito.

Você vai dizer “ah, ele é manso, ele não faz nada, eu conheço meu cachorro”. Você é totalmente capaz de responder pelos instintos do animal? Você tem absoluta certeza de que ele nunca, em tempo algum, vai surtar?

Olha, é melhor prevenir, viu? Se acontecer um acidente, sua vida nunca mais será a mesma.
Embora você goste muito de cães, eles não são mais importantes do que as pessoas, do que o respeito ao semelhante e aos direitos destes.

E pra encerrar, não se esqueça de recolher o cocô do seu bichinho, tá? Ah, você já faz isso? Que bom! Convença a quem não faz.

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314 norte, Brasilia

314 norte, Brasilia

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www.focoincena.com.br

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Cada vez mais é fundamental resgatarmos a história do Brasil e trazermos à luz fatos simplesmente deixados de lado pelo oficialismo chapa branca dos livros de escola, lapso que no geral foi cometido propositalmente a serviço do interesse das elites nesses mais de cinco séculos.

Quando esse resgate é feito por meio da arte, do teatro, por exemplo, tanto melhor.

É o caso da vida de Chico Rei, que não à toa tinha este nome. Ele era monarca em seu país, o Congo, quando foi aprisionado e trazido para o Brasil pelos portugueses, para ser escravo, é claro. Na viagem, em navio negreiro, viu a mulher e a filha serem jogadas em alto mar.

Mas o cara não foi rei por acaso. Depois de uns três anos na lida diária em mina de ouro, conseguiu comprar a própria alforria, juntando – no cabelo – o pó de ouro que sobrava ao fim do dia de garimpo. Liberto, juntou dinheiro a ponto de comprar do sinhozinho a mina em que trabalhava. Rico, saiu comprando as alforrias de centenas de escravos. Libertou pra mais de 400.

E essa história, uma das tantas ocultas na história do Brasil, é contada no musical Galanga, Chico Rei, que tem direção de João das Neves e músicas de Paulo César Pinheiro. A peça já passou por algumas cidades e esteve aqui em Brasília no último fim de semana. Se não passou pela sua cidade, fique de olho, e quando passar, não deixe de ir. Você, se não conhece a história de Chico Rei, vai conhecer de uma maneira encantadora e emocionante, com belas músicas e um show de intepretação, canto, ritmo e percussão que há muito eu não via no teatro. Ao final, compre o CD (R$ 20), porque, igualmente, vale muito à pena.

Mas olha, nem era desse o assunto principal desse post, sabia? O principal é dizer que fui à peça porque meu amigo, o ator Adeilton Lima, a recomendou em sua página no feici búqui, mostrando que, não obstante a bobajada diária que a entulha, a tal de rede social pode mesmo ser uma importantíssima ferramenta de (boa) informação.

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Eu e sérgio efeito

Meu amigo prepara a pequena câmera digital amadora e a pousa no tripé, que apesar da aparência frágil, tem boa sustentação, mesmo fincado na brita do estacionamento do Estádio Mané Garrincha.

Dos cultuados anos 80 à segunda década deste século de revolução tecnológica, são 31 anos de amizade. Muita gente, nesse país e mundo de tragédias e barbáries, não chega a soprar tantas velas no bolo.

Apesar desse tempo todo, é a primeira vez que vem a Brasília, e esta será nossa primeira foto na cidade.

Ele ajeita com preciosismo tanto a câmera quanto o tripé, e mesmo com o equipamento pronto para disparar, ainda checa um último detalhe.

- Vem logo, caralho, senão tu não sai na foto! – digo alto, ao que ele responde com uma corridinha em minha direção, ainda ágil feito um garoto, apesar dos 47 anos.

Abrimos os sorrisos e assim ficamos por aqueles segundos que parecem eternos, antes que a foto seja batida. Ouvido o clique da máquina, nos desfazemos da pose, dizendo as mesmas barbaridades que dizíamos um ao outro quando tínhamos 15 anos.

Ele pega a câmera e faz ar de surpresa.

- Ih, cacete! Sei lá o quê eu fiz que ela bateu uma porrada de foto da gente andando…- e ele me mostra a sequência de nós dois lado a lado, dando passos à frente, braços jogados, sorrisos naturais, jeito espontâneo. O que não foi programado é muito melhor do que a foto em que cruzamos os braços e prendemos a respiração.

- Parece foto de capa de disco…- ele diz me mostrando uma em especial, em que nossos sorrisos parecem mais sinceros, levando a crer que a vida não precisa mesmo de muita coisa para valer a pena.

Talvez precise, basicamente, ser verdadeira e autêntica, sem fingimento ou poses forçadas, feito alguém que aparece bem numa foto sem saber que foi fotografado.

*Publicado originalmente em 19.11.2014

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corneta4.blogspot.com

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Torcer pelo Flamengo é uma das maiores convicções de minha vida.

Desta forma, o reverso da medalha é desejar, com ardor semelhante(mas não na mesma intensidade, (até porque o objeto em questão não merece tal comoção emocional) que o Vasco esteja sempre no mais rasteiro, úmido, fétido e obscuro dos limbos do planeta terra.

Mas devo confessar que o massacre sofrido pelo arquirrival em Porto Alegre me despertou um nobre – e estranho – senso de piedade. Eu gostaria que existissem dois Vascos da Gama. Um seria o dos meus amigos, por quem o afeto é infinitamente maior que as diferenças clubísticas. O outro é o Vasco do Eurico Miranda.

Gostaria, com a sinceridade de amigo, que o primeiro não fosse rebaixado,que o time poupasse meus companheiros cruzmaltinos de copos e aventuras da dor e da vergonha de ver o time rebaixado pela terceira vez no intervalo de apenas uma década.

Quanto ao segundo, o deste câncer do futebol e da moralidade nacional chamado Eurico Miranda, este sim, que fosse parar na 23ª divisão do futebol do Nepal. E que por lá permanecesse por toda a eternidade. E que isso representasse o banimento de Eurico do mundo da cartolagem, levando consigo tudo de ardiloso que o fez contribuir, e muito, para a morte do futebol brasileiro, começando pelo carioca.

O problema é que, olhando a tabela e assistindo aos jogos do time, acho que nenhum dos dois, nem o Vasco de meus amigos, nem o do Eurico, caso existissem, podem se livrar do rebaixamento.

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DSC_0720

A foto foi feita em frente à sede do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

Talvez nem seja um caso de individualismo automotivo, aqueles em que o sujeito pensa primeiro em seu carro, e depois no semelhante que, a pé, precisa usar a calçada. Talvez, distraído, ele nem tenha se dado conta do que fez.

Mas isso só aconteceu – e não é apenas a cara de Brasília, mas do país da qual ela é a capital – porque o Brasil é cada vez mais escravo do automóvel.

Como súdito da indústria automobilística, cede aos encantos das linhas de montagem, que nos últimos anos acharam por bem investir e entupir as ruas com essas monstruosas caminhonetes, cuja vocação é para andar no campo, e não atulhar ainda mais o espaço exíguo das grandes cidades.

Cada vez mais raras, as vagas de estacionamento parecem ainda menores nos últimos anos com a ascensão de tudo quanto é tipo de Hilux, quem sabe o mais banal demonstrativo de status de nossa pobre classe média endividada.

Se os governos, ao longo dos últimos 60 anos, optaram pelo desleixo com o transporte coletivo e nos obrigaram a trocar os pés pelas rodas, que nós, ao menos, procuremos, quando formos comprar um automóvel, fazer escolhas mais sensatas dentro da opção errada que nos foi imposta.

PS: Por falar em classe média, ela reclama tanto só de imaginar em voltar a pagar a CPMF, mas paga feliz R 20 por um suco de laranja em Brasília só porque o restaurante é da moda.

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